Edição 1831 . 3 de dezembro de 2003

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Especial
O gigante quer proteção


Eurípedes Alcântara e Eduardo Salgado

 
AFP/Tim Sloan
BUSH NO IRAQUE
Para especialistas, o perigo do protecionismo é maior que o da Al Qaeda

O estrondoso crescimento americano anunciado na semana passada mascarou temporariamente uma questão de fundo que vem sendo discutida nos Estados Unidos e que pode ter profundas repercussões em todo o mundo. Ela diz respeito à crescente inclinação protecionista de parte do empresariado e do Congresso americanos com aberto incentivo do governo de George W. Bush. O crescimento anualizado da economia americana no terceiro trimestre foi de espetaculares 8,2%, marca atingida pela última vez há vinte anos. A estimativa mais conservadora para o crescimento em 2003 é de 3%. Em 2004, a máquina de riqueza americana promete despejar um crescimento de 4,5%. São números estonteantes para uma economia madura e estabilizada. Em sua coluna no jornal The New York Times, o economista Paul Krugman se perguntava se as boas notícias iam continuar. Ele mesmo respondeu: "Nem tudo está bem. As ações protecionistas dos Estados Unidos não são ainda uma torrente, mas está claro que o governo perdeu o juízo também nesse campo". Outros influentes economistas americanos, como Martin Feldstein, respeitado professor de Harvard, e Alan Greenspan, presidente do banco central americano e sumo sacerdote do capitalismo global, definem a escalada protecionista americana como um perigo para a prosperidade mundial ainda maior que o terrorismo. Disse Greenspan: "É imperativo que o protecionismo que se insinua em toda parte neste país seja confrontado e revertido".

Protecionismo é a defesa que os países armam com tarifas e outras barreiras para encarecer, dificultar e até impedir a venda de produtos importados em seus mercados internos. Em maior ou menor grau, todo país o pratica. Apenas em poucos momentos da história algumas nações se sentiram fortes o bastante para dispensar os controles em seu comércio com o exterior. Isso ocorreu com a Inglaterra após a Revolução Industrial, no fim do século XIX. O Japão também, no mesmo período histórico, baixou toda a guarda, mas por outras razões. O governo japonês fez uma tentativa desesperada de modernizar o país atraindo produtos, empresas e tecnologias do Ocidente sem nenhuma restrição. Nesse momento, conhecido como Restauração Meiji, o Japão saiu do estágio atrasado em relação aos países ocidentais e cimentou o crescimento que teria a seguir.

Seletivamente, os Estados Unidos já são protecionistas, e o Brasil é dos países que mais sofrem com isso. Que o digam os exportadores brasileiros de aço, produtos têxteis, laranja e carne para o mercado americano. É necessário registrar, no entanto, que os Estados Unidos já foram muito mais protecionistas no passado. Até a quebra das bolsas em 1929, o mercado americano era fechado como uma ostra. A tarifa média de importação batia em 59%. O diagnóstico dos economistas do governo foi que tanto a quebra do mercado acionário quanto a depressão econômica que se seguiu tiveram não como detonador mas como carburante o fechamento da economia. Desde então, sucessivas administrações americanas foram abrindo o país para o mundo. Com a chamada "Lei da Fazenda", aprovada por George W. Bush no ano passado, a abertura pela primeira vez experimentou um grande retrocesso. Os Estados Unidos igualaram-se em proteção e incentivos fiscais no campo agrícola aos países europeus. Com isso, tiraram as chances dos países pobres e emergentes de vender os produtos de sua agricultura em mercados onde americanos e europeus estiverem presentes. Os governos europeus e o dos EUA dão dinheiro aos fazendeiros para facilitar-lhes a atividade. O que esses fazendeiros produzem sai muito mais barato para eles e pode assim concorrer deslealmente com produtos que países como o Brasil colocam no mercado mundial.

Greenspan e outros economistas acreditam que o livre-comércio seja capaz de gerar riqueza, modernidade e estabilidade no mundo. Eles se preocupam, portanto, com o alastramento atual da idéia protecionista nos Estados Unidos. Segundo seu raciocínio, com o peso da economia americana no mundo e o poder de influência de Washington, a adoção do protecionismo como objetivo de política externa seria um desastre para o comércio global. Significaria, simplesmente, a reversão das conquistas da globalização. Os Estados Unidos na conta geral compram anualmente do mundo 500 bilhões de dólares mais do que vendem. Esse dinheiro é o combustível de diversas economias do planeta. Para alguns países é a principal ou quase a única fonte de recursos externos. Se os americanos se moverem muito velozmente para tentar vender mais do que compram, o atual ensaio global de modernização e de recuperação da atividade econômica no mundo poderá ser violentamente abortado. Desde que foram estabelecidas regras de comércio internacional relativamente civilizadas há pouco mais de vinte anos, tornou-se quase universal a aceitação de que a troca de mercadorias entre os países é o mais eficiente mecanismo de criação global de riqueza. O protecionismo, portanto, pode significar uma vantagem regional e temporária para alguns países, mas, como regra geral, ele empobrece. Por isso, nas reuniões da Área de Livre Comércio das Américas (Alca), a melhor atitude que o Brasil pode ter é negociar. A negação da Alca, cuja tecla de "pausa" foi apertada pelos americanos na última reunião em Miami, por causa da proximidade das eleições de 2004, seria uma indesejada vitória do protecionismo.

