Edição 1831 . 3 de dezembro de 2003

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Israel
O muro que incomoda o mundo

A construção da barreira é um
entrave, mas há uma proposta
alternativa que pode funcionar

Em Profundidade: Questão Palestina

Não há melhor símbolo do impasse entre israelenses e palestinos do que o muro que o governo do primeiro-ministro israelense Ariel Sharon está erguendo para separar seu país da Cisjordânia, território onde vive 1,5 milhão de palestinos. A barreira, feita de cercas de arame farpado e pedaços de muro de concreto, tem o objetivo de impedir a entrada dos terroristas cuja missão é explodir bombas em restaurantes e ônibus lotados de civis. Nesse aspecto, o muro é a expressão legítima do direito de Israel de se defender de um inimigo determinado e cruel. Seria bastante útil se demarcasse a fronteira do Estado judeu, o que nenhum líder israelense até hoje ousou fazer, pois assentaria as bases para a criação de um Estado palestino ao lado de Israel. Há consenso internacional de que essa é a única solução para estabelecer a paz no Oriente Médio. Não é o que acontece. Em lugar de seguir com fidelidade os 400 quilômetros da linha verde, a fronteira de Israel até 1967, avança em território palestino para proteger colônias judaicas, criando entraves ainda maiores.

Apenas a primeira fase da barreira foi construída, com 120 quilômetros, mas, de acordo com levantamento das Nações Unidas divulgado na semana passada, 2% da área total da Cisjordânia já está do lado israelense da fronteira. No trecho de Kalkilia, a cerca divide ao meio a cidade palestina de 85.000 habitantes. Quando for concluída, a defesa deverá deixar isolados 200.000 moradores de cidades e vilas palestinas. Eles precisarão de visto de residência para continuar morando em sua casa. Se o plano seguir nesse passo, o que sobrará de espaço será tão retalhado que tornará inviável o Estado palestino. Por essa razão, o repúdio internacional ao muro é total. Não se trata somente das condenações de praxe (o papa João Paulo II, os países árabes e a União Européia protestaram, e a ONU votou uma resolução). Até o governo do presidente George W. Bush, o melhor amigo que Sharon poderia desejar, viu-se na obrigação de expressar de forma concreta seu desagrado. Na semana passada, os Estados Unidos cortaram 290 milhões de dólares em garantias de empréstimos a Israel. Do ponto de vista prático, significa pouca coisa – a soma total da fiança americana é 9 bilhões de dólares. Em assuntos diplomáticos, contudo, tal gesto simbólico tem enorme peso.


Resolver as disputas entre israelenses e palestinos teria efeito mágico sobre as relações entre os EUA e os países árabes – sobretudo porque não se espera que a ocupação do Iraque produza boas notícias a médio prazo. Bush é autor de um projeto de negociações na região, o chamado Mapa do Caminho, inicialmente aceito por ambos os lados. Em pouco tempo, os atentados terroristas palestinos deram a Sharon o pretexto para paralisar as negociações. O governo palestino de Yasser Arafat, por sua vez, diz que não volta a conversar sem concessões prévias de Israel. Entre elas, inclui a suspensão das obras do muro. O cenário, visto por aí, parece desanimador. Exceto por indícios de que a população de cada um dos lados possa ser mais razoável que seus líderes. O fato mais significativo é o lançamento festivo nesta segunda-feira de um plano de paz alternativo. O acordo não tem o apoio de Sharon nem do líder palestino Yasser Arafat, que o condenaram com veemência – ou seja, trata-se de uma proposta sem base legal, acertada por negociadores que não são reconhecidos pelos dois governos. Os principais articuladores representam setores moderados em seu país. Um deles foi Yossi Beilin, ministro da Justiça no último governo trabalhista em Israel e um dos negociadores dos acordos de paz de 1993. Outro, o palestino Yasser Abed Rabbo, é ex-porta-voz da Autoridade Palestina.

O documento de cinqüenta páginas foi negociado em sigilo durante dois anos na Suíça – daí seu nome, Acordo de Genebra – e teve o apoio técnico do governo da Jordânia. O que propõe é uma volta ao básico para um acordo de paz definitivo: seria criado um Estado palestino na Cisjordânia e na Faixa de Gaza. Israel manteria algumas das colônias, mas em troca cederia área equivalente de seu território. Jerusalém seria dividida com bases étnicas e serviria de capital para ambos os Estados. Os refugiados de 1948, quando foi instituído o Estado de Israel, receberiam indenização e se estabeleceriam no Estado palestino. O que dá relevância ao Acordo de Genebra é o fato de representar uma solução que a comunidade internacional pode bancar, dos EUA aos países árabes. Foi até elogiado pelo secretário de Estado Colin Powell, em nome dos Estados Unidos.

