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Entrevista:
Nigel
Chapman
Bom
e popular
O diretor do Serviço Mundial da BBC diz
que a
qualidade não é inimiga do sucesso,
e que a missão da emissora inglesa é
trabalhar contra o ódio e a ignorância

Isabela
Boscov
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Divulgação BBC

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"Essa
ambição de tornar o mundo mais civilizado é gigantesca.
Mas os meios de comunicação podem de fato demolir barreiras"
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Há
mais de um quarto de século na BBC, o inglês Nigel
Chapman é o que se chama de prata da casa: começou
como estagiário, editou programas jornalísticos, supervisionou
programação e, em 1999, se tornou o primeiro diretor
da BBC on-line, o braço de internet da megacorporação
britânica de comunicações. Fez um trabalho tão
bom que provocou uma onda de queixas entre a concorrência
privada, temerosa da agilidade da velha estatal. Não que,
no caso da BBC, ela surpreenda. A empresa britânica sempre
demonstrou ótimo tino tanto para os negócios quanto
para conquistar seu público. Ainda hoje, detém a parte
do leão da audiência no país: 40% na televisão
e 50% no rádio. Essa qualidade custa caro. No exercício
de 2001/2002, foram 2,35 bilhões de libras de orçamento.
A quantia serve também para financiar um setor que, depois
de um período de vacas magras, a BBC voltou a considerar
estratégico: o Serviço Mundial. Com transmissões
de rádio e websites em 43 idiomas, o serviço cobre
todo o planeta e, segundo Chapman, seu diretor desde 2000,
quer fazê-lo de forma cada vez mais intensa.
Veja
Em todo o mundo, os canais públicos são
associados com programas soporíferos. A BBC, no entanto,
é conhecida pela capacidade de inovar. Qual é a fórmula
para fazer uma TV estatal relevante e, ao mesmo tempo, divertida?
Chapman
Um jornalista dos anos 60 disse que a função
da BBC é tornar o bom popular, e o popular bom. Trocando
em miúdos, é possível atingir as pessoas sem
descuidar de ampliar os horizontes delas. Não acredito que
baixar o nível até o mínimo denominador comum
seja o único caminho para ser mais popular. Isso é
ainda mais importante no caso de uma corporação como
a BBC, que é financiada pela taxa anual paga por todo domicílio
com televisão no Reino Unido. É preciso que, no fim
do ano, todo cidadão que desembolsou aquelas 115 libras da
licença sinta que tirou proveito do seu dinheiro, seja na
televisão, no rádio ou na internet. Por isso também
temos vários canais de televisão e emissoras de rádio.
Com menos do que isso, não conseguiríamos atender
a tantos gostos e interesses diferentes como os que existem entre
os 60 milhões de britânicos.
Veja
Se baixar o nível não é necessariamente
a melhor tática para aumentar a audiência, por que
algumas televisões privadas insistem nela?
Chapman
Aqui vou tomar o partido dos canais comerciais: há
muita coisa de interessante neles. Muitos dos programas mais vistos
e comentados hoje são aqueles que recorrem a formatos incomuns
desenvolvidos por canais privados. Por exemplo, o Big Brother.
Não importa o que se pense sobre o que acontece dentro do
programa, não há dúvida de que o formato dele
é inovador e original, e que pode servir para muitos outros
conteúdos. No ambiente altamente competitivo de hoje, não
há lugar para emissoras públicas que se colocam sobre
um pedestal e, lá de cima, jogam pílulas de sabedoria
sobre os meros mortais. Esse tempo de deferência às
instituições já se foi. Atualmente, o público
tem muito mais escolha e não se sente obrigado a ser fiel
a ninguém.
Veja
Qual a posição da BBC em relação
aos reality shows?
Chapman
Já fizemos alguns. Não existem "nãos"
na BBC. Acontece, algumas vezes, de examinarmos uma idéia
e acharmos que ela cabe melhor em outros canais. Mas nada é
rejeitado por princípio. Nos anos 60, por exemplo, a BBC
lançou o grupo cômico Monty Python, o que foi uma aposta
arriscada. Se tivéssemos testado o programa antes com grupos
de discussão, ele nunca teria ido ao ar. Mas o Monty Python
se tornou um sucesso tremendo. Só um pouco do gosto do público
pode ser adivinhado. Na maior parte, ele é imprevisível.
Muitos dos programas mais impactantes já feitos não
teriam saído do papel sem um pouco de audácia por
parte de produtores e programadores.
Veja
O que um sistema estatal de difusão pode oferecer
à sociedade que o sistema privado é incapaz de proporcionar?
Chapman
Um canal comercial de rádio ou televisão
obviamente tem de manter um nível alto de audiência
para garantir os anúncios que o sustentam e tem de
conseguir essa audiência dentro de uma certa faixa de público,
de maior poder aquisitivo, ou seus anunciantes vão fugir.