 
Montagem sobre fotos Michel Euler/AP e AFP
OS DOIS ARAUTOS
Alan Greenspan, do Fed, e o investidor George Soros: alerta contra a tentação protecionista

"O que está em risco com a volta do protecionismo à agenda americana é o processo de modernização e livre-comércio que nos últimos anos tirou centenas de milhões de pessoas da miséria e ajudou muitos países, como a Coréia do Sul, a fazer uma transição completa do atraso para a modernidade", escreveu Paul Krugman. Todas as histórias recentes de sucesso são de países que conseguiram entrar no mercado mundial como economias exportadoras. Nem todos se deram tão bem no mundo global quanto os asiáticos – cujas economias vêm sendo orientadas para a exportação. Entre os que menos se beneficiaram estão os países da América Latina. Para a Argentina, a globalização foi um desastre. Brasil e México tiveram tanto benefícios quanto choques negativos no processo de globalização. Os economistas temem que os Estados Unidos possam estar tentados a usar o protecionismo para acabar com a festa agora que já se refestelaram no banquete da globalização e os demais países não se contentam mais em ficar apenas com as sobras. Se isso ocorrer, dizem alguns analistas, todos perderão muito, incluindo os Estados Unidos.

Mentes como Krugman e Greenspan se agitam com a perspectiva da volta do protecionismo porque sabem que ele seria um freio na economia mundial. Tiraria dos países emergentes o único caminho conhecido para a modernização e a prosperidade econômica, que é o comércio. Como, ao contrário do que pensa a esquerda, os Estados Unidos não vivem de explorar a miséria alheia mas de se apropriar de nacos da riqueza que eles próprios ajudam a criar fora de casa, o protecionismo seria também desastroso para eles. Importando matérias-primas e produtos que outros países fazem melhor e mais barato, os Estados Unidos depuraram rapidamente sua economia. Ao cabo de duas décadas de liberalismo no comércio exterior, a economia americana foi se especializando cada vez mais em atividades com altas margens de lucratividade. Em vez de enfocarem a defesa de fabricantes de televisores ou DVDs, os americanos se especializaram em produzir as atrações de apelo mundial e que tornam os aparelhos máquinas de desejo – os filmes e seriados de televisão. No mundo dos computadores, eles fabricam os chips centrais das máquinas e os programas. Todo o resto, as carcaças, os chassis, as fábricas americanas compram na Ásia. Nos computadores, os chips centrais e os programas respondem por 80% do valor total do equipamento. Graças ao livre-comércio, os americanos dominam 73% da indústria de programas e 90% da de chips. Com a volta do protecionismo à moda de Bush, esse processo de depuração e de aumento da eficiência se tornaria impossível.

As conseqüências imediatas para o Brasil e para o mundo de um aumento do protecionismo nos Estados Unidos são suficientemente desastrosas para anular os efeitos benéficos da espetacular retomada do crescimento no país de Bush. O veemente apelo de Greenspan lembra outro alerta, feito por ele em meados dos anos 90, quando os EUA e o mundo se inebriavam com a especulação feroz nas bolsas de valores, turbinadas pela valorização das ações de empresas da internet. Greenspan chamou a atenção naquela época para a "exuberância irracional". Anos depois, a bolha de internet perdeu sustentação e estourou, fazendo evaporar em poucos meses cerca de 3 trilhões de dólares. O protecionismo, como diagnosticou o presidente do banco central americano, não é apenas mais um dos pecados econômicos do governo Bush – que em três anos gastou com corte de impostos para os ricos o superávit fiscal trilionário deixado pelo antecessor, Bill Clinton. Seria, antes, seu principal problema hoje em dia.

