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Aviação
A
Varig vai à luta
Empresa
usa prejuízo menor como arma
para ganhar espaço na discussão sobre
o futuro da aviação civil

Lucila
Soares
Há
seis meses, o destino da Varig parecia selado. A maior companhia
aérea brasileira atingira o ápice de uma crise financeira
que se arrastava desde meados dos anos 90. O prognóstico
era dos piores, agravado pela frágil saúde financeira
de toda a aviação civil no Brasil e no mundo. Em junho,
faltava dinheiro até para comprar combustível. No
processo de fusão com a TAM, a Varig vinha sendo tratada
como um conglomerado antiquado, inchado e ineficiente, que não
resistiu à entrada no mercado de concorrentes mais modernos
e dinâmicos. O fim da crise está longe, muito longe.
Mas o último balanço mostrou que a situação
está ficando menos pior. Depois de amargar um monumental
prejuízo de 2,8 bilhões de reais no ano passado, a
Varig entrou numa rota de recuperação (veja
gráfico). E mudou de tom. A estratégia
é tentar convencer investidores, credores e governo de que
suas dificuldades atuais se devem a regras de competição
iníquas e de que a empresa é financeiramente viável.
Em
seu novo discurso, a Varig reivindica também o reconhecimento
do que considera sua natural vocação, que é
ocupar, no mercado mundial, o posto de grande companhia da América
Latina desde que receba substancial injeção
de recursos. "A Varig precisa de capitalização para
sair de uma crise à qual foi levada por uma política
injusta", resume Luiz Martins, 57 anos, vice-presidente executivo
da empresa desde agosto. Como arauto dessa cruzada de convencimento,
Martins não se limita a queixas genéricas sobre as
alegadas injustiças. Afirma que a companhia fez sua parte
no esforço de recuperação e cobra do atual
governo a conta de várias atitudes de governos passados,
entre elas o congelamento de tarifas a partir do Plano Cruzado,
que deu origem a uma megaconta de quase 4 bilhões de reais
que a Varig está cobrando do governo na Justiça. A
empresa invoca ainda o fato de que, no mundo todo, governos já
socorreram companhias aéreas em dificuldade.
O
que, à primeira vista, parece apenas o simples e velho chororô
empresarial é uma bem calculada manobra. Seu objetivo é
transformar a melhora no resultado operacional em trunfo na discussão
sobre o futuro da aviação civil brasileira. No futuro
próximo, o alvo da Varig é a fusão com a TAM,
uma idéia que nasceu abençoada por muitos e hoje tem
poucos defensores de peso. Contam-se nos dedos os que ainda apostam
nela. Entre esses não estão as duas empresas, ainda
que seus executivos não o admitam publicamente. O motivo
principal é o efeito surtido pelo code share, a operação
conjunta entre Varig e TAM iniciada em março. Com ele, foi
possível adaptar a oferta de assentos à demanda dos
passageiros e acabar com a superposição de linhas,
o que contribuiu para melhorar a situação das duas
companhias e, por tabela, para equilibrar o mercado inteiro. O efeito
positivo do code share foi turbinado por uma conjuntura externa
favorável, com redução no ritmo de alta do
petróleo e câmbio sob controle. Como, no fundo, ambas
as empresas só engoliam a fusão porque, no auge da
crise, ela aparecia como a única saída, agora parece
remota a possibilidade de que o projeto decole.
O
novo panorama já provocou dois movimentos sintomáticos
quanto ao futuro da fusão. O banco Fator, contratado para
desenhar o modelo da nova companhia, está refazendo todo
o projeto. E o governo começou, na semana passada, a avaliar
o code share para verificar possíveis efeitos negativos
para o consumidor e para a concorrência. Ou seja, a previsão
é de que, beneficiadas por um mecanismo destinado a pavimentar
o caminho até a fusão, as empresas queiram agora manter
apenas a associação operacional, desistindo da sociedade.
A questão é que, nos termos em que está operando,
o code share praticamente acaba com a concorrência
nas principais linhas internas. O secretário de Acompanhamento
Econômico do Ministério da Fazenda, José Tavares,
considera difícil mantê-lo nos termos atuais. Mas não
vê, em princípio, impedimento para que TAM e Varig
mantenham alguma operação conjunta, ainda que a fusão
não saia. "A fusão importa pouco. O que importa é
que o país tenha regras para a aviação civil
que garantam a viabilidade das empresas, para que elas possam prestar
um serviço eficiente por um preço justo", disse Tavares
a VEJA na semana passada.
A
grande pergunta é, portanto, que conjunto de regras deve
ser esse, num setor que está em crise no mundo todo, em boa
parte porque a aviação civil tem uma equação
financeira naturalmente desfavorável. Sofre de imediato os
efeitos de qualquer turbulência econômica e isso
é o que não tem faltado nos últimos anos ,
tem alto custo de manutenção para garantir a segurança
nos vôos e seu principal insumo é derivado de petróleo.
No Brasil, as empresas aéreas ainda enfrentam problemas locais,
como a carga tributária. Enquanto nos Estados Unidos a passagem
aérea paga 8,5% de impostos, aqui a taxa chega a 34%. No
combustível, as brasileiras gastam 6,5% a mais que as estrangeiras
por causa do PIS/Cofins. Fica efetivamente mais difícil competir.
