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Em
foco: Sérgio Abranches
Com a ajuda dos amigos
"A
aprovação da reforma da Previdência não
é o que se poderia classificar de vitória
expressiva ou ampla. Ao contrário, foi uma
demonstração de
fragilidade da coalizão governista"
O governo
aprovou a reforma da Previdência em primeiro turno, com apoio
da oposição e sem grandes desfigurações
do projeto original. Bastou parar de errar. A reforma estava quase
garantida desde sua posse. Andou bem na Câmara e atolou nos
erros da liderança governista e do próprio governo
no Senado.
Ilustração Ale Setti
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Agora o nó foi desatado. Mas o resultado revela fraquezas
na coalizão e deficiências na articulação
política que suscitam dúvida razoável sobre
sua capacidade para lidar com uma eventual crise de governança.
A fragilidade da coalizão governista fez com que o pivô
da decisão fosse a oposição. O que é
o pivô em política? É o agente que detém
o poder de veto, pela posição que ocupa na distribuição
dos votos e cujo voto faz a diferença entre aprovar e rejeitar
a matéria. Uma coalizão fragmentada como essa dá
ao governo número mínimo de votos além do necessário
para aprovar emenda constitucional. Dissidência relativamente
pequena transfere o fiel da balança à oposição.
Foi
assim no primeiro turno da Câmara. A dissidência na
coalizão votos contra a orientação do
governo foi de 16%. No PT, foi de 12%. No PMDB, chegou a
30%, igual no governo FHC. No PCdoB, foi muito alta para os padrões
do partido, 36%. E no PDT ficou acima de 30%. Foi suficiente, juntamente
com as ausências deliberadas, para retirar do governo o poder
de decisão, dando à oposição o poder
de veto. Na Câmara, houve dois pivôs: o PP, que se declara
independente, mas é mais governo que oposição,
e o PSDB. Por quê? O PP se coloca, tecnicamente, entre governo
e oposição. Logo, seus votos são, teoricamente,
mais confiáveis. Devem ser contados primeiro. Ele deu 70%
de seus votos ao projeto governista, que somados aos da coalizão
ainda seriam insuficientes: 12 votos a menos que os 308 necessários.
Quem completa? O partido de oposição mais próximo
da orientação governista, logo o PSDB. Os tucanos
deram 51% de seus votos à reforma. Daria para passar, com
folga: 325 votos, 17 a mais que o necessário. O PFL, partido
de oposição mais distante, não ficou atrás;
porém, dando 48% de seus votos à causa da reforma,
tecnicamente, proporcionou a margem de segurança, terminando
em votação excedente, com 358 votos favoráveis.
A
história se repetiu no primeiro turno do Senado, onde o PMDB
é a primeira força, o PT apenas a terceira e o PFL
a segunda. A dissidência não foi muito grande, mas
superou a da Câmara, ficando em 19%. Foi de 100% no PDT, hoje
oposição, embora continue formalmente na coalizão
e mantenha nominalmente um ministério importante em sua cota.
No PT, foi de apenas 7%, menor que na Câmara. Apenas a brava
senadora Heloísa Helena se manteve fiel a suas convicções.
Os outros fingiram indignação, mas votaram sim, sem
obter concessão que justificasse esse voto. No PMDB, o voto
contrário foi de 14%, inferior ao da Câmara. Mas fez
mais barulho na casa alta. E no PTB foi de 33%.
Mas
esse grau de dissidência deixou o governo não mais
na mão do simpatizante PP, que não existe no Senado,
nem na do contíguo PSDB, mas na do PFL, que lhe deu o voto
decisivo. Ele ficou 7 votos aquém da maioria para reforma
constitucional, contados apenas os votos da coalizão. O PSDB
completou, mas se dividiu: 6 votos a favor, 5 contra. Não
deu. Os votos tucanos favoráveis levaram o total a 48 votos.
Ficou faltando 1. Esse voto teria de sair do PFL, de Roseana Sarney,
quase um PMDB, se não na legenda, na identidade de princípios
e valores. Como seu pai é quase PFL, se não na legenda,
nas afinidades eletivas. O PFL virou o pivô da decisão
e ainda deu 6 votos além dos necessários à
aprovação.
Não
é o que se poderia classificar de vitória expressiva
ou ampla. Ao contrário, é uma demonstração
de fragilidade da coalizão, de que a oposição
coopera no limite de segurança para evitar o fracasso de
reformas que considera críticas e de que o governo negocia
e articula mal.
A
política não é shakespeariana. Nem tudo está
bem se acaba bem. Mas na vida coletiva costuma ser assim. Principalmente
no mercado é assim. No caso, está tudo bem, porque
acabou bem. Agora, o governo terá de correr é com
a reforma tributária. Se a da Previdência diminui o
déficit a médio e longo prazo, a tributária
pode tirar receita a curto. Basta que o governo perca a corrida
contra o relógio e não consiga aprová-la neste
ano fiscal. Perderia a receita da DRU e da CPMF. Nós, contribuintes,
vamos perder, em qualquer hipótese, pois, ao contrário
do que disse há tempos o ministro Palocci, este governo não
difere do anterior porque corta despesas, ao invés de aumentar
receitas. Ele corta gastos, sim. Mas também aumenta tributos
com leonina voracidade.
Sérgio
Abranches é cientista político (sergioabranches@sda.com.br)
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