"O protecionismo vem adquirindo força cada vez maior também no Congresso, em Washington", diz Rubens Barbosa, embaixador do Brasil nos Estados Unidos. Esse sentimento está também disseminado na sociedade americana. Sobre isso, o jornal inglês Financial Times escreveu na quinta-feira passada: "Em 2004, pela primeira vez em décadas, o protecionismo será tema da campanha presidencial. As pessoas (os americanos) enxergam perigo nos produtos feitos na China, no Japão, no Brasil e na Europa. Elas se revoltam contra a perda de empregos para esses países. O medo é expresso na volta às ruas americanas da frase sumida há uma década: 'A América não pode ser uma nação de fazedores de hambúrguer'". O jornal inglês notou também o reaparecimento na lapela dos vendedores de lojas daqueles buttons com os dizeres: "Obrigado por comprar produtos americanos".

O mundo oficial em Washington, movido a pesquisas, captou a mensagem das ruas. Com a sensibilidade aguçada pelas eleições presidenciais de 2004, a equipe de Bush está disparando o gatilho protecionista com uma agilidade poucas vezes vista em uma administração republicana. Nos Estados Unidos, republicanos como Bush são os paladinos do liberalismo e do livre-comércio, enquanto os democratas são os protecionistas, os mais vulneráveis às pressões dos sindicatos e dos lobbies empresariais de setores atrasados da economia e que abominam a concorrência externa. "Agora estão todos no mesmo barco protecionista", escreveu o Financial Times. O governo Bush tomou para si a bandeira protecionista, que já vinha sendo desfraldada fora do Partido Republicano. Os resultados práticos podem ser vistos em toda parte. A pausa na Alca é um deles. Na Organização Mundial do Comércio (OMC), os representantes americanos estão promovendo uma escalada de ações contra quase três dezenas de países aos quais acusam de práticas comerciais danosas. Os americanos fizeram 126 queixas desse tipo na OMC entre 1995 e 2000. Nos últimos tempos, as reclamações dos EUA se aceleraram de forma tão gigantesca que o país efetuou nada menos que 461 queixas de dezoito meses para cá. No primeiro semestre deste ano, os Estados Unidos se tornaram o país que mais pediu investigações sobre comércio desleal.

O Congresso americano tem duas centenas de leis protecionistas em tramitação. Elas tentam aplacar a ansiedade captada pelas pesquisas nas ruas dos maiores colégios eleitorais americanos. Um desses projetos proíbe que americanos formados em universidades públicas ou que obtiveram ajuda governamental para estudar aceitem oferta de emprego em países estrangeiros. Outra lei proíbe que empresas americanas transfiram empregos para países onde a mão-de-obra seja mais barata. Desde 2000, cerca de 3 milhões de empregos nos EUA sumiram do mapa em conseqüência da crise. Desses, cerca de 400.000 foram deslocados pelas companhias para Índia e China, onde o salário médio é um quinto do pago nos Estados Unidos. "Essas leis não resolvem o problema e minam a eficiência e a produtividade de nossa economia", diz Feldstein, de Harvard. Os mísseis ainda não foram disparados, mas o pacote de maldades protecionistas de Bush e do Congresso americano tem ainda como alvos já escolhidos os têxteis vindos de países da América Central, os manufaturados do México feitos por empresas não-americanas e os produtos farmacêuticos do Canadá.

Não por acaso, o governo americano protege da concorrência externa, há meio século, os produtores de açúcar e laranja da Flórida e da Califórnia. Protege as siderúrgicas obsoletas do nordeste americano do aço barato e de qualidade ofertado no mercado mundial pelo Brasil e pelo Japão. As quatro últimas eleições presidenciais com disputa na reta final foram decididas por eleitores daquelas regiões. Bush ganhou apertadíssimo de Al Gore em 2000. O desempate a favor do presidente atual veio da Flórida. Com a próxima eleição em mente, Washington está peitando alguns sustentáculos de sua economia, principalmente a China. Na semana passada, Bush criou cotas para importação de roupas e impôs tarifas de 46% sobre os televisores importados da China. Em apenas dois anos, os televisores chineses tomaram uma fatia de 8% do mercado das mãos dos fabricantes americanos. Os produtores de roupas e artigos eletrônicos dos Estados do Meio Oeste são muito numerosos. Depois da indústria de alimentos, as confecções e as pequenas e médias empresas de aparelhos eletrônicos são dois dos maiores empregadores dos Estados Unidos. Do ponto de vista eleitoral, é um erro não atender aos interesses dessa vasta clientela. Do ponto de vista econômico, Washington está simplesmente aumentando a ineficiência de sua economia.

