Edição 1831 . 3 de dezembro de 2003

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Televisão
Um retrato do telespectador

Pesquisa inédita revela hábitos
e preferências do público


Ricardo Valladares


Índices de audiência são uma ferramenta importante, mas não suficiente, para quem quer compreender a relação do público com a televisão. O ideal é que eles sejam complementados de tempos em tempos com outras formas de pesquisa, que abordem com mais minúcia os hábitos do espectador. Essas pesquisas são raras no Brasil. No ano passado, o Instituto Datanexus realizou um grande estudo desse tipo. Usou os dados internamente por alguns meses, e agora decidiu divulgá-los. VEJA teve acesso exclusivo ao material, fruto de entrevistas com 3.800 pessoas da região metropolitana de São Paulo. Carlos Novaes, diretor do Datanexus e coordenador do estudo, afirma que os resultados podem ser aplicados a outros grandes centros urbanos brasileiros, mas não a cidades pequenas, onde o cotidiano é organizado de maneira diferente. A pesquisa é rica em informações curiosas – e até surpreendentes. Ela mostra que as mulheres mandam no controle remoto na maioria dos lares. Revela que a TV agrega as famílias e dá ensejo a diálogos em casa. E indica que as pessoas dão grande valor ao jornalismo, considerado um item fundamental da programação até mesmo quando o intuito do espectador é divertir-se.

Segundo os números do Datanexus, em 33% dos domicílios é a dona da casa quem manda na televisão na maior parte do dia. O poder feminino aumenta conforme diminui a renda familiar, e não o contrário. "Esse é um dos pontos em que a mulher menos abastada faz valer seus direitos dentro do lar", diz Novaes. O auge da influência ocorre à noite, entre as 18 horas e a meia-noite. Só depois disso o controle passa às mãos do marido ou do filho homem. As meninas são "teleoprimidas", segundo a pesquisa. Raramente têm a chance de escolher o programa a ser visto pela família. Deve-se destacar uma tendência: a liberdade das crianças diante da TV cresce cada vez mais, sobretudo quando há mais de um televisor na casa. Na classe A, 34% das crianças já têm um aparelho só para elas.

É comum pensar que a televisão isola as pessoas, mas os números do Datanexus não confirmam essa tese. Dos entrevistados, 59% disseram que é melhor ver TV acompanhado. A principal razão para isso é a oportunidade para trocar idéias com amigos ou familiares. "É um preconceito dizer que a televisão desagrega. Nossa pesquisa verificou que as pessoas adoram estar juntas para comentar os programas", diz Novaes. No contexto familiar, a TV também ajuda os pais a sondar o pensamento dos filhos sobre vários assuntos. Talvez por isso, os mais jovens estão entre aqueles que dão corpo ao time dos espectadores solitários. Assim fica mais fácil fugir à sondagem paterna. A justificativa mais freqüente para o hábito de ver televisão sozinho, contudo, é que desse modo é possível "entender melhor" a atração: 41% dos entrevistados deram essa explicação. Outra curiosidade é a forte relação entre comida e TV: 66% das pessoas fazem as refeições diante do aparelho, além de consumir regularmente petiscos enquanto assistem aos programas.

O aspecto mais surpreendente da pesquisa está num segmento dedicado a discutir a "programação ideal" (veja quadro). Cada entrevistado era estimulado a montar sua própria grade de atrações. Foi-lhes pedido para montar duas programações: uma que privilegiasse a diversão e outra, a qualidade. Os tipos de programa eram ordenados segundo a importância que o espectador lhes dava. O resultado é diferente daquele que se poderia esperar com base nos índices de audiência coletados diariamente. As novelas, por exemplo, estão entre as maiores audiências da televisão brasileira e costumam ter mais público do que qualquer filme exibido no mesmo horário. Nas grades idealizadas pelos participantes da pesquisa, contudo, a situação se inverte, e os filmes parecem ser mais apreciados que as novelas – mesmo quando o propósito é a diversão. Isso talvez seja indício de um preconceito: as pessoas se envergonham de dizer que apreciam novelas. O Datanexus não tem uma teoria para explicar o fenômeno. Outro dado interessante é o valor atribuído aos programas jornalísticos – tanto os sérios quanto os sensacionalistas. Eles aparecem no topo dos dois tipos de ranking. "As pessoas se sentem mergulhadas num mundo muito competitivo. Ficar desinformadas é inaceitável para elas, equivale a ficar em desvantagem", diz Novaes. "Elas querem, no entanto, receber informação de uma forma agradável, daí o jornalismo estar em segundo lugar no ranking que privilegia o entretenimento." Em contraste com os jornalísticos, os programas de auditório foram relegados para o fim das listas – sinal de que vê-los é um hábito arraigado, mas não muito prezado, entre os telespectadores.

 

 
 
 
 
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