No caso específico da Varig, a companhia foi profundamente
abalada pela abertura comercial, que expôs à concorrência
um mercado no qual ela reinara absoluta durante a maior parte de
sua existência. Nada disso, é claro, pode nublar algumas
deficiências históricas da Varig conhecidas
de todos que a ajudaram a aterrissar no matagal onde se encontra
atualmente: a empresa, ao longo dos anos 80 e 90, foi fossilizando
sua administração, demorou a fazer os ajustes necessários
e tem uma estrutura de poder antiquada.
Agora
o futuro da companhia está diretamente ligado ao projeto
brasileiro para a aviação civil, que deverá
estar definido até o fim de março de 2004. A empresa
demitiu mais de 2.000 funcionários
desde o ano passado (tem hoje 14.000
empregados contra 28.000 em 1994), devolveu
aviões, estabeleceu um cronograma para regularizar débitos
fiscais da ordem de 880 milhões de dólares. Conseguiu
limpar a área com a BR, algo vital para quem gasta 250 milhões
de dólares por ano em combustível, e renegociou em
termos mais favoráveis boa parte de suas dívidas com
outros credores. Seu resultado decorrente da operação
dos vôos teve uma melhora espetacular: saiu de um prejuízo
de 15 milhões de reais no ano passado para um lucro de 360
milhões de reais até outubro deste ano. Mas a Varig
possui um patrimônio negativo de 5,1 bilhões de reais,
o que significa que, se vendesse tudo o que tem, o resultado não
seria suficiente para honrar todas as dívidas.
"Foi
uma reestruturação forçada, que melhorou a
operação, mas não resolveu o endividamento,
que é o ponto principal", analisa Paulo Sampaio, consultor
do mercado de aviação civil. Dentro do governo, há
quem acredite na necessidade estratégica de uma companhia
aérea nacional forte e quem aposte num mercado mais pulverizado
para favorecer a competição. Até agora, o primeiro
grupo, do qual fazem parte o ministro da Casa Civil, José
Dirceu, e o da Defesa, José Viegas, apostava na fusão
e se dispunha a apoiar uma operação que demandaria
recursos da ordem de 600 milhões de reais. Resta saber como
se comportará essa ala sem a associação entre
as duas empresas. Disso depende o futuro da Varig.
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"A
Varig é uma sobrevivente"
Oscar Cabral
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| Martins:
"O apoio ao governo no passado é considerado ingenuidade
patriótica" |
Desde agosto, quando assumiu o comando da Varig, o piloto
Luiz Martins, 57 anos e 34 de carreira, chega para trabalhar
às 6 horas e só sai depois das 21. Acostumado
a brigar no front interno, adaptou-se em tempo recorde
à função de principal porta-voz
da companhia. Na semana passada, Martins recebeu VEJA
na sede da Varig, no Rio de Janeiro, para a seguinte
entrevista.
Veja
A Varig nasceu e cresceu num mundo muito menos
competitivo que o atual e num país em que reinava
quase sozinha. Que peso o senhor atribui a esse fato
na crise atual da companhia?
Luiz Martins O que você acha da concorrência
com a Pan Am, que era a maior do mundo? Com a Alitalia,
a Iberia, a Air France, todas então estatais?
No mercado nacional, com a Vasp, que era estatal? Não
considero que a Varig nasceu e cresceu protegida. Ela
é uma sobrevivente, porque sempre teve de competir,
e em condições que lhe foram desfavoráveis,
com menos liberdade de ação e mais tributação.
Até hoje pagamos 6,5% mais caro pelo combustível
que as empresas estrangeiras, porque elas são
isentas de PIS/Cofins.
Veja
Mas a empresa era a única companhia
brasileira que voava para o exterior. Isso não
é proteção?
Martins O que ninguém lembra é
que isso tinha um preço. A Varig funcionava como
uma espécie de braço comercial do Ministério
das Relações Exteriores e mantinha linhas
deficitárias para a África, por
exemplo. Nós também fomos convocados a
apoiar a BR em sua criação, dando preferência
a ela como fornecedora de combustível, e a comprar
aviões da Embraer em troca de uma exclusividade
de operação no Aeroporto Santos Dumont,
que durou um terço do tempo previsto. Quando
reclamamos, ouvimos em resposta que a Varig cometeu
"um ato de ingenuidade patriótica". Esse é
um erro que não vamos cometer de novo. Querem
operar linhas que não são rentáveis?
A Varig tem know-how para voar para qualquer lugar do
mundo. Mas não vai bancar o custo.
Veja
Ainda que a crise tenha boa parte de sua explicação
fora da companhia, ela é grave. Qual a saída
para a Varig?
Martins Há uma tendência mundial
de aglomeração no mercado de aviação
civil um exemplo disso é a associação
da Air France com a KLM. Nesse desenho, cada região
tende a ter uma grande companhia. Na América
Latina, não vejo outra companhia com capacidade
de desempenhar esse papel além da Varig. Pelo
porte, pela marca, pelo know-how. A situação
da Varig é momentânea, financeira, e pode
ser resolvida principalmente se o governo saldar as
questões em aberto, como a compensação
pelo congelamento tarifário a partir do Plano
Cruzado.
Veja
Com regras justas, a Varig não precisaria
da fusão com a TAM?
Martins A Varig precisa de capitalização
e de regras justas de competição. Quem
pode precisar da fusão é o mercado brasileiro
de aviação civil.
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