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Especial
O
gigante quer proteção

Eurípedes
Alcântara e Eduardo Salgado
AFP/Tim Sloan
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BUSH
NO IRAQUE
Para especialistas, o perigo do protecionismo é maior que o
da Al Qaeda |
O
estrondoso crescimento americano anunciado na semana passada mascarou
temporariamente uma questão de fundo que vem sendo discutida
nos Estados Unidos e que pode ter profundas repercussões
em todo o mundo. Ela diz respeito à crescente inclinação
protecionista de parte do empresariado e do Congresso americanos
com aberto incentivo do governo de George W. Bush. O crescimento
anualizado da economia americana no terceiro trimestre foi de espetaculares
8,2%, marca atingida pela última vez há vinte anos.
A estimativa mais conservadora para o crescimento em 2003 é
de 3%. Em 2004, a máquina de riqueza americana promete despejar
um crescimento de 4,5%. São números estonteantes para
uma economia madura e estabilizada. Em sua coluna no jornal The
New York Times, o economista Paul Krugman se perguntava se as
boas notícias iam continuar. Ele mesmo respondeu: "Nem tudo
está bem. As ações protecionistas dos Estados
Unidos não são ainda uma torrente, mas está
claro que o governo perdeu o juízo também nesse campo".
Outros influentes economistas americanos, como Martin Feldstein,
respeitado professor de Harvard, e Alan Greenspan, presidente do
banco central americano e sumo sacerdote do capitalismo global,
definem a escalada protecionista americana como um perigo para a
prosperidade
mundial ainda maior que o terrorismo. Disse Greenspan: "É
imperativo que o protecionismo que se insinua em toda parte neste
país seja confrontado e revertido".
Protecionismo é a defesa que os países armam com tarifas
e outras barreiras para encarecer, dificultar e até impedir
a venda de produtos importados em seus mercados internos. Em maior
ou menor grau, todo país o pratica. Apenas em poucos momentos
da história algumas nações se sentiram fortes
o bastante para dispensar os controles em seu comércio com
o exterior. Isso ocorreu com a Inglaterra após a Revolução
Industrial, no fim do século XIX. O Japão também,
no mesmo período histórico, baixou toda a guarda,
mas por outras razões. O governo japonês fez uma tentativa
desesperada de modernizar o país atraindo produtos, empresas
e tecnologias do Ocidente sem nenhuma restrição. Nesse
momento, conhecido como Restauração Meiji, o Japão
saiu do estágio atrasado em relação aos países
ocidentais e cimentou o crescimento que teria a seguir.
Seletivamente,
os Estados Unidos já são protecionistas, e o Brasil
é dos países que mais sofrem com isso. Que o digam
os exportadores brasileiros de aço, produtos têxteis,
laranja e carne para o mercado americano. É necessário
registrar, no entanto, que os Estados Unidos já foram muito
mais protecionistas no passado. Até a quebra das bolsas em
1929, o mercado americano era fechado como uma ostra. A tarifa média
de importação batia em 59%. O diagnóstico dos
economistas do governo foi que tanto a quebra do mercado acionário
quanto a depressão econômica que se seguiu tiveram
não como detonador mas como carburante o fechamento da economia.
Desde então, sucessivas administrações americanas
foram abrindo o país para o mundo. Com a chamada "Lei da
Fazenda", aprovada por George W. Bush no ano passado, a abertura
pela primeira vez experimentou um grande retrocesso. Os Estados
Unidos igualaram-se em proteção e incentivos fiscais
no campo agrícola aos países europeus. Com isso, tiraram
as chances dos países pobres e emergentes de vender os produtos
de sua agricultura em mercados onde americanos e europeus estiverem
presentes. Os governos europeus e o dos EUA dão dinheiro
aos fazendeiros para facilitar-lhes a atividade. O que esses fazendeiros
produzem sai muito mais barato para eles e pode assim concorrer
deslealmente com produtos que países como o Brasil colocam
no mercado mundial.