Já a importância do serviço público está
explicada em seu próprio nome: ele existe para oferecer algo
para todos na sociedade, sejam ricos ou pobres. É claro que
esses dois modelos podem existir lado a lado, em harmonia. Aliás,
o ideal é mesmo que eles convivam, já que isso enriquece
o leque de opções para o público.
Veja
O Brasil tem uma população em sua maioria
pobre, que depende quase que exclusivamente da televisão
para entretenimento e informação. Como um país
nessas condições pode ter um sistema público
de difusão que seja uma alternativa atraente e ao mesmo tempo
cumpra o objetivo de elevar o padrão de qualidade do que
se vê?
Chapman
Essa é uma questão que envolve a legislação
do país, os interesses econômicos e mais um mundo de
coisas. Se eu tentasse formular uma receita, poderia parecer que
estou me metendo, e sem conhecer a história toda, em assuntos
que são de foro exclusivo dos brasileiros. Acredito apaixonadamente
nos benefícios da televisão pública, e a recomendo
com toda a convicção. Mas acho que ela deve fazer
parte de um coquetel de sistemas, em que as empresas privadas são
também fundamentais. Num ambiente como esse, o sistema público
pode ser um ponto de referência importante inovando
no formato e no conteúdo e estabelecendo um padrão
de qualidade, por exemplo. Mas só a população
de um país pode decidir se quer ou não aumentar assim
o seu cardápio. Isso não é algo que se deve
impor.
Veja
Durante a década de 90, o Serviço Mundial
da BBC atravessou um período de baixa. Chegou-se mesmo a
pensar em extinguir a transmissão para alguns países,
entre eles o Brasil. Qual a razão da atual retomada no interesse
por esse serviço?
Chapman
Primeiro, há a questão prática,
que é a da verba. Já não somos mais o primo
pobre da família BBC. Mais importante, contudo, é
que o apetite por notícias internacionais e pela análise
desses fatos vem aumentando a passos rápidos. Se o Serviço
Mundial da BBC não existisse antes dos atentados de 11 de
setembro de 2001, teríamos de inventá-lo a toque de
caixa. Em momentos assim, as pessoas querem uma fonte de informação
confiável e imparcial à qual possam recorrer. É
preciso deixar claro que o Serviço Mundial não quer
competir com as mídias locais. Nunca vamos cobrir o noticiário
de São Paulo, por exemplo. O que queremos é oferecer
um serviço gratuito, tanto em inglês quanto em português,
no qual os ouvintes encontrem uma visão mais ampla dos assuntos
mundiais. A intenção é atingir pessoas que
tenham influência na formação da opinião
pública e nos destinos do país. Quando se consegue
isso, já é razão suficiente para manter o serviço.
Eu diria ainda que o Serviço Mundial da BBC é particularmente
importante em países em que quase não há meios
de comunicação em funcionamento. É o caso do
Afeganistão, e em certa medida do Iraque.
Veja
Onde estão os ouvintes da BBC no Brasil?
Chapman
Durante muito tempo, nosso eleitorado foi a população
das zonas rurais, que ouvia o Serviço Mundial em ondas curtas.
Esse público ainda existe, mas cada vez mais a BBC chega
aos ouvintes brasileiros por intermédio de parcerias com
estações de FM. Temos uma, por exemplo, com a rede
CBN, que tem alcance nacional. Dois terços da nossa audiência
vêm dessas parcerias. Também estamos investindo muito
na internet. Nosso site em português do Brasil funciona 24
horas por dia, sete dias por semana, e já é o quinto
mais acessado em todo o Serviço Mundial.
Veja
Do ponto de vista estratégico, o que a BBC
e a Inglaterra ganham com o Serviço Mundial?
Chapman
Acreditamos que fazemos um produto de excelente qualidade,
e queremos que as pessoas o consumam. Se, ao fim e ao cabo, as pessoas
gostarem da BBC e do que ela representa, ficarem com o inglês
um pouquinho melhor por nossa causa e quiserem visitar ou fazer
negócios com a Inglaterra, vai ser um prazer. Mas o Serviço
Mundial não é, de forma alguma, um braço diplomático
do governo inglês. Somos embaixadores de um outro tipo. Nosso
interesse é aumentar o entendimento entre as nações,
compartilhar idéias, cruzar fronteiras, criar um fluxo de
informação que ajude sociedades diferentes a se compreender
melhor e, quem sabe, diminuir a ignorância e o ódio.
Se a BBC puder fazer algo para evitar que essas tensões piorem,
já terá valido a pena manter o Serviço Mundial.
