Edição 1 622 - 3/11/1999
 

Uivos milionários

Frank Aguiar, o Cãozinho dos Teclados,
lidera o movimento do forró eletrônico

Sérgio Martins

 
Antonio Milena
Aguiar: 1 milhão
de CDs vendidos
e cachês de 6.000
a 12.000 reais


Foi-se o tempo em que o conjunto de forró era aquele trio simpático que tocava sanfona, zabumba e triângulo, sempre usando chapéus de couro ao estilo cangaceiro. O gênero musical consagrado por Luiz Gonzaga aderiu à era eletrônica. Os forrozeiros que hoje fazem sucesso rejuvenesceram o ritmo, trocando os instrumentos tradicionais por teclados de última geração. De quebra, os chapéus foram substituídos por adereços mais de acordo com os novos tempos da MPB: dançarinas seminuas, é claro. O principal astro desse novo estilo é o piauiense radicado em São Paulo Frank Aguiar, também conhecido pelo apelido de Cãozinho dos Teclados. O homem é um fenômeno. Já vendeu 1 milhão de cópias de seus quatro discos, Um Show de Forró, volumes I a IV. O último deles, lançado há duas semanas, já bateu a faixa das 350.000 cópias. "Serei o maior vendedor de discos do Brasil", desafia Aguiar.

Para horror dos puristas, o forró moderno incorpora outros gêneros. Vale bossa nova, samba, música romântica e até fandangos gaúchos, tudo adaptado para o ritmo puladinho que anima a moçada no salão. O que não mudou foram as letras, sempre apelando para o duplo sentido. De preferência, elas louvam sem nenhuma sutileza os atributos femininos. As de Frank Aguiar falam tanto de ninfetas quanto de mulheres com mais de 30 anos ("Não importa se é usada/Lavou, enxugou, tá nova", diz uma delas). Os vocais de Aguiar são entremeados de uma espécie de uivo de celebração, maneirismo que lhe valeu o apelido de natureza canina. "Esse é o teclado que embala as churrascarias do interior adaptado para as casas de forró das grandes cidades", define Ferreira Filho, diretor musical da SomZoom, gravadora que revelou Frank Aguiar. "Não tenho nada contra esse som, mas honestamente ele está mais para lambada do que para forró", comenta o sanfoneiro Dominguinhos.

Nas casas de forró de São Paulo e adjacências, Frank Aguiar é de longe a atração de maior sucesso. O cantor faz uma média de trinta shows por mês. O cachê varia de acordo com o dia da apresentação. Nos dias de semana, ele cobra 6..000 reais por uma hora e meia de música. Aos sábados, quando o faturamento dessas casas dobra, Aguiar não liga o teclado por menos de 12.000 reais. Costuma fazer até três apresentações por noite. "A gente contrata o Frank e não reclama do preço porque sabe que ele lota a casa", diz José de Barros Lima, o Zé Lagoa, proprietário da Patativa, um dos mais concorridos salões de baile de São Paulo. Quando as casas de forró não têm caixa para contratar o Cãozinho dos Teclados, elas apelam para os seguidores do cantor. São artistas que praticam o mesmo estilo de forró, cobrando um preço bem mais em conta. Entre os mais populares estão o Anginho dos Teclados, o Louro dos Teclados e Wesley dos Teclados. O cachê desses forrozeiros sai por volta de 2.000 reais.

Nascido em Itainópolis, a 360 quilômetros de Teresina, Francineto Luiz de Aguiar ("Mudei para Frank por ser um nome mais curto", justifica), o novo astro da MPB canta profissionalmente desde os 13 anos. Apresentava-se em praça pública e bailões. Hoje, leva uma vida confortável. Recentemente, comprou a casa mais luxuosa de sua cidade natal. "Quero transformá-la em uma espécie de museu de minha carreira", sonha. O sucesso já garantiu a Aguiar algumas regalias nas negociações com as gravadoras. Por exigência dele, o novo disco não pode ser vendido por mais de 15 reais. "É uma forma de dar condições para o povo consumir minha música", explica. Agora, o cantor planeja ampliar seus negócios por meio de licenciamento de produtos. Os primeiros serão uma calça jeans e uma cachaça com a marca Cãozinho dos Teclados. Depois será a vez de um cachorro de pelúcia que uiva. Chapéu de cangaceiro? Nem pensar. É coisa do tempo de Lampião, e não do forró do ano 2000.

 
 

 




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