Greenspan e outros economistas acreditam que o livre-comércio
seja capaz de gerar riqueza, modernidade e estabilidade no mundo.
Eles se preocupam, portanto, com o alastramento atual da idéia
protecionista nos Estados Unidos. Segundo seu raciocínio,
com o peso da economia americana no mundo e o poder de influência
de Washington, a adoção do protecionismo como objetivo
de política externa seria um desastre para o comércio
global. Significaria, simplesmente, a reversão das conquistas
da globalização. Os Estados Unidos na conta geral
compram anualmente do mundo 500 bilhões de dólares
mais do que vendem. Esse dinheiro é o combustível
de diversas economias do planeta. Para alguns países é
a principal ou quase a única fonte de recursos externos.
Se os americanos se moverem muito velozmente para tentar vender
mais do que compram, o atual ensaio global de modernização
e de recuperação da atividade econômica no mundo
poderá ser violentamente abortado. Desde que foram estabelecidas
regras de comércio internacional relativamente civilizadas
há pouco mais de vinte anos, tornou-se quase universal a
aceitação de que a troca de mercadorias entre os países
é o mais eficiente mecanismo de criação global
de riqueza. O protecionismo, portanto, pode significar uma vantagem
regional e temporária para alguns países, mas, como
regra geral, ele empobrece. Por isso, nas reuniões da Área
de Livre Comércio das Américas (Alca), a melhor atitude
que o Brasil pode ter é negociar. A negação
da Alca, cuja tecla de "pausa" foi apertada pelos americanos na
última reunião em Miami, por causa da proximidade
das eleições de 2004, seria uma indesejada vitória
do protecionismo.
Montagem sobre fotos Michel Euler/AP e AFP
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OS
DOIS ARAUTOS
Alan Greenspan, do Fed, e o investidor George Soros: alerta
contra a tentação protecionista |
"O
que está em risco com a volta do protecionismo à agenda
americana é o processo de modernização e livre-comércio
que nos últimos anos tirou centenas de milhões de
pessoas da miséria e ajudou muitos países, como a
Coréia do Sul, a fazer uma transição completa
do atraso para a modernidade", escreveu Paul Krugman. Todas as histórias
recentes de sucesso são de países que conseguiram
entrar no mercado mundial como economias exportadoras. Nem todos
se deram tão bem no mundo global quanto os asiáticos
cujas economias vêm sendo orientadas para a exportação.
Entre os que menos se beneficiaram estão os países
da América Latina. Para a Argentina, a globalização
foi um desastre. Brasil e México tiveram tanto benefícios
quanto choques negativos no processo de globalização.
Os economistas temem que os Estados Unidos possam estar tentados
a usar o protecionismo para acabar com a festa agora que já
se refestelaram no banquete da globalização e os demais
países não se contentam mais em ficar apenas com as
sobras. Se isso ocorrer, dizem alguns analistas, todos perderão
muito, incluindo os Estados Unidos.
Mentes
como Krugman e Greenspan se agitam com a perspectiva da volta do
protecionismo porque sabem que ele seria um freio na economia mundial.
Tiraria dos países emergentes o único caminho conhecido
para a modernização e a prosperidade econômica,
que é o comércio. Como, ao contrário do que
pensa a esquerda, os Estados Unidos não vivem de explorar
a miséria alheia mas de se apropriar de nacos da riqueza
que eles próprios ajudam a criar fora de casa, o protecionismo
seria também desastroso para eles. Importando matérias-primas
e produtos que outros países fazem melhor e mais barato,
os Estados Unidos depuraram rapidamente sua economia. Ao cabo de
duas décadas de liberalismo no comércio exterior,
a economia americana foi se especializando cada vez mais em atividades
com altas margens de lucratividade. Em vez de enfocarem a defesa
de fabricantes de televisores ou DVDs, os americanos se especializaram
em produzir as atrações de apelo mundial e que tornam
os aparelhos máquinas de desejo os filmes e seriados
de televisão. No mundo dos computadores, eles fabricam os
chips centrais das máquinas e os programas. Todo o resto,
as carcaças, os chassis, as fábricas americanas compram
na Ásia. Nos computadores, os chips centrais e os programas
respondem por 80% do valor total do equipamento. Graças ao
livre-comércio, os americanos dominam 73% da indústria
de programas e 90% da de chips. Com a volta do protecionismo à
moda de Bush, esse processo de depuração e de aumento
da eficiência se tornaria impossível.