Admito que essa ambição, a de tornar o mundo um lugar
mais civilizado, é gigantesca. Mas os meios de comunicação
podem de fato contribuir para demolir barreiras.
Veja
O governo do primeiro-ministro Tony Blair tem apoiado
os Estados Unidos durante a crise do Iraque, mas a opinião
pública britânica nem sempre esteve a seu favor. Qual
o papel da BBC, uma corporação estatal, mas de interesse
público, em situações como essa?
Chapman A BBC, como instituição, não
tem um ponto de vista a respeito do Iraque. O trabalho da BBC é
fazer bom jornalismo e refletir a diversidade de opiniões
sobre o assunto. Temos de ouvir representantes do mundo árabe,
dos Estados Unidos, da Europa, da África e de todos que sejam
tocados pela crise, e analisar essas visões da forma mais
equilibrada possível. A idéia é dar elementos
ao público para que ele decida que partido vai tomar, e não
tomar essa decisão no lugar dele.
Veja
Como o senhor avalia a cobertura da Guerra do Iraque
pela BBC?
Chapman Em retrospecto, eu diria que a BBC e o Serviço
Mundial fizeram um ótimo trabalho. Tomamos toda espécie
de cautela para refletir os vários pontos de vista envolvidos,
e em especial aqueles do mundo árabe. Mas, numa guerra, às
vezes é difícil enxergar por entre a neblina dos acontecimentos.
Posso citar o caso da suposta insurreição civil contra
Saddam Hussein nos arredores da cidade de Basra. No calor do momento,
parecia haver ali um levante, que o tempo e uma apuração
mais cuidadosa depois desmentiram. Nesses casos, é preciso
admitir o erro e ser franco com o público sobre o que não
se sabe o que, numa guerra, sempre é muito. A meu
ver, essa franqueza é o sinal de um sistema de difusão
maduro.
Veja Como está a credibilidade da BBC no
mundo árabe?
Chapman É uma pergunta que nos fazemos constantemente.
Para começar, o mundo árabe não é homogêneo.
Mas há sintomas de que, no geral, o ceticismo em relação
às mídias ocidentais aumentou desde a guerra. Talvez
isso se deva ao crescimento dramático da televisão
de idioma árabe, que proporciona aos cidadãos desses
países opções com que eles não contavam
até pouco tempo atrás, e com as quais naturalmente
se identificam mais. Ainda assim, por causa de sua longa história,
o Serviço Árabe da BBC tem algumas das melhores fontes
entre todos os veículos mundiais. Muitas figuras-chave do
mundo árabe fazem questão de participar de nossos
programas, porque elas os vêem como um instrumento capaz de
facilitar as relações com o Ocidente. Temos também
evidências de que somos vistos como mais confiáveis
do que nossos competidores, e por isso as personalidades do mundo
árabe nos procuram em momentos de crise. Somos, por assim
dizer, o fiel da balança.
Veja
Desde meados do ano, quando se descobriu que os Estados
Unidos e a Inglaterra tinham evidências antes do início
da guerra de que o Iraque não possuía armas de extermínio
em massa, uma crise se avolumou. Não só o governo
Blair reagiu com contrariedade como o especialista em armas biológicas
David Kelly, que era o informante da BBC, suicidou-se e muitos
atribuem esse ato à pressão implacável da mídia.
Além disso, há acusações de que os relatos
de Kelly foram "turbinados" para parecer mais dramáticos.
Como o senhor vê a atuação da BBC em meio a
essa polêmica?
Chapman Não podemos comentar em detalhe o caso
Kelly, porque o relatório do juiz que está à
frente do inquérito só deve chegar ao domínio
público depois do Natal. Mas eu diria que, a longo prazo,
a importância desse episódio é que ele demonstra
na prática como, e até que ponto, uma organização
pública pode, sim, se manter independente do governo e do
Estado. Quero crer que esses acontecimentos jogam uma luz favorável
sobre o modo de vida britânico, que permite que uma investigação
de extrema sensibilidade como essa se desenrole diante dos olhos
do público.
Veja
Do que o senhor mais se orgulha nos 81 anos de história
da BBC?
Chapman
Primeiro, do fato de que a BBC foi testemunha, em nome
do público, de todos os grandes eventos que ocorreram nesse
período, da coroação de Elizabeth II ao primeiro
pouso na Lua e à Guerra do Iraque. Depois, de termos sido
pioneiros em todos os tipos de programação, e de termos
atingido a excelência em todos eles. Nossos teledramas, por
exemplo, são fantásticos, e reconhecidos como tal
em todo o mundo. E também me orgulho de nossa agilidade.
A maior parte das empresas de comunicação tardou a
reconhecer a importância da internet e acabou perdendo o bonde.
Nós nos lançamos cedo nesse desafio, e acho que causamos
uma boa impressão.
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