AFP
PROTESTO NA PRAÇA TRAFALGAR, EM LONDRES: movimento "Pare Bush" marcou a visita do presidente americano à Inglaterra


Em 1999, o déficit americano no comércio com a China era de 60 bilhões de dólares. Três anos depois, era de 120 bilhões, e continua crescendo. Os valores envolvidos nas retaliações americanas na semana passada são irrisórios, mas eles sinalizam uma mudança de comportamento, reflexo de um temor real com a velocidade de conquista do mercado americano pelas exportações chinesas. A agressividade dos exportadores chineses, obviamente, não vai refluir depois das eleições presidenciais americanas. "Governos de todos os lugares do mundo costumam dar mais atenção às demandas de seus eleitores nesses períodos eleitorais. O medo de que o protecionismo nos Estados Unidos extrapole 2004 é muito real. Se fosse apenas um surto eleitoral, dificilmente Alan Greenspan teria gritado", diz Ricardo Markwald, diretor da Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior (Funcex).

Economistas americanos acreditam que são bastante fortes os indícios de que o protecionismo nos Estados Unidos não seja apenas um componente da disputa eleitoral do próximo ano. Na quinta-feira passada, o mais respeitado jornal americano da área financeira, The Wall Street Journal, que não pode ser acusado como Krugman de ter má vontade com Bush, escreveu o seguinte: "Ao abrir a caixa de surpresas do protecionismo, Bush não conseguirá mais fechá-la. A adoração do falso deus do protecionismo vai ser um desastre para a economia americana e mundial. Ela pode evitar temporariamente demissões em regiões de interesse eleitoral de Bush, mas não resolve o problema real".

O jornal toca no problema real, que é a criação de empregos. Como mostrou o economista brasileiro José Alexandre Scheinkman, professor da Universidade Princeton, o aumento brutal da produtividade da economia americana faz com que o crescimento econômico ocorra sem a geração de empregos na mesma proporção. Portanto, é de esperar que, mesmo com os fenomenais índices de crescimento registrados neste ano e previstos para o próximo nos Estados Unidos, isso não bastará para dissipar a ansiedade dos jovens que não conseguem entrar no mercado de trabalho e dos desempregados que não sabem como voltar a ele. As empresas americanas que buscam proteção contra a concorrência estrangeira estão com o lobby afiado no Congresso e agindo praticamente sem oposição. "Os setores americanos que se beneficiam do livre-comércio já conseguiram tudo o que queriam nas últimas décadas e não pressionam mais", diz Marcos Jank, do Instituto de Estudos do Comércio e Negociações Internacionais (Ícone), de São Paulo. "A administração Bush dá a impressão de que não tem mesmo apreço pelo livre comércio", completa Scheinkman.

A globalização dos anos 90 pode ser resumida como a derrota do protecionismo. É da volta dele em escala mundial que se fala agora. Seja pelo efeito de imitação dos Estados Unidos, seja pela lamentável falta de alternativas econômicas politicamente palatáveis. Um estudo feito pelo cientista inglês Richard Dawkins mostrou que as idéias se propagam no mundo exatamente como os vírus no universo biológico. Dawkins mostrou também que, da mesma forma que existem vírus menos ou mais contagiosos, algumas idéias se propagam muito mais rapidamente que outras. Em um de seus modelos computadorizados, o inglês testou o poder de propagação da idéia de globalização e da idéia do protecionismo. Ganha o protecionismo porque há uma tendência natural de as pessoas verem com desconfiança o risco da contaminação de seu país através de manifestações culturais ou econômicas vindas de fora. Já a idéia da globalização, que embute a noção bem mais arriscada teoricamente de abrir as portas de casa e baixar a guarda, é um conceito muito menos contagioso. "Os militantes antiglobalização que se manifestam por todo o mundo com tanto vigor estão infectados pelo vírus do protecionismo", diz Dawkins.

Os economistas acreditam que a lentidão na negociação da Alca, o excesso de contestações mútuas na OMC e a proliferação dos acordos bilaterais são sintomas de que a doença protecionista começa a minar a saúde da globalização. Historicamente, não seria surpresa se o protecionismo voltasse a ganhar força no mundo. A cada período de liberalismo mundial seguiram-se anos de fechamento. Foi assim no começo do século passado, quando até 1913 o mundo viveu uma globalização ainda mais febril que a da década passada. Com o malogro da política de abertura de fronteiras, seguiram-se uma guerra mundial, a Primeira, e a maior recessão global da história do capitalismo, a que começou com a quebra das bolsas americanas em 1929. Protecionismo começa com proteção comercial e, se não combatido, debilita o trânsito de capitais no mundo. Os Estados Unidos foram um dos países que mais aproveitaram a aceleração do movimento de capitais. Foi a liquidez dos mercados, ou seja, a sobra de capitais e a facilidade de transmiti-los eletronicamente, que permitiu aos americanos produzir déficits bilionários na balança comercial sem que ninguém visse nisso o caminho para a derrocada econômica. Ao contrário.