As conseqüências imediatas para o Brasil e para o mundo
de um aumento do protecionismo nos Estados Unidos são suficientemente
desastrosas para anular os efeitos benéficos da espetacular
retomada do crescimento no país de Bush. O veemente apelo
de Greenspan lembra outro alerta, feito por ele em meados dos anos
90, quando os EUA e o mundo se inebriavam com a especulação
feroz nas bolsas de valores, turbinadas pela valorização
das ações de empresas da internet. Greenspan chamou
a atenção naquela época para a "exuberância
irracional". Anos depois, a bolha de internet perdeu sustentação
e estourou, fazendo evaporar em poucos meses cerca de 3 trilhões
de dólares. O protecionismo, como diagnosticou o presidente
do banco central americano, não é apenas mais um dos
pecados econômicos do governo Bush que em três
anos gastou com corte de impostos para os ricos o superávit
fiscal trilionário deixado pelo antecessor, Bill Clinton.
Seria, antes, seu principal problema hoje em dia.
"O
protecionismo vem adquirindo força cada vez maior também
no Congresso, em Washington", diz Rubens Barbosa, embaixador do
Brasil nos Estados Unidos. Esse sentimento está também
disseminado na sociedade americana. Sobre isso, o jornal inglês
Financial Times escreveu na quinta-feira passada: "Em 2004,
pela primeira vez em décadas, o protecionismo será
tema da campanha presidencial. As pessoas (os americanos) enxergam
perigo nos produtos feitos na China, no Japão, no Brasil
e na Europa. Elas se revoltam contra a perda de empregos para esses
países. O medo é expresso na volta às ruas
americanas da frase sumida há uma década: 'A América
não pode ser uma nação de fazedores de hambúrguer'".
O jornal inglês notou também o reaparecimento na lapela
dos vendedores de lojas daqueles buttons com os dizeres: "Obrigado
por comprar produtos americanos".
O mundo oficial em Washington, movido a pesquisas, captou a mensagem
das ruas. Com a sensibilidade aguçada pelas eleições
presidenciais de 2004, a equipe de Bush está disparando o
gatilho protecionista com uma agilidade poucas vezes vista em uma
administração republicana. Nos Estados Unidos, republicanos
como Bush são os paladinos do liberalismo e do livre-comércio,
enquanto os democratas são os protecionistas, os mais vulneráveis
às pressões dos sindicatos e dos lobbies empresariais
de setores atrasados da economia e que abominam a concorrência
externa. "Agora estão todos no mesmo barco protecionista",
escreveu o Financial Times. O governo Bush tomou para si
a bandeira protecionista, que já vinha sendo desfraldada
fora do Partido Republicano. Os resultados práticos podem
ser vistos em toda parte. A pausa na Alca é um deles. Na
Organização Mundial do Comércio (OMC), os representantes
americanos estão promovendo uma escalada de ações
contra quase três dezenas de países aos quais acusam
de práticas comerciais danosas. Os americanos fizeram 126
queixas desse tipo na OMC entre 1995 e 2000. Nos últimos
tempos, as reclamações dos EUA se aceleraram de forma
tão gigantesca que o país efetuou nada menos que 461
queixas de dezoito meses para cá. No primeiro semestre deste
ano, os Estados Unidos se tornaram o país que mais pediu
investigações sobre comércio desleal.
O Congresso americano tem duas centenas de leis protecionistas em
tramitação. Elas tentam aplacar a ansiedade captada
pelas pesquisas nas ruas dos maiores colégios eleitorais
americanos. Um desses projetos proíbe que americanos formados
em universidades públicas ou que obtiveram ajuda governamental
para estudar aceitem oferta de emprego em países estrangeiros.
