|
|
Israel
O
muro que incomoda o mundo
A
construção da barreira é um
entrave, mas há uma proposta
alternativa que pode funcionar
Não
há melhor símbolo do impasse entre israelenses e palestinos
do que o muro que o governo do primeiro-ministro israelense Ariel
Sharon está erguendo para separar seu país da Cisjordânia,
território onde vive 1,5 milhão de palestinos. A barreira,
feita de cercas de arame farpado e pedaços de muro de concreto,
tem o objetivo de impedir a entrada dos terroristas cuja missão
é explodir bombas em restaurantes e ônibus lotados
de civis. Nesse aspecto, o muro é a expressão legítima
do direito de Israel de se defender de um inimigo determinado e
cruel. Seria bastante útil se demarcasse a fronteira do Estado
judeu, o que nenhum líder israelense até hoje ousou
fazer, pois assentaria as bases para a criação de
um Estado palestino ao lado de Israel. Há consenso internacional
de que essa é a única solução para estabelecer
a paz no Oriente Médio. Não é o que acontece.
Em lugar de seguir com fidelidade os 400 quilômetros da linha
verde, a fronteira de Israel até 1967, avança em território
palestino para proteger colônias judaicas, criando entraves
ainda maiores.
Apenas
a primeira fase da barreira foi construída, com 120 quilômetros,
mas, de acordo com levantamento das Nações Unidas
divulgado na semana passada, 2% da área total da Cisjordânia
já está do lado israelense da fronteira. No trecho
de Kalkilia, a cerca divide ao meio a cidade palestina de 85.000
habitantes. Quando for concluída, a defesa deverá
deixar isolados 200.000 moradores de
cidades e vilas palestinas. Eles precisarão de visto de residência
para continuar morando em sua casa. Se o plano seguir nesse passo,
o que sobrará de espaço será tão retalhado
que tornará inviável o Estado palestino. Por essa
razão, o repúdio internacional ao muro é total.
Não se trata somente das condenações de praxe
(o papa João Paulo II, os países árabes e a
União Européia protestaram, e a ONU votou uma resolução).
Até o governo do presidente George W. Bush, o melhor amigo
que Sharon poderia desejar, viu-se na obrigação de
expressar de forma concreta seu desagrado. Na semana passada, os
Estados Unidos cortaram 290 milhões de dólares em
garantias de empréstimos a Israel. Do ponto de vista prático,
significa pouca coisa a soma total da fiança americana
é 9 bilhões de dólares. Em assuntos diplomáticos,
contudo, tal gesto simbólico tem enorme peso.

|
Resolver
as disputas entre israelenses e palestinos teria efeito mágico
sobre as relações entre os EUA e os países
árabes sobretudo porque não se espera que a
ocupação do Iraque produza boas notícias a
médio prazo. Bush é autor de um projeto de negociações
na região, o chamado Mapa do Caminho, inicialmente aceito
por ambos os lados. Em pouco tempo, os atentados terroristas palestinos
deram a Sharon o pretexto para paralisar as negociações.
O governo palestino de Yasser Arafat, por sua vez, diz que não
volta a conversar sem concessões prévias de Israel.
Entre elas, inclui a suspensão das obras do muro. O cenário,
visto por aí, parece desanimador. Exceto por indícios
de que a população de cada um dos lados possa ser
mais razoável que seus líderes. O fato mais significativo
é o lançamento festivo nesta segunda-feira de um plano
de paz alternativo. O acordo não tem o apoio de Sharon nem
do líder palestino Yasser Arafat, que o condenaram com veemência
ou seja, trata-se de uma proposta sem base legal, acertada
por negociadores que não são reconhecidos pelos dois
governos. Os principais articuladores representam setores moderados
em seu país. Um deles foi Yossi Beilin, ministro da Justiça
no último governo trabalhista em Israel e um dos negociadores
dos acordos de paz de 1993. Outro, o palestino Yasser Abed Rabbo,
é ex-porta-voz da Autoridade Palestina.
O
documento de cinqüenta páginas foi negociado em sigilo
durante dois anos na Suíça daí seu nome,
Acordo de Genebra e teve o apoio técnico do governo
da Jordânia. O que propõe é uma volta ao básico
para um acordo de paz definitivo: seria criado um Estado palestino
na Cisjordânia e na Faixa de Gaza. Israel manteria algumas
das colônias, mas em troca cederia área equivalente
de seu território. Jerusalém seria dividida com bases
étnicas e serviria de capital para ambos os Estados. Os refugiados
de 1948, quando foi instituído o Estado de Israel, receberiam
indenização e se estabeleceriam no Estado palestino.
O que dá relevância ao Acordo de Genebra é o
fato de representar uma solução que a comunidade internacional
pode bancar, dos EUA aos países árabes. Foi até
elogiado pelo secretário de Estado Colin Powell, em nome
dos Estados Unidos.
Uma
cópia do documento foi enviada a cada residência israelense
e aos jornais palestinos (por falta de serviço postal não
se conseguiu repetir a distribuição casa por casa
entre os árabes dos territórios ocupados). Paralelamente,
pesquisa de opinião realizada em conjunto por dois institutos,
um americano e outro belga, mostrou que a população
dos dois lados está disposta a fazer a paz. Na pesquisa,
os entrevistados eram convidados a opinar sobre um hipotético
plano de seis pontos, parecido com o negociado na Suíça.
