Edição 1831 . 3 de dezembro de 2003

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Presidência
A máquina da viagem

Com sua maior comitiva, Lula visitará o
Oriente Médio, região que não recebe
um dirigente do Brasil desde Pedro II


Ricardo Stuckert/PR
Lula, a bordo do avião, com três ministros: suas viagens mobilizam 100 pessoas durante um mês e meio

Notícias diárias sobre o governo Lula

Nesta quarta-feira, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva desembarca em Damasco, capital da Síria, na primeira etapa da visita de uma semana a cinco países do Oriente Médio. Até agora, Lula é o presidente brasileiro que, em todos os tempos, mais viajou para o exterior. Será sua 17ª excursão internacional desde a posse. A viagem de agora, porém, tem outro ineditismo. Desde que o imperador dom Pedro II, na década de 1870, fez um giro de caráter particular pelo Oriente Médio, durante o qual esteve na Síria, no Egito, na Palestina e no Líbano, nunca mais um chefe de Estado brasileiro visitou a região. Quebrando um jejum de mais de um século, além da Síria Lula visitará o Líbano, os Emirados Árabes Unidos, o Egito e a Líbia. Levará uma comitiva maior que a de todas as suas viagens anteriores. Entre ajudantes e convidados, serão cerca de 200 pessoas. Nem todas farão o percurso integral, saindo de Brasília e voltando a Brasília. Alguns convidados se integrarão à comitiva num ponto do trajeto, cumprirão uma etapa e se desligarão do grupo.

Uma viagem presidencial ao exterior exige uma infra-estrutura monumental. Nunca envolve menos de 100 auxiliares, entre diplomatas, seguranças, médicos, pilotos e técnicos. Habitualmente, o chanceler Celso Amorim, em audiência com o presidente, define os convites que serão aceitos e marca uma data provável, em geral atendendo à sugestão do país anfitrião. Em torno de 45 dias antes do embarque, a máquina de viagem começa a funcionar em ritmo acelerado. Uma comitiva brasileira, chamada de "missão precursora", visita o país de destino para examinar questões de segurança, infra-estrutura hoteleira, trânsito das ruas, qualidade da alimentação local, estrutura de telecomunicações. De volta ao Brasil, a missão precursora sugere um programa de atividades para o presidente. A agenda, no fim, geralmente é um misto de necessidades diplomáticas e vontades pessoais do presidente.


Ramon Gonçalves
Suíte reservada aos presidentes, no Blue Tree, em Brasília

Definida a agenda externa, outro grupo, chamado de "escalão avançado", composto de cerca de dez pessoas, embarca para o país anfitrião uma semana antes da viagem do presidente para cuidar dos detalhes finais. Nessa etapa, uma equipe da Aeronáutica já está pronta para levar o presidente. Se for uma viagem à América Latina, o avião será um Boeing 737, do mesmo modelo que, na semana passada, teve um pequeno acidente no aeroporto de Brasília. A aeronave deslizou sobre a pista e acabou estacionada sobre o gramado durante um treinamento. Se a viagem for transoceânica, o avião será um 707, modelo conhecido como "Sucatão". Em todas as viagens, porém, são dois aparelhos – um que leva o presidente e outro de reserva, que, sempre que possível, decola depois do avião presidencial, mas chega antes ao destino, estando já pousado no aeroporto quando o presidente aterrissa. Na viagem ao Oriente Médio, o reserva não conseguirá chegar antes da aeronave de Lula, pois terá de fazer uma escala de reabastecimento no meio do caminho.

Na Aeronáutica há uma equipe de dezesseis pilotos que servem ao presidente. Foi apelidada de "esquadrão da rainha", numa referência à RAF, a Aeronáutica inglesa, a primeira força aérea a criar uma equipe exclusiva para atender a sua maior autoridade – no caso, a rainha. No Brasil, fazer parte do "esquadrão da rainha" é sinal de promoção para qualquer piloto. Eles, junto com outros integrantes da tripulação, cuidam de tudo. Por medida de segurança, consomem cardápios diferentes para evitar uma intoxicação generalizada. Também fazem o chamado "vôo da bomba", um exercício em que levam a aeronave a uma altitude de 30.000 pés, a partir da qual qualquer artefato explosivo pode ser detonado. Quatro horas antes da decolagem, depois que todos os detalhes de segurança foram checados, ninguém mais entra no avião até a chegada do presidente.

Até agora, Lula só tem viajado atendendo a convites. Só no dia de sua posse, enquanto recebia o cumprimento de chefes estrangeiros que vieram à solenidade, ele recebeu dezenove pedidos formais. Atualmente, tem mais de quarenta convites na fila. Há várias razões para tanto assédio. A rara trajetória pessoal e política de Lula atrai a curiosidade estrangeira, como aconteceu, por exemplo, com o sindicalista polonês Lech Walesa, eleito para comandar a Polônia no início dos anos 90. Além disso, Lula recebeu uma herança – bendita, neste caso – do governo anterior, pois o ex-presidente Fernando Henrique empenhou-se com sucesso em abrir muitas portas ao Brasil no exterior. Por fim, Lula é, ele próprio, um entusiasta dos contatos lá fora e não costuma recusar viagens. Tanto que, nos primeiros onze meses de governo, passou praticamente a metade do tempo em Brasília e outra metade em viagens nacionais ou internacionais.

Lula também é o presidente brasileiro que mais recebe presidentes, primeiros-ministros, reis e rainhas. Até hoje, foram 37 mandatários estrangeiros, sem contar os que compareceram a sua posse em janeiro. Na semana passada, por exemplo, estava em Brasília o presidente da Alemanha, Johannes Rau. São tantas as visitas que já ocorreram cenas raras em Brasília. Recentemente, duas rainhas se encontraram casualmente. Estavam hospedadas no hotel Blue Tree, o preferido dos estrangeiros por motivos de segurança, conforto e localização. Eram as rainhas Sofia, da Espanha, e Sonja, da Noruega, que se cruzaram pelos corredores do hotel.

O 5º andar do Blue Tree tem uma suíte presidencial. Não há móveis de alta sofisticação nem quadros preciosos nas paredes, mas são 480 metros quadrados, com bar, escritório, sala de leitura, televisão com tela de plasma, lençóis com fios de algodão egípcio e uma ampla varanda, debruçada sobre o Lago Paranoá. Os funcionários do hotel, cada vez mais habituados à presença constante de hóspedes importantes, já perceberam que, diferentemente dos artistas que costumam fazer exigências exóticas, os chefes estrangeiros são pacatos e discretos. A rainha da Espanha entrou na fila do bufê para se servir, escolhendo pratos que combinassem com sua opção vegetariana. A presidente da Finlândia, Tarja Halonen, surgiu um dia em trajes de banho cercada de seguranças, dirigindo-se à piscina, onde se exercitou nadando. Tarja Halonen é ex-nadadora. O caso mais curioso ocorrido até agora foi o do presidente da África do Sul, Thabo Mbeki. Em pleno café-da-manhã, ele pediu frango com legumes.

 

 
 
 
 
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