Edição 1831 . 3 de dezembro de 2003

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Carta ao leitor
Continua parado


A capa de VEJA de 16 de julho: o Brasil estava parado e, pelos números da semana passada, ainda está

É sempre bom acertar. Em jornalismo é um imperativo. Mas nem sempre um acerto traz satisfação. É o caso de VEJA na semana passada. Com a divulgação dos dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), confirmaram-se as sombrias previsões feitas por uma reportagem da revista publicada em julho com a chamada de capa "O Brasil apagou – a economia do país está parada e não haverá o 'espetáculo do crescimento' tão cedo". Naquele mês, circulavam previsões de crescimento do PIB brasileiro de até 3% para este ano, esperando-se a retomada para qualquer instante do segundo semestre. O IBGE mostrou que, nos últimos nove meses, a economia recuou 0,3% em relação ao mesmo período de 2002. Feitos todos os ajustes finos, tem-se que neste ano o PIB nacional deverá ter uma expansão igual a zero. Ou abaixo de zero, conforme as leituras mais pessimistas. A economia está estagnada, mas isso não é tudo. O desemprego está em alta e a renda em baixa. De outubro de 2002 a outubro de 2003, a queda no rendimento médio dos brasileiros foi de 15,2% – uma perda real de mais de meio salário mínimo nos últimos doze meses. O desemprego crava um recorde histórico.

Embora isso não minimize o sofrimento, pelo menos se pode explicar o estancamento da atividade econômica do Brasil em 2003. O governo de Luiz Inácio Lula da Silva começou em janeiro com uma inflação anual projetada de 28% para o ano, provocada em grande parte pelo temor que uma administração petista inspirava no mercado. Se não tivesse elevado os juros a alturas estratosféricas, como fez, o governo poderia ter confirmado as previsões pessimistas. A estagnação foi o preço pago pelo controle da inflação. Agora, é diferente. Com os índices inflacionários sob controle, juros em baixa, o dólar flutuando entre margens seguras e os títulos da dívida externa brasileira batendo recordes de valorização, fica claro que o freio de segurança funcionou. O terreno para o crescimento econômico está aplainado, mas ainda não há razão para otimismo em relação à retomada. Num encontro com petistas de alto coturno, o ministro da Fazenda, Antonio Palocci, disse recentemente que o aperto nas contas públicas continuará em 2004. Com isso, o ministro avisou a seus colegas de governo que eles precisarão fazer mais com menos dinheiro. É bom que façam mesmo e que também cuidem de evitar que o governo se transforme em empecilho ao crescimento. Se isso vier a ocorrer, com um ano a mais de economia estagnada não haverá nem explicação nem justificativa que satisfaçam a opinião pública.

 
 
 
 
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