Cerca de 53% dos israelenses e 56% dos palestinos endossaram a proposta.
É uma reviravolta no que se esperava ser a vontade da opinião
pública em ambos os lados do muro. A julgar pelos líderes
que elegeram, parecia que a maioria dos israelenses rejeitava o
argumento de que tudo o que eles precisavam fazer para ter paz era
concordar com um Estado palestino. Sharon insiste que a opção
"terra por paz" foi oferecida nas conversações de
2001, patrocinadas pelos Estados Unidos e rejeitadas por Arafat,
que preferiu recorrer à Intifada, o levante nos territórios
ocupados, e ao terrorismo. Vê-se agora que esse pensamento
não é monolítico em nenhum dos lados, apesar
de a voz dos radicais ser mais ruidosa.
A
estratégia adotada por Sharon para combater o terrorismo
está sendo contestada de forma inédita por setores
das Forças de Defesa de Israel uma das instituições
mais respeitadas do país. A cada atentado, o Exército
de Israel aumenta a quantidade de barreiras e toques de recolher,
infernizando a vida da população palestina. Outra
medida adotada pelo governo israelense é assassinar palestinos
ligados a grupos terroristas. Foi contra essas providências
sistemáticas que se levantaram setores das Forças
de Defesa de Israel. Os primeiros protestos vieram de reservistas,
que pediram para não servir nos territórios ocupados.
Em seguida, 600 militares da ativa do Exército oficializaram
a exigência num manifesto, no qual criticaram duramente os
abusos contra a população civil palestina. Há
um mês, a insatisfação atingiu outros setores
militares. Um grupo de 27 pilotos e ex-pilotos da Força Aérea
assinou uma carta na qual deixou claro que não ia acatar
ordens de realizar bombardeios "ilegais e imorais", que ponham em
risco a vida de civis palestinos. Entre os signatários está
o brigadeiro da reserva Yiftah Spector, de 63 anos, o piloto mais
condecorado de Israel. "A ocupação de outro povo está
destruindo nossas Forças Armadas e nosso país", disse
Spector a VEJA. A pressão sobre Sharon e os líderes
militares aumentou há três semanas, por meio de um
alerta enviado por quatro ex-diretores do Shin Bet o serviço
secreto israelense. Eles advertiram que a política belicista
de Sharon representa uma ameaça ao regime democrático
de Israel e está levando o país "à catástrofe".
Em meio à escalada de insatisfação, o Acordo
de Genebra criou o fato político que faltava para isolar
o líder israelense. Na semana passada, Sharon avisou que
a construção do muro vai continuar e mandou um recado
aos dirigentes palestinos ou diminuem as exigências
para acertar um acordo ou perderão para sempre parte do território
onde pretendem criar seu Estado. Em outras palavras, o falcão
está pronto para negociar a paz, mas só nos próprios
termos.
A
ameaça do anti-semitismo na Europa
AP
 |
| Vandalismo
em cemitério judeu na França: atribuído a muçulmanos
franceses |
A
imprensa e muita gente graúda no governo israelense,
incluindo o primeiro-ministro Ariel Sharon, insistem
em que uma nova onda de anti-semitismo está se
formando na Europa, sessenta anos depois do holocausto.
As acusações têm por base os freqüentes
casos de vandalismo antijudaico, sobretudo na França.
Mas não só isso. A hostilidade a Israel
entre personalidades e políticos europeus muitas
vezes lembra a ladainha anti-semita dos anos 30. Será
possível que o pesadelo esteja realmente de volta?
Em 2002, a União Européia encomendou um
estudo desse fenômeno a uma universidade alemã.
Na semana passada, um jornal inglês revelou que
o estudo chegou a conclusões tão explosivas
que foi engavetado. Em síntese, dizia que os
atos contra judeus foram realizados por muçulmanos
europeus (uma afirmação que, temeu a União
Européia, aumentaria o preconceito contra os
árabes). Incomodou também o fato de o
relatório não estabelecer diferença
estatística entre anti-semitismo e manifestações
contra o Estado de Israel. É aí que está
o nó da questão: diferenciar o que é
antijudaico do que é antiisraelense.
A questão é irrelevante quando se trata
de atos de violência, todos condenáveis.
A oposição a Israel é mais complicada.
Os israelenses dizem que há um novo fenômeno,
chamado de "anti-semitismo de esquerda" e que disputa
espaço com o anti-semitismo de direita
o dos neonazistas. O preconceito latente em algumas
sociedades européias não pode ser menosprezado.
Mas também não deve ser exagerado. É
improvável para dizer o mínimo
que os europeus atuais sejam seduzidos pelo anti-semitismo
ao estilo dos anos 30. Por outro lado, como vítimas
do extremismo islâmico, os judeus não estão
sozinhos. Por fim, há uma grande diferença
para com os tempos sombrios do nazismo: o sentimento
antiisraelense e até o antijudaico mudam ao sabor
do que acontece no Oriente Médio. Pesquisas mostram
que os acordos de paz de 1993 elevaram o prestígio
de Israel na Europa. Isso pode acontecer novamente.
|
|
|