Outra lei proíbe que empresas americanas transfiram empregos
para países onde a mão-de-obra seja mais barata. Desde
2000, cerca de 3 milhões de empregos nos EUA sumiram do mapa
em conseqüência da crise. Desses, cerca de 400.000 foram
deslocados pelas companhias para Índia e China, onde o salário
médio é um quinto do pago nos Estados Unidos. "Essas
leis não resolvem o problema e minam a eficiência e
a produtividade de nossa economia", diz Feldstein, de Harvard. Os
mísseis ainda não foram disparados, mas o pacote de
maldades protecionistas de Bush e do Congresso americano tem ainda
como alvos já escolhidos os têxteis vindos de países
da América Central, os manufaturados do México feitos
por empresas não-americanas e os produtos farmacêuticos
do Canadá.
Não por acaso, o governo americano protege da concorrência
externa, há meio século, os produtores de açúcar
e laranja da Flórida e da Califórnia. Protege as siderúrgicas
obsoletas do nordeste americano do aço barato e de qualidade
ofertado no mercado mundial pelo Brasil e pelo Japão. As
quatro últimas eleições presidenciais com disputa
na reta final foram decididas por eleitores daquelas regiões.
Bush ganhou apertadíssimo de Al Gore em 2000. O desempate
a favor do presidente atual veio da Flórida. Com a próxima
eleição em mente, Washington está peitando
alguns sustentáculos de sua economia, principalmente a China.
Na semana passada, Bush criou cotas para importação
de roupas e impôs tarifas de 46% sobre os televisores importados
da China. Em apenas dois anos, os televisores chineses tomaram uma
fatia de 8% do mercado das mãos dos fabricantes americanos.
Os produtores de roupas e artigos eletrônicos dos Estados
do Meio Oeste são muito numerosos. Depois da indústria
de alimentos, as confecções e as pequenas e médias
empresas de aparelhos eletrônicos são dois dos maiores
empregadores dos Estados Unidos. Do ponto de vista eleitoral, é
um erro não atender aos interesses dessa vasta clientela.
Do ponto de vista econômico, Washington está simplesmente
aumentando a ineficiência de sua economia.
AFP
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| PROTESTO
NA PRAÇA TRAFALGAR, EM LONDRES: movimento "Pare Bush"
marcou a visita do presidente americano à Inglaterra |
Em 1999, o déficit americano no comércio com a China
era de 60 bilhões de dólares. Três anos depois,
era de 120 bilhões, e continua crescendo. Os valores envolvidos
nas retaliações americanas na semana passada são
irrisórios, mas eles sinalizam uma mudança de comportamento,
reflexo de um temor real com a velocidade de conquista do mercado
americano pelas exportações chinesas. A agressividade
dos exportadores chineses, obviamente, não vai refluir depois
das eleições presidenciais americanas. "Governos de
todos os lugares do mundo costumam dar mais atenção
às demandas de seus eleitores nesses períodos eleitorais.
O medo de que o protecionismo nos Estados Unidos extrapole 2004
é muito real. Se fosse apenas um surto eleitoral, dificilmente
Alan Greenspan teria gritado", diz Ricardo Markwald, diretor da
Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior
(Funcex).
Economistas americanos acreditam que são bastante fortes
os indícios de que o protecionismo nos Estados Unidos não
seja apenas um componente da disputa eleitoral do próximo
ano. Na quinta-feira passada, o mais respeitado jornal americano
da área financeira, The Wall Street Journal, que não
pode ser acusado como Krugman de ter má vontade com Bush,
escreveu o seguinte: "Ao abrir a caixa de surpresas do protecionismo,
Bush não conseguirá mais fechá-la. A adoração
do falso deus do protecionismo vai ser um desastre para a economia
americana e mundial. Ela pode evitar temporariamente demissões
em regiões de interesse eleitoral de Bush, mas não
resolve o problema real".
