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Televisão
Um
retrato do telespectador
Pesquisa
inédita revela hábitos
e preferências do público

Ricardo Valladares
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Índices
de audiência são uma ferramenta importante, mas não
suficiente, para quem quer compreender a relação do
público com a televisão. O ideal é que eles
sejam complementados de tempos em tempos com outras formas de pesquisa,
que abordem com mais minúcia os hábitos do espectador.
Essas pesquisas são raras no Brasil. No ano passado, o Instituto
Datanexus realizou um grande estudo desse tipo. Usou os dados internamente
por alguns meses, e agora decidiu divulgá-los. VEJA teve
acesso exclusivo ao material, fruto de entrevistas com 3.800
pessoas da região metropolitana de São Paulo. Carlos
Novaes, diretor do Datanexus e coordenador do estudo, afirma que
os resultados podem ser aplicados a outros grandes centros urbanos
brasileiros, mas não a cidades pequenas, onde o cotidiano
é organizado de maneira diferente. A pesquisa é rica
em informações curiosas e até surpreendentes.
Ela mostra que as mulheres mandam no controle remoto na maioria
dos lares. Revela que a TV agrega as famílias e dá
ensejo a diálogos em casa. E indica que as pessoas dão
grande valor ao jornalismo, considerado um item fundamental da programação
até mesmo quando o intuito do espectador é divertir-se.
Segundo
os números do Datanexus, em 33% dos domicílios é
a dona da casa quem manda na televisão na maior parte do
dia. O poder feminino aumenta conforme diminui a renda familiar,
e não o contrário. "Esse é um dos pontos em
que a mulher menos abastada faz valer seus direitos dentro do lar",
diz Novaes. O auge da influência ocorre à noite, entre
as 18 horas e a meia-noite. Só depois disso o controle passa
às mãos do marido ou do filho homem. As meninas são
"teleoprimidas", segundo a pesquisa. Raramente têm a chance
de escolher o programa a ser visto pela família. Deve-se
destacar uma tendência: a liberdade das crianças diante
da TV cresce cada vez mais, sobretudo quando há mais de um
televisor na casa. Na classe A, 34% das crianças já
têm um aparelho só para elas.
É
comum pensar que a televisão isola as pessoas, mas os números
do Datanexus não confirmam essa tese. Dos entrevistados,
59% disseram que é melhor ver TV acompanhado. A principal
razão para isso é a oportunidade para trocar idéias
com amigos ou familiares. "É um preconceito dizer que a televisão
desagrega. Nossa pesquisa verificou que as pessoas adoram estar
juntas para comentar os programas", diz Novaes. No contexto familiar,
a TV também ajuda os pais a sondar o pensamento dos filhos
sobre vários assuntos. Talvez por isso, os mais jovens estão
entre aqueles que dão corpo ao time dos espectadores solitários.
Assim fica mais fácil fugir à sondagem paterna. A
justificativa mais freqüente para o hábito de ver televisão
sozinho, contudo, é que desse modo é possível
"entender melhor" a atração: 41% dos entrevistados
deram essa explicação. Outra curiosidade é
a forte relação entre comida e TV: 66% das pessoas
fazem as refeições diante do aparelho, além
de consumir regularmente petiscos enquanto assistem aos programas.
O
aspecto mais surpreendente da pesquisa está num segmento
dedicado a discutir a "programação ideal" (veja
quadro). Cada entrevistado era estimulado a montar
sua própria grade de atrações. Foi-lhes pedido
para montar duas programações: uma que privilegiasse
a diversão e outra, a qualidade. Os tipos de programa eram
ordenados segundo a importância que o espectador lhes dava.
O resultado é diferente daquele que se poderia esperar com
base nos índices de audiência coletados diariamente.
As novelas, por exemplo, estão entre as maiores audiências
da televisão brasileira e costumam ter mais público
do que qualquer filme exibido no mesmo horário. Nas grades
idealizadas pelos participantes da pesquisa, contudo, a situação
se inverte, e os filmes parecem ser mais apreciados que as novelas
mesmo quando o propósito é a diversão.
Isso talvez seja indício de um preconceito: as pessoas se
envergonham de dizer que apreciam novelas. O Datanexus não
tem uma teoria para explicar o fenômeno. Outro dado interessante
é o valor atribuído aos programas jornalísticos
tanto os sérios quanto os sensacionalistas. Eles aparecem
no topo dos dois tipos de ranking. "As pessoas se sentem mergulhadas
num mundo muito competitivo. Ficar desinformadas é inaceitável
para elas, equivale a ficar em desvantagem", diz Novaes. "Elas querem,
no entanto, receber informação de uma forma agradável,
daí o jornalismo estar em segundo lugar no ranking que privilegia
o entretenimento." Em contraste com os jornalísticos, os
programas de auditório foram relegados para o fim das listas
sinal de que vê-los é um hábito arraigado,
mas não muito prezado, entre os telespectadores.
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