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Roraima
Uma
casta inteira na
cadeia
Como
só ocorre nas revoluções, metade
da elite de Roraima foi para o xilindró

Malu
Gaspar
Na
semana passada, uma multidão curiosa reuniu-se em frente
à Cadeia Pública de Boa Vista, capital de Roraima.
Houve gente que faltou ao trabalho apenas para bater ponto no local.
Todos queriam acompanhar a chegada dos camburões e, sobretudo,
conhecer os mais novos presos figuras ilustres do Estado.
Foi um espetáculo que só costuma acontecer em períodos
convulsionados por revoluções. Mas, sem revolução
nenhuma, uma casta inteira de Roraima foi parar atrás das
grades, sob os aplausos dos cidadãos comuns. O deputado Antonio
Mecias de Jesus, presidente da Assembléia Legislativa de
Roraima, amargou a prisão de sua mulher, seu sogro e seu
cunhado. Sete ex-deputados estaduais foram parar no xilindró,
além de dez parentes de deputados ainda no exercício
do mandato. A esposa de um conselheiro do Tribunal de Contas do
Estado está presa. O encarcerado mais ilustre é o
ex-governador Neudo Campos, capturado em Brasília, em sua
mansão no Lago Sul, e levado para Boa Vista, sob escolta
de policiais federais. Até sexta-feira, 43 pessoas haviam
sido presas. Ainda faltava encontrar doze foragidos. Entre eles,
três ex-deputados estaduais, um vereador e parentes de políticos.
A operação
que levou parte da elite de Roraima para a cadeia é resultado
da descoberta de um escândalo voraz. Uma investigação
revelou que, entre 1998 e 2002, o governo de Roraima empregou cerca
de 5.000 funcionários batizados de "gafanhotos",
numa referência ao inseto que come folhas no caso,
folhas salariais. A maioria dos gafanhotos eram servidores públicos,
mas nem sabiam disso. Eram pessoas humildes, algumas analfabetas,
que assinavam documentos cujo conteúdo desconheciam. Na verdade,
eram contratos de trabalho e procurações para terceiros,
com poderes para receber seus salários. A partir daí,
os tais procuradores se encarregavam de, todo fim de mês,
ir ao caixa do Estado para retirar o salário do gafanhoto.
Havia procuradores que sacavam o salário e davam apenas um
troco ao gafanhoto, e ainda aproveitavam para se passar por almas
caridosas, merecedoras, portanto, do voto da vítima na eleição
seguinte. Em outros casos, os procuradores embolsavam 100% da remuneração
e deixavam o gafanhoto à míngua.
De
acordo com a contabilidade dos investigadores, os gafanhotos chegaram
a formar uma massa de 5.000 pessoas. É um número altíssimo
num Estado cujo funcionalismo público é composto de
42.000 servidores. Mas os procuradores, aqueles que realmente embolsavam
o dinheiro, não passavam de sessenta pessoas. Eles é
que começaram a dormir na prisão na semana passada.
Estima-se que, no período em que a mutreta vigorava, os envolvidos
surrupiaram cerca de 70 milhões de reais por ano dos cofres
públicos, quantia que corresponde a 10% do orçamento
anual de Roraima. O ex-governador Neudo Campos, em cujo mandato
a gafanhotada começou a aparecer, nega as acusações
de envolvimento na fraude. Em sua casa, em Brasília, foram
apreendidos mais de trinta sacos de documentos, computadores, agendas
e um cofre, que podem ajudar a esclarecer detalhes do esquema. O
atual governador, Flamarion Portela, diz que não tem nenhum
envolvimento com o caso. De fato, não existe acusação
alguma contra Portela, nem mandado de prisão. Portela foi
vice de Neudo Campos, no auge da fraude. Nos meses em que Portela
substituiu Campos no ano passado, a gafanhotada cresceu muito.
"Eu
não participava efetivamente do governo. Ouvia rumores, mas
desconhecia por completo a dimensão de como a coisa era feita",
afirmou o atual governador na última semana. A investigação
da Polícia Federal, no entanto, incluiu em seus relatórios
internos suspeitas de que alguns dos assessores do governador participavam
do esquema. Há dois meses, depois que VEJA publicou uma reportagem
apontando "a dimensão da coisa", o governador informou
à revista que demitiria todos os auxiliares suspeitos. Como
não o fez, teve de passar pelo constrangimento, na semana
passada, de assistir à prisão de alguns assessores
e à fuga de outros. Seu diretor do Instituto de Pesos e Medidas,
o deputado licenciado Herbson Bantim, foi preso. Um ex-deputado
que também trabalhava no instituto está igualmente
no xadrez. Seu diretor de Polícia Judiciária, o ex-deputado
estadual Angelo Paiva de Moura, encontra-se foragido, assim como
uma assessora de seu gabinete, a ex-deputada Francisca Aurelina.
Em Roraima, ao que tudo indica, a temporada dos gafanhotos agora
é atrás das grades e não em cima das folhas
de salário do Estado.
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