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STF
Está tudo fora da lei
Funcionários sem carteira assinada,
menor trabalhando e terra invadida
eis a chácara do ministro

Policarpo
Junior
Joedson Alves/AE
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ministro Maurício Corrêa, presidente do Supremo: na semana passada,
ele defendeu mudanças no estatuto do menor |
Às 9h40 da terça-feira passada, dois fiscais da Delegacia
Regional do Trabalho visitaram uma chácara nas cercanias
de Brasília. Apuravam uma denúncia de que funcionários
da propriedade trabalhavam sem carteira assinada. Ao chegar ao local,
os fiscais abordaram uma senhora para saber o nome do dono da chácara,
dado necessário ao preenchimento dos documentos da vistoria.
"É o doutor Maurício", informou a senhora. "Maurício
de quê?", indagou um fiscal. "Doutor Maurício Corrêa",
disse ela, ao explicar que, na ausência do patrão,
seu marido respondia pela chácara. A vistoria durou uma hora
e meia. Os fiscais descobriram irregularidades muito comuns. Confirmaram
que os funcionários não tinham a carteira de trabalho
assinada e ainda constataram que havia um menor trabalhando e salários
inferiores a 240 reais, o mínimo valor legal. O dono da chácara
é o doutor Maurício Corrêa, presidente do Supremo
Tribunal Federal, a mais alta corte brasileira, encarregada de zelar
pelo fiel cumprimento da Constituição.
Na chácara, Corrêa infringe três artigos das
leis trabalhistas e um da Constituição, conforme constatou
a vistoria. Os fiscais encontraram nove trabalhadores sem carteira
assinada. Um é Antônio Ferreira da Silva, 32 anos,
que cuida dos cavalos. Ele mora e trabalha na chácara do
ministro há dois anos. Ganha 300 reais por mês. "O
ministro é gente muito boa", elogia. José Galdino
da Silva, 48 anos, cuida das cinqüenta cabeças de gado.
Também ganha 300 reais e não tem carteira de trabalho.
Um garoto, de 15 anos, ajuda no trato aos cavalos. Ganha 125 reais.
"Trabalho só meio expediente", diz ele. A lei proíbe
o trabalho de menores de 16 anos. Isso, em muitos casos, não
passa de uma estupidez da lei, mas a regra formal existe e precisa
ser cumprida por todos os brasileiros que empregam. A Constituição
diz que qualquer trabalhador, ainda que trabalhe só meio
expediente, tem direito a um salário mínimo inteiro.
Isso é também uma regra que pode dificultar o emprego
de muita gente mas é o que diz a Constituição,
e a Constituição tem de ser obedecida. Cícero
Alves dos Santos, 27 anos, é pedreiro e mora na chácara.
Ganha 30 reais por dia, quando é escalado para algum serviço.
"Mas eu estou liberado para trabalhar em outro lugar", conta.
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| A
sede da chácara do ministro, nos arredores da capital federal
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Na
chácara, o ministro já criou porcos, mas desativou
a pocilga. Uma fiscalização anterior descobriu que
o abatedouro era clandestino e não tinha condições
sanitárias adequadas para funcionar. Os porcos eram abatidos
a céu aberto e os dejetos, canalizados para um córrego,
poluindo as águas que abastecem uma cidade-satélite
de Brasília. O ministro arrendou uma parte das terras a produtores
interessados em cultivar soja, e garante que pouco aparece lá.
Sem tempo, dedica-se apenas a concluir uma capela na propriedade,
erguida em homenagem a Nossa Senhora. Os fiscais do trabalho também
encontraram irregularidades nessa obra. Cinco operários trabalhavam
na capela no dia em que a fiscalização esteve na chácara,
e nenhum tinha carteira assinada. Antônio Ribamar Aguiar,
49 anos, chefe da turma, confirmou a irregularidade, disse que não
tinha vínculo empregatício com a chácara, mas
não se lembrava de quem contratara a equipe. Irritado, completou:
"Nós estamos em uma época em que a gente tem é
que agradecer por ter onde trabalhar".
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| A
capela erguida em homenagem a Nossa Senhora: o ministro e o
genro têm versões desiguais para a obra |
Há
várias versões e muita amnésia para a situação
trabalhista da equipe de Antônio Aguiar. Segundo Maurício
Corrêa, os trabalhadores são de uma empresa contratada
para concluir a capela. Mas o ministro não se lembra do contrato,
da empresa nem do valor. Diz que a administração da
chácara cabe ao seu genro, Joabson Martins. O genro, por
sua vez, diz que contratou um mestre-de-obras e o mestre-de-obras
convocou os demais operários. O genro não lembra o
nome do mestre-de-obras, não sabe onde está o contrato,
mas acha que o valor foi próximo a 5 000 reais. No dia seguinte,
numa segunda conversa, porém, o ministro lembrou que o contrato
fora com a Aquarela, uma loja de tintas em Brasília. Seu
genro, que dissera ter empregado um mestre-de-obras e não
se lembrava de onde estava o contrato, apresentou dois contratos
com a Aquarela. São assinados por ele próprio. Um
é manuscrito e ambos não têm registro em cartório
nem firma reconhecida. O dono da Aquarela, Edson Tavares da Silva,
disse a VEJA que já concluiu a obra, apesar da evidência
visual em contrário, mas não recebeu o pagamento.
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| Galdino
da Silva e Cícero Alves: sem carteira de trabalho assinada |
No
fim da tarde de terça-feira, já concluída a
vistoria, o chefe dos pedreiros e seus quatro colegas encerraram
o expediente e embarcaram num veículo que os esperava. O
veículo, uma Kombi, pertence à empreiteira Via Dragados,
a oitava maior construtora do país, habituada a erguer grandes
obras, como pontes e hidrelétricas. A Kombi levou os cinco
operários para um canteiro de obras da Via Dragados, no centro
de Brasília, e não para a loja Aquarela. "Até
me ofereci para terminar a capela, mas o ministro não aceitou.
