|
|
Diogo
Mainardi
A
praga brasileira
"O
maior problema do Brasil é a propaganda
política. Fomos da ditadura dos militares diretamente para
a ditadura dos políticos.
Para cada minuto de informação, somos
obrigados a engolir meia hora de programação
partidária, em que os políticos podem nos
enganar à vontade, sem desmentidos"
Fome?
Desemprego? Criminalidade? Nada disso. O maior problema do Brasil
é a propaganda política. Em nenhum lugar do mundo
há tanta propaganda política quanto aqui. Toda noite
tem algum partido mentindo para a gente, nos intervalos do Jornal
Nacional. Fomos da ditadura dos militares diretamente para a
ditadura dos políticos. Instauraram uma espécie de
totalitarismo democrático. Para cada minuto de informação,
somos obrigados a engolir meia hora de programação
partidária, em que os políticos podem nos enganar
à vontade, sem desmentidos.
Eles
aparecem em comerciais de trinta segundos e em programas de vinte
minutos. Também aparecem no canal de televisão da
Câmara ou no do Senado. No rádio, podem contar com
a Hora do Brasil. O presidente da República, quando
quer, fala à nação em cadeia nacional. Como
se não bastasse, decidiu ter um programa no rádio,
toda segunda-feira. Prefeitos e governadores dispõem de televisões
públicas. Compram, igualmente, espaços publicitários
nas televisões comerciais. Os ministros usam as verbas de
propaganda das empresas estatais para reforçar a imagem do
governo e para barganhar a cumplicidade de veículos de comunicação,
muitos dos quais dependem dessas verbas para sobreviver. Difícil
encontrar um político que não seja dono de uma emissora
de televisão ou rádio. Os que não são
donos são amigos dos donos. Os jornalistas, que teoricamente
serviriam de contrapeso para o poder político, também
estão do lado de lá. De fato, o Estado emprega muito
mais jornalistas do que qualquer grupo particular. Nem na Romênia
de Ceausescu a ocupação dos meios de comunicação
pelos políticos foi tão grande.
Propaganda
política não é só o que a gente acompanha
na imprensa, no rádio, na televisão. Ela pode assumir
muitas outras formas. Uma viagem para participar de um comício.
Uma inauguração de uma obra. Um programa social. Uma
campanha de vacinação. Um trecho de um livro didático.
Um patrocínio de um evento cultural. Tudo é manipulado
pelos políticos. Tudo é pago por nós. Por um
preço alto demais. Entre o que se gasta em propaganda oficial,
mais o que se gasta em propaganda camuflada, mais o que se gasta
com empreguismo eleitoreiro, mais o que se gasta em corrupção
para financiar a propaganda, a política acaba custando mais
do que educação e saúde. Um exemplo: o Brasil
tem 5.000 e tantos municípios.
Boa parte não conta com receita própria. Funciona
apenas como curral eleitoral. Pagamos o salário e a aposentadoria
de prefeitos, vice-prefeitos e vereadores cuja única função
é arrebanhar votos para os caciques locais. Ou seja, pagamos
para que façam propaganda.
Diminuir
a presença dos políticos na vida nacional só
traria benefícios. Eu tenho algumas sugestões. Fechar
as televisões públicas. Vender Petrobras, Eletrobrás
e Banco do Brasil. Abolir toda a propaganda política, paga
ou gratuita, exceto no período eleitoral. Cortar pela metade
o número de municípios. Proibir os políticos
de possuir qualquer forma de concessão pública. Limitar
com rigor os gastos das campanhas.
Quanto
menos os políticos aparecerem, melhor.
|