A equação que permitiu o funcionamento desse mecanismo – que Bush parece querer desfazer, assustando Greenspan e outros economistas – é incrivelmente simples. Os americanos gastam com importações 500 bilhões de dólares a mais do que aquilo que ganham com exportações. Mas acabam recuperando tudo de volta, e mais alguns trocados, com a venda de seus papéis a investidores estrangeiros. Esses papéis, títulos do Tesouro americano, são comprados em maior volume justamente pelos países com os quais os americanos mais perdem em suas transações comerciais, China e Japão. No ano passado, o déficit comercial dos Estados Unidos com a China foi de 103 bilhões de dólares. No mesmo período, o governo chinês comprou 250 bilhões de dólares em títulos da dívida americana. Ou seja, os EUA lucraram no processo 147 bilhões de dólares. Com o Japão, passa-se quase a mesma coisa.

Pois veja-se só contra quem Bush tomou as medidas protecionistas mais drásticas ultimamente: China e Japão. É um contra-senso. "É nesse contexto que se deve entender o alerta de Greenspan. O ímpeto para corrigir o déficit pode quebrar a espinha dorsal do dólar. Se isso ocorrer, o risco de uma pane mundial do capitalismo não é desprezível", diz o economista Ken Rogoff, que acaba de deixar o posto de economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI) para reassumir sua cadeira na Universidade Harvard. "Os surtos de crescimento nos Estados Unidos sempre foram acompanhados da absorção de produtos de economias em crescimento mais veloz. A demanda por importações nos Estados Unidos, portanto, não é anormal e se for interrompida abruptamente os custos para nós e para o mundo serão muito altos", disse a VEJA o economista Paul Krugman, que se tornou o mais qualificado popularizador da economia desde as incursões no jornalismo dos ícones da especialidade, Milton Friedman e John Maynard Keynes.

Além dos incentivos à exportação, os surtos de crescimento nos Estados Unidos produzem estímulos diretos de injeção de capitais na economia brasileira. No ano passado, os imigrantes brasileiros que vivem nos Estados Unidos enviaram aos familiares no Brasil um total de 4,6 bilhões de dólares. Isso significa que para cada 2 dólares investidos pelas empresas americanas no Brasil naquele ano os imigrantes mandaram 1 dólar. Os Estados Unidos compram de empresas brasileiras cerca de 26% do total de produtos exportados pelo país, mais que todas as nações européias somadas. A dependência da América Latina do mercado americano importador é ainda maior. Mais de 60% do que os latino-americanos exportam vão preencher as prateleiras dos americanos. Para alguns países, como o México, esse número ultrapassa os 80%. Portanto, há motivos de genuína preocupação para o mundo quando líderes americanos voltam a falar em "ameaça" dos produtos importados.

"Os Estados Unidos sob o comando de Bush são uma ameaça para o mundo", diz o megainvestidor George Soros, de 73 anos, que se tornou o maior adversário da Casa Branca na economia e na política externa. Soros chegou a doar 15 milhões de dólares a grupos de oposição ao presidente. Para Soros, Bush está colocando em risco os pilares que fizeram dos Estados Unidos uma potência. "Bush está atentando contra as idéias americanas que conquistaram o mundo: a paz, a democracia, os mercados, a força da classe média e do livre-comércio." Há um evidente exagero político-partidário no tom usado por George Soros. Mas ele reflete a temperatura do debate sobre a condução econômica do governo Bush e seu impacto sobre o mundo. Os erros protecionistas de Bush e os exageros de seus adversários não devem atrapalhar o reconhecimento do monumental estágio atual da economia americana. A produtividade atingida pela indústria e pelos serviços, a disseminação das tecnologias e da internet e a capacidade de reação dos Estados Unidos são extraordinárias. A locomotiva americana escapou de um período de dois anos de crescimento pífio. Os 8,2% de crescimento conseguidos no terceiro trimestre do ano, fato que não ocorria na maior economia do mundo havia vinte anos, significam que em apenas noventa dias ela acrescentou a sua riqueza 261 bilhões de dólares, ou duas Argentinas. Com o crescimento projetado para este ano, o PIB americano vai chegar a quase 11 trilhões de dólares – 23 vezes maior que a economia brasileira. Se a atual geração de americanos se deixar levar pela tentação do protecionismo radical e, com isso, arrastar o capitalismo mundial para o desastre recessivo, terá triunfado onde o comunismo e o terrorismo falharam.

 
 
 
 
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