O jornal toca no problema real, que é a criação
de empregos. Como mostrou o economista brasileiro José Alexandre
Scheinkman, professor da Universidade Princeton, o aumento brutal
da produtividade da economia americana faz com que o crescimento
econômico ocorra sem a geração de empregos na
mesma proporção. Portanto, é de esperar que,
mesmo com os fenomenais índices de crescimento registrados
neste ano e previstos para o próximo nos Estados Unidos,
isso não bastará para dissipar a ansiedade dos jovens
que não conseguem entrar no mercado de trabalho e dos desempregados
que não sabem como voltar a ele. As empresas americanas que
buscam proteção contra a concorrência estrangeira
estão com o lobby afiado no Congresso e agindo praticamente
sem oposição. "Os setores americanos que se beneficiam
do livre-comércio já conseguiram tudo o que queriam
nas últimas décadas e não pressionam mais",
diz Marcos Jank, do Instituto de Estudos do Comércio e Negociações
Internacionais (Ícone), de São Paulo. "A administração
Bush dá a impressão de que não tem mesmo apreço
pelo livre comércio", completa Scheinkman.
A globalização dos anos 90 pode ser resumida como
a derrota do protecionismo. É da volta dele em escala mundial
que se fala agora. Seja pelo efeito de imitação dos
Estados Unidos, seja pela lamentável falta de alternativas
econômicas politicamente palatáveis. Um estudo feito
pelo cientista inglês Richard Dawkins mostrou que as idéias
se propagam no mundo exatamente como os vírus no universo
biológico. Dawkins mostrou também que, da mesma forma
que existem vírus menos ou mais contagiosos, algumas idéias
se propagam muito mais rapidamente que outras. Em um de seus modelos
computadorizados, o inglês testou o poder de propagação
da idéia de globalização e da idéia
do protecionismo. Ganha o protecionismo porque há uma tendência
natural de as pessoas verem com desconfiança o risco da contaminação
de seu país através de manifestações
culturais ou econômicas vindas de fora. Já a idéia
da globalização, que embute a noção
bem mais arriscada teoricamente de abrir as portas de casa e baixar
a guarda, é um conceito muito menos contagioso. "Os militantes
antiglobalização que se manifestam por todo o mundo
com tanto vigor estão infectados pelo vírus do protecionismo",
diz Dawkins.
Os
economistas acreditam que a lentidão na negociação
da Alca, o excesso de contestações mútuas na
OMC e a proliferação dos acordos bilaterais são
sintomas de que a doença protecionista começa a minar
a saúde da globalização. Historicamente, não
seria surpresa se o protecionismo voltasse a ganhar força
no mundo. A cada período de liberalismo mundial seguiram-se
anos de fechamento. Foi assim no começo do século
passado, quando até 1913 o mundo viveu uma globalização
ainda mais febril que a da década passada. Com o malogro
da política de abertura de fronteiras, seguiram-se uma guerra
mundial, a Primeira, e a maior recessão global da história
do capitalismo, a que começou com a quebra das bolsas americanas
em 1929. Protecionismo começa com proteção
comercial e, se não combatido, debilita o trânsito
de capitais no mundo. Os Estados Unidos foram um dos países
que mais aproveitaram a aceleração do movimento de
capitais. Foi a liquidez dos mercados, ou seja, a sobra de capitais
e a facilidade de transmiti-los eletronicamente, que permitiu aos
americanos produzir déficits bilionários na balança
comercial sem que ninguém visse nisso o caminho para a derrocada
econômica. Ao contrário.
A equação que permitiu o funcionamento desse mecanismo
que Bush parece querer desfazer, assustando Greenspan e outros
economistas é incrivelmente simples. Os americanos
gastam com importações 500 bilhões de dólares
a mais do que aquilo que ganham com exportações. Mas
acabam recuperando tudo de volta, e mais alguns trocados, com a
venda de seus papéis a investidores estrangeiros. Esses papéis,
títulos do Tesouro americano, são comprados em maior
volume justamente pelos países com os quais os americanos
mais perdem em suas transações comerciais, China e
Japão. No ano passado, o déficit comercial dos Estados
Unidos com a China foi de 103 bilhões de dólares.