Uma cópia do documento foi enviada a cada residência israelense e aos jornais palestinos (por falta de serviço postal não se conseguiu repetir a distribuição casa por casa entre os árabes dos territórios ocupados). Paralelamente, pesquisa de opinião realizada em conjunto por dois institutos, um americano e outro belga, mostrou que a população dos dois lados está disposta a fazer a paz. Na pesquisa, os entrevistados eram convidados a opinar sobre um hipotético plano de seis pontos, parecido com o negociado na Suíça. Cerca de 53% dos israelenses e 56% dos palestinos endossaram a proposta. É uma reviravolta no que se esperava ser a vontade da opinião pública em ambos os lados do muro. A julgar pelos líderes que elegeram, parecia que a maioria dos israelenses rejeitava o argumento de que tudo o que eles precisavam fazer para ter paz era concordar com um Estado palestino. Sharon insiste que a opção "terra por paz" foi oferecida nas conversações de 2001, patrocinadas pelos Estados Unidos e rejeitadas por Arafat, que preferiu recorrer à Intifada, o levante nos territórios ocupados, e ao terrorismo. Vê-se agora que esse pensamento não é monolítico em nenhum dos lados, apesar de a voz dos radicais ser mais ruidosa.

A estratégia adotada por Sharon para combater o terrorismo está sendo contestada de forma inédita por setores das Forças de Defesa de Israel – uma das instituições mais respeitadas do país. A cada atentado, o Exército de Israel aumenta a quantidade de barreiras e toques de recolher, infernizando a vida da população palestina. Outra medida adotada pelo governo israelense é assassinar palestinos ligados a grupos terroristas. Foi contra essas providências sistemáticas que se levantaram setores das Forças de Defesa de Israel. Os primeiros protestos vieram de reservistas, que pediram para não servir nos territórios ocupados. Em seguida, 600 militares da ativa do Exército oficializaram a exigência num manifesto, no qual criticaram duramente os abusos contra a população civil palestina. Há um mês, a insatisfação atingiu outros setores militares. Um grupo de 27 pilotos e ex-pilotos da Força Aérea assinou uma carta na qual deixou claro que não ia acatar ordens de realizar bombardeios "ilegais e imorais", que ponham em risco a vida de civis palestinos. Entre os signatários está o brigadeiro da reserva Yiftah Spector, de 63 anos, o piloto mais condecorado de Israel. "A ocupação de outro povo está destruindo nossas Forças Armadas e nosso país", disse Spector a VEJA. A pressão sobre Sharon e os líderes militares aumentou há três semanas, por meio de um alerta enviado por quatro ex-diretores do Shin Bet – o serviço secreto israelense. Eles advertiram que a política belicista de Sharon representa uma ameaça ao regime democrático de Israel e está levando o país "à catástrofe". Em meio à escalada de insatisfação, o Acordo de Genebra criou o fato político que faltava para isolar o líder israelense. Na semana passada, Sharon avisou que a construção do muro vai continuar e mandou um recado aos dirigentes palestinos – ou diminuem as exigências para acertar um acordo ou perderão para sempre parte do território onde pretendem criar seu Estado. Em outras palavras, o falcão está pronto para negociar a paz, mas só nos próprios termos.

 
A ameaça do anti-semitismo na Europa


AP
Vandalismo em cemitério judeu na França: atribuído a muçulmanos franceses

A imprensa e muita gente graúda no governo israelense, incluindo o primeiro-ministro Ariel Sharon, insistem em que uma nova onda de anti-semitismo está se formando na Europa, sessenta anos depois do holocausto. As acusações têm por base os freqüentes casos de vandalismo antijudaico, sobretudo na França. Mas não só isso. A hostilidade a Israel entre personalidades e políticos europeus muitas vezes lembra a ladainha anti-semita dos anos 30. Será possível que o pesadelo esteja realmente de volta? Em 2002, a União Européia encomendou um estudo desse fenômeno a uma universidade alemã. Na semana passada, um jornal inglês revelou que o estudo chegou a conclusões tão explosivas que foi engavetado. Em síntese, dizia que os atos contra judeus foram realizados por muçulmanos europeus (uma afirmação que, temeu a União Européia, aumentaria o preconceito contra os árabes). Incomodou também o fato de o relatório não estabelecer diferença estatística entre anti-semitismo e manifestações contra o Estado de Israel. É aí que está o nó da questão: diferenciar o que é antijudaico do que é antiisraelense.

A questão é irrelevante quando se trata de atos de violência, todos condenáveis. A oposição a Israel é mais complicada. Os israelenses dizem que há um novo fenômeno, chamado de "anti-semitismo de esquerda" e que disputa espaço com o anti-semitismo de direita – o dos neonazistas. O preconceito latente em algumas sociedades européias não pode ser menosprezado. Mas também não deve ser exagerado. É improvável – para dizer o mínimo – que os europeus atuais sejam seduzidos pelo anti-semitismo ao estilo dos anos 30. Por outro lado, como vítimas do extremismo islâmico, os judeus não estão sozinhos. Por fim, há uma grande diferença para com os tempos sombrios do nazismo: o sentimento antiisraelense e até o antijudaico mudam ao sabor do que acontece no Oriente Médio. Pesquisas mostram que os acordos de paz de 1993 elevaram o prestígio de Israel na Europa. Isso pode acontecer novamente.

 
 
 
 
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