Ele é muito preocupado com a ética", conta José
Gontijo, um dos donos da empreiteira. Gontijo diz que a presença
de sua Kombi na chácara foi coincidência, pois sua
empresa tem obras na região. "Pode ter sido uma carona",
diz. E por que os pedreiros foram levados para um canteiro de obras
da empreiteira? "Isso eu não sei explicar. Mas não
tenho nada a ver com essa obra", diz ele. Maurício Corrêa
é casado com Alda Gontijo, prima do empreiteiro José
Gontijo.
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| A
Kombi, com operários do ministro sendo levados para a empreiteira
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A
chácara de Maurício Corrêa pertence ao governo
do Distrito Federal. Há trinta anos, o ministro tem um contrato
de arrendamento. Usa a terra para produzir e paga uma taxa (a última,
aliás, está vencida há três meses). Foi
um procedimento comum no passado, para incentivar a produção
agrícola na nova capital federal. O presidente do STF tem
sob sua responsabilidade, até dezembro de 2007, pouco mais
de 50 hectares. Mas a propriedade cresceu nos últimos tempos.
Por conta própria, o ministro invadiu uma área de
quase 3 hectares em frente à chácara. Como são
terras públicas, Corrêa pode responder por grilagem.
O ministro já foi notificado da irregularidade, mas não
se importou muito. "Na hora em que quiserem (de volta), está
lá", diz ele.
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Antônio
da Silva, que toma conta
dos cavalos: "O ministro é gente
muito boa", diz |
Para
cada trabalhador sem carteira assinada, Maurício Corrêa
deve pagar multa de 402,53 reais, além de recolher contribuição
à Previdência Social e depositar parcela do fundo de
garantia. Na sexta-feira, porém, seu genro apresentou a VEJA
as carteiras de trabalho de dois funcionários, ambas assinadas
embora os dois funcionários em questão tivessem
informado aos fiscais apenas três dias antes que nelas não
havia registro de contrato algum. O genro admitiu, porém,
que não cumpriu as obrigações legais decorrentes
da assinatura de uma carteira, como pagamento do INSS e do fundo
de garantia. "Não assinar carteira de trabalho é uma
irregularidade comum, mas grave, pois priva o trabalhador de todos
os seus direitos", diz o delegado do Trabalho, José Pedro
Alencar. Na semana passada, Maurício Corrêa esteve
em São Paulo, onde defendeu o aumento das penas para menores
infratores previstas no Estatuto da Criança e do Adolescente
(ECA). Num encontro com juízes, convocou os magistrados de
todo o país para, no dia 8 de dezembro, conceder entrevista
em suas cidades, num mutirão nacional para melhorar a imagem
da Justiça. "O descrédito na Justiça atingiu
o fundo do poço", disse. "Assim, tenho certeza de que vamos
melhorar o visual perante o povo brasileiro."
ENTREVISTA
"Não
tenho o rabo preso"
O ministro Maurício Corrêa, presidente
do Supremo Tribunal Federal, recebeu VEJA duas vezes,
na semana passada, para falar sobre as irregularidades
encontradas em sua chácara. A seguir, os principais
trechos:
Sobre
o abatedouro clandestino de porcos "Há
dezesseis anos, o senhor Joabson Martins namorava minha
filha. Ele começou a se interessar pela chácara
e a tomar conta dos porcos. Um ano ou dois depois, ele
casou com minha filha e passou a explorar aquilo como
lazer. À medida que o tempo foi passando, houve
uma transferência da administração
da chácara para ele. Ele aumentou a exploração
de porco por conta dele. Vendia porco por conta dele.
Nunca recebi um centavo. Ele admitia os empregados.
Tudo ele. Eu tenho um único empregado, que é
o caseiro Geraldo. É a mais pura verdade."
Sobre os empregados irregulares "Se ele
tiver empregado lá, o empregado é dele.
O meu é o seu Geraldo. Se ele não tiver
pago os encargos, eu vou resolver tudo, vou pagar tudo.
Eu, Maurício Corrêa, não tenho nenhum
empregado lá, a não ser o seu Geraldo."
Sobre a invasão de terra pública
"O Joabson mandou fazer uma cerca para proteger a propriedade.
Logo em frente tem uma favela, onde já ocorreram
vários homicídios. As balas caíam
na chácara. O seu Geraldo ficava desesperado.
Minha casa já foi invadida, arrebentaram tudo,
roubaram minha televisão. Então, ficamos
preocupados e fizemos essa cerquinha. Ela (a terra)
está disponível, evidentemente, para
quem for o titular, para ser devolvida. Se o governo
desse segurança, evidentemente que não
teria razão para fazer aquilo."
Sobre o trabalho de menor de idade "Não
sei, desconheço que haja menor trabalhando lá.
Meu genro é muito medroso. Ele tem de dizer a
verdade. Lá tem o filho do caseiro, nem sei se
ele trabalha. O menino estuda. Eu nunca paguei nada
a ele."
Sobre a capela "Tem um primo da Alda (esposa
do ministro) que é meu amigo e arranjou essa
empresa, Aquarela não sei de quê, para
fazer a obra da capela. Há um contrato para terminar
o acabamento da capela, que está quase pronta.
Ficou em coisinha de 20.000."
Conclusão do ministro "Desde que
dei entrevista criticando o PT, sei que está
todo mundo atrás de mim. Para terminar: se tiver
algum empregado lá sem carteira, não é
responsabilidade minha. Eu não tenho rabo preso,
qualquer irregularidade que exista, de que subsidiariamente
eu seja o responsável, assumo e legalizo."
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