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Presidência
A
máquina da viagem
Com
sua maior comitiva, Lula visitará o
Oriente Médio, região que não recebe
um dirigente do Brasil desde Pedro II
Ricardo Stuckert/PR
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| Lula,
a bordo do avião, com três ministros: suas viagens mobilizam
100 pessoas durante um mês e meio |
Nesta
quarta-feira, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva desembarca
em Damasco, capital da Síria, na primeira etapa da visita
de uma semana a cinco países do Oriente Médio. Até
agora, Lula é o presidente brasileiro que, em todos os tempos,
mais viajou para o exterior. Será sua 17ª excursão
internacional desde a posse. A viagem de agora, porém, tem
outro ineditismo. Desde que o imperador dom Pedro II, na década
de 1870, fez um giro de caráter particular pelo Oriente Médio,
durante o qual esteve na Síria, no Egito, na Palestina e
no Líbano, nunca mais um chefe de Estado brasileiro visitou
a região. Quebrando um jejum de mais de um século,
além da Síria Lula visitará o Líbano,
os Emirados Árabes Unidos, o Egito e a Líbia. Levará
uma comitiva maior que a de todas as suas viagens anteriores. Entre
ajudantes e convidados, serão cerca de 200 pessoas. Nem todas
farão o percurso integral, saindo de Brasília e voltando
a Brasília. Alguns convidados se integrarão à
comitiva num ponto do trajeto, cumprirão uma etapa e se desligarão
do grupo.
Uma
viagem presidencial ao exterior exige uma infra-estrutura monumental.
Nunca envolve menos de 100 auxiliares, entre diplomatas, seguranças,
médicos, pilotos e técnicos. Habitualmente, o chanceler
Celso Amorim, em audiência com o presidente, define os convites
que serão aceitos e marca uma data provável, em geral
atendendo à sugestão do país anfitrião.
Em torno de 45 dias antes do embarque, a máquina de viagem
começa a funcionar em ritmo acelerado. Uma comitiva brasileira,
chamada de "missão precursora", visita o país de destino
para examinar questões de segurança, infra-estrutura
hoteleira, trânsito das ruas, qualidade da alimentação
local, estrutura de telecomunicações. De volta ao
Brasil, a missão precursora sugere um programa de atividades
para o presidente. A agenda, no fim, geralmente é um misto
de necessidades diplomáticas e vontades pessoais do presidente.
Ramon Gonçalves
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| Suíte
reservada aos presidentes, no Blue Tree, em Brasília |
Definida
a agenda externa, outro grupo, chamado de "escalão avançado",
composto de cerca de dez pessoas, embarca para o país anfitrião
uma semana antes da viagem do presidente para cuidar dos detalhes
finais. Nessa etapa, uma equipe da Aeronáutica já
está pronta para levar o presidente. Se for uma viagem à
América Latina, o avião será um Boeing 737,
do mesmo modelo que, na semana passada, teve um pequeno acidente
no aeroporto de Brasília. A aeronave deslizou sobre a pista
e acabou estacionada sobre o gramado durante um treinamento. Se
a viagem for transoceânica, o avião será um
707, modelo conhecido como "Sucatão". Em todas as viagens,
porém, são dois aparelhos um que leva o presidente
e outro de reserva, que, sempre que possível, decola depois
do avião presidencial, mas chega antes ao destino, estando
já pousado no aeroporto quando o presidente aterrissa. Na
viagem ao Oriente Médio, o reserva não conseguirá
chegar antes da aeronave de Lula, pois terá de fazer uma
escala de reabastecimento no meio do caminho.
Na
Aeronáutica há uma equipe de dezesseis pilotos que
servem ao presidente. Foi apelidada de "esquadrão da rainha",
numa referência à RAF, a Aeronáutica inglesa,
a primeira força aérea a criar uma equipe exclusiva
para atender a sua maior autoridade no caso, a rainha. No
Brasil, fazer parte do "esquadrão da rainha" é sinal
de promoção para qualquer piloto. Eles, junto com
outros integrantes da tripulação, cuidam de tudo.
Por medida de segurança, consomem cardápios diferentes
para evitar uma intoxicação generalizada. Também
fazem o chamado "vôo da bomba", um exercício em que
levam a aeronave a uma altitude de 30.000
pés, a partir da qual qualquer artefato explosivo pode ser
detonado. Quatro horas antes da decolagem, depois que todos os detalhes
de segurança foram checados, ninguém mais entra no
avião até a chegada do presidente.
Até
agora, Lula só tem viajado atendendo a convites. Só
no dia de sua posse, enquanto recebia o cumprimento de chefes estrangeiros
que vieram à solenidade, ele recebeu dezenove pedidos formais.
Atualmente, tem mais de quarenta convites na fila. Há várias
razões para tanto assédio. A rara trajetória
pessoal e política de Lula atrai a curiosidade estrangeira,
como aconteceu, por exemplo, com o sindicalista polonês Lech
Walesa, eleito para comandar a Polônia no início dos
anos 90. Além disso, Lula recebeu uma herança
bendita, neste caso do governo anterior, pois o ex-presidente
Fernando Henrique empenhou-se com sucesso em abrir muitas portas
ao Brasil no exterior. Por fim, Lula é, ele próprio,
um entusiasta dos contatos lá fora e não costuma recusar
viagens. Tanto que, nos primeiros onze meses de governo, passou
praticamente a metade do tempo em Brasília e outra metade
em viagens nacionais ou internacionais.
Lula
também é o presidente brasileiro que mais recebe presidentes,
primeiros-ministros, reis e rainhas. Até hoje, foram 37 mandatários
estrangeiros, sem contar os que compareceram a sua posse em janeiro.
Na semana passada, por exemplo, estava em Brasília o presidente
da Alemanha, Johannes Rau. São tantas as visitas que já
ocorreram cenas raras em Brasília. Recentemente, duas rainhas
se encontraram casualmente. Estavam hospedadas no hotel Blue Tree,
o preferido dos estrangeiros por motivos de segurança, conforto
e localização. Eram as rainhas Sofia, da Espanha,
e Sonja, da Noruega, que se cruzaram pelos corredores do hotel.
O
5º andar do Blue Tree tem uma suíte presidencial. Não
há móveis de alta sofisticação nem quadros
preciosos nas paredes, mas são 480 metros quadrados, com
bar, escritório, sala de leitura, televisão com tela
de plasma, lençóis com fios de algodão egípcio
e uma ampla varanda, debruçada sobre o Lago Paranoá.
Os funcionários do hotel, cada vez mais habituados à
presença constante de hóspedes importantes, já
perceberam que, diferentemente dos artistas que costumam fazer exigências
exóticas, os chefes estrangeiros são pacatos e discretos.
A rainha da Espanha entrou na fila do bufê para se servir,
escolhendo pratos que combinassem com sua opção vegetariana.
A presidente da Finlândia, Tarja Halonen, surgiu um dia em
trajes de banho cercada de seguranças, dirigindo-se à
piscina, onde se exercitou nadando. Tarja Halonen é ex-nadadora.
O caso mais curioso ocorrido até agora foi o do presidente
da África do Sul, Thabo Mbeki. Em pleno café-da-manhã,
ele pediu frango com legumes.
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