No mesmo período, o governo chinês comprou 250 bilhões
de dólares em títulos da dívida americana.
Ou seja, os EUA lucraram no processo 147 bilhões de dólares.
Com o Japão, passa-se quase a mesma coisa.
Pois veja-se só contra quem Bush tomou as medidas protecionistas
mais drásticas ultimamente: China e Japão. É
um contra-senso. "É nesse contexto que se deve entender o
alerta de Greenspan. O ímpeto para corrigir o déficit
pode quebrar a espinha dorsal do dólar. Se isso ocorrer,
o risco de uma pane mundial do capitalismo não é desprezível",
diz o economista Ken Rogoff, que acaba de deixar o posto de economista-chefe
do Fundo Monetário Internacional (FMI) para reassumir sua
cadeira na Universidade Harvard. "Os surtos de crescimento nos Estados
Unidos sempre foram acompanhados da absorção de produtos
de economias em crescimento mais veloz. A demanda por importações
nos Estados Unidos, portanto, não é anormal e se for
interrompida abruptamente os custos para nós e para o mundo
serão muito altos", disse a VEJA o economista Paul Krugman,
que se tornou o mais qualificado popularizador da economia desde
as incursões no jornalismo dos ícones da especialidade,
Milton Friedman e John Maynard Keynes.
Além dos incentivos à exportação, os
surtos de crescimento nos Estados Unidos produzem estímulos
diretos de injeção de capitais na economia brasileira.
No ano passado, os imigrantes brasileiros que vivem nos Estados
Unidos enviaram aos familiares no Brasil um total de 4,6 bilhões
de dólares. Isso significa que para cada 2 dólares
investidos pelas empresas americanas no Brasil naquele ano os imigrantes
mandaram 1 dólar. Os Estados Unidos compram de empresas brasileiras
cerca de 26% do total de produtos exportados pelo país, mais
que todas as nações européias somadas. A dependência
da América Latina do mercado americano importador é
ainda maior. Mais de 60% do que os latino-americanos exportam vão
preencher as prateleiras dos americanos. Para alguns países,
como o México, esse número ultrapassa os 80%. Portanto,
há motivos de genuína preocupação para
o mundo quando líderes americanos voltam a falar em "ameaça"
dos produtos importados.
"Os
Estados Unidos sob o comando de Bush são uma ameaça
para o mundo", diz o megainvestidor George Soros, de 73 anos, que
se tornou o maior adversário da Casa Branca na economia e
na política externa. Soros chegou a doar 15 milhões
de dólares a grupos de oposição ao presidente.
Para Soros, Bush está colocando em risco os pilares que fizeram
dos Estados Unidos uma potência. "Bush está atentando
contra as idéias americanas que conquistaram o mundo: a paz,
a democracia, os mercados, a força da classe média
e do livre-comércio." Há um evidente exagero político-partidário
no tom usado por George Soros. Mas ele reflete a temperatura do
debate sobre a condução econômica do governo
Bush e seu impacto sobre o mundo. Os erros protecionistas de Bush
e os exageros de seus adversários não devem atrapalhar
o reconhecimento do monumental estágio atual da economia
americana. A produtividade atingida pela indústria e pelos
serviços, a disseminação das tecnologias e
da internet e a capacidade de reação dos Estados Unidos
são extraordinárias. A locomotiva americana escapou
de um período de dois anos de crescimento pífio. Os
8,2% de crescimento conseguidos no terceiro trimestre do ano, fato
que não ocorria na maior economia do mundo havia vinte anos,
significam que em apenas noventa dias ela acrescentou a sua riqueza
261 bilhões de dólares, ou duas Argentinas. Com o
crescimento projetado para este ano, o PIB americano vai chegar
a quase 11 trilhões de dólares 23 vezes maior
que a economia brasileira. Se a atual geração de americanos
se deixar levar pela tentação do protecionismo radical
e, com isso, arrastar o capitalismo mundial para o desastre recessivo,
terá triunfado onde o comunismo e o terrorismo falharam.
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