Edição 1 622 - 3/11/1999
 

Em busca do bebê perfeito

Butiques de sêmen, sexo selecionado e escolha
de embriões: o Brasil entra na era dos superbebês

Daniel Hessel Teich e Thaís Oyama

Claudio Rossi
Banco de sêmen do Hospital Einstein: amostras a 150 dólares abastecem 35 clínicas do país


Cena real de uma clínica de reprodução artificial no Brasil: um casal recebe um cardápio de doadores do banco de sêmen e nele encontra ofertas variadas. Um professor de origem libanesa que adora surfar ou um escrivão de ascendência espanhola cujo hobby é estudar filosofia. A lista informa que o professor é católico e o escrivão, muçulmano. Descreve seus tipos sanguíneos e relaciona peso, altura e cor dos olhos. O casal estuda as opções, faz sua escolha e, pelo equivalente a 150 dólares, adquire a amostra que dará origem a seu futuro bebê.

Ousadias reprodutivas já foram cena de filme e forneceram material para romances de ficção científica. Agora estão sendo uma a uma superadas pela realidade. No admirável mundo novo das clínicas com seus bancos de sêmen e catálogo de doadoras de óvulos, fazem-se as mais incríveis combinações. Tia que gera a sobrinha porque a cunhada morreu. Embriões congelados, órfãos de pais milionários vítimas de acidente cuja fortuna ninguém sabe para onde vai. Mulheres que brigam com seus maridos por discordar da cor dos olhos ou da textura dos cabelos do doador do sêmen que vai permitir o nascimento do primeiro filho do casal. Ou o pai de origem árabe que manda jogar no lixo três embriões sadios prontos para ser implantados na mulher infértil – apenas porque eram do sexo feminino. Perto disso tudo, a jogada de marketing do fotógrafo americano Ron Harris, que abriu na semana passada um leilão on-line de óvulos de três belas modelos, empalidece. Harris, um sujeito de passado duvidoso, suspeito de patrocinar sites de pornografia na Califórnia, pede um mínimo de 15.000 dólares por óvulo de suas beldades (a se verificar no endereço www.ronsangels.com). Existem centenas de mulheres oferecendo-se para doar óvulos na internet. Harris é o primeiro a admitir abertamente ser apenas um intermediário e que os óvulos trocarão de útero mediante pagamento em dólares. Cobrar para ser mãe de aluguel ou doar óvulos são práticas comuns no mundo da reprodução artificial, embora dificilmente se encontre quem abra o jogo sobre elas. Talvez por isso o despudorado Harris tenha atraído tanta publicidade.

Miguel Cabral
"Como não tem sexo envolvido na inseminação artificial, a gravidez ganha uma conotação de pureza. É como se eu fosse a Virgem Maria."
V.M., pensionista, 38 anos

Milhares de bebês de proveta nascem no mundo todos os anos. O Brasil é um dos países mais ativos nessa área. Os pais, médicos e doadores envolvidos no processo, é natural, discutem as condições de segurança das intervenções. O que pouco se comenta é que se conversa também animadamente sobre as características físicas e até psicológicas que se desejam ver no bebê. Olhos azuis? Cabelos loiros e lisos? Tendência ao esporte? Pendor para a matemática? Tudo isso é possível arranjar com alguma dose de certeza. Desde Adão e Eva que os pais indiretamente determinam as características que julgam mais desejáveis para os filhos, no ancestral processo de escolha dos parceiros. O que a medicina oferece agora é a oportunidade de essa escolha ser feita de modo direto, como num supermercado.

Em São Paulo mesmo, no bairro do Morumbi, o banco de sêmen do Hospital Albert Einstein recebe com freqüência gente que escolhe dessa maneira. As ofertas são inúmeras e variadas. Tome-se por exemplo o doador número 57 do banco de sêmen do hospital. Ele é definido como caucasiano, declarou ser espírita, a cor da pele é branca e os cabelos são pretos e lisos.Tem olhos verdes, 1,68 metro de altura e 57 quilos. Faz mestrado em engenharia eletrônica e seus hobbies são ciclismo, trekking e natação. Já o doador número 88 tem cabelos loiros, olhos castanhos e é músico. Logo abaixo dele na lista vem um doador de 1,78 metro, auxiliar de escritório cujo passatempo é passar horas diante de um computador. As mulheres que procuram os bancos de sêmen sabem que tais características possuem, em média, 50% de chance de aparecer em seus futuros bebês. Sim, porque os outros 50% dependem do óvulo. Por enquanto, não existe técnica segura de congelar um óvulo humano para armazenamento e uso futuro. Exatamente por isso, a escolha das características da outra metade do material genético não é tão abundante. Não existem bancos de óvulo. As doadoras têm de ser conseguidas pelas clínicas caso a caso.

Ficha de doadores de sêmen: escolha pela altura, cor da pele e profissão

Em clínicas americanas os clientes podem até mesmo visualizar o resultado futuro de suas escolhas. Como seriam seus filhos caso optassem por este ou aquele doador de sêmen ou de óvulo – ou ambos. A ciência já arma botes ainda mais ousados, como a possibilidade de concepção totalmente sem a participação da mãe na gestação da criança. Existem inúmeras experiências em andamento de criação de úteros artificiais. A mais avançada até agora é feita no Japão (veja quadro). Quando for possível gestar um bebê do embrião ao nascimento fora do útero, a medicina terá dado um salto no escuro. É o ambiente uterino que impede que as mutações de DNA, sejam elas aleatórias ou fabricadas artificialmente, produzam seres monstruosos. A embriologia, como um engenheiro rigoroso, costuma matar as aberrações arquitetadas pela genética. É a grande força mediadora da evolução dos animais superiores. Um útero artificial, para a perplexidade geral, permitiria o nascimento de qualquer criatura mesmo a mais antinatural.

"Com a tecnologia que estamos desenvolvendo, podemos fazer coisas que seriam inimagináveis até bem pouco tempo atrás", diz a geneticista Mayana Zatz, do Centro de Estudos do Gênoma Humano da Universidade de São Paulo. "A questão é ter discernimento para nos concentrar no que é de fato importante, e deixar de lado o mero capricho dos pais." Capricho, talvez, mas quem, tendo a possibilidade de escolha, vai fechar os olhos e apontar qualquer um, seja embrião, seja doador de sêmen? Com mais de 100 doadores cadastrados, o banco do Einstein atende mensalmente dez casais interessados em recorrer à inseminação artificial e ainda fornece esperma sob medida para os 35 maiores centros de reprodução assistida do país. São clínicas modernas, com confortáveis poltronas de couro, recepcionistas impecáveis e uma tabela de preços em que a consulta (só a consulta) pode chegar a 400 reais. Por trás de suas fachadas luxuosas, descortina-se o admirável – e para muitos assustador – mundo novo: aquele em que as famílias escolhem a aparência de seus filhos, onde médicos fazem diariamente sua "escolha de Sofia" decidindo quais os embriões que irão sobreviver e quais serão descartados.

Isso ocorre no mundo inteiro: Estados Unidos, Europa e aqui mesmo, em São Paulo, Rio, Belo Horizonte, Curitiba. Se até pouco tempo atrás se limitava ao atendimento de casais com problemas de fertilidade, hoje a medicina já presta serviços a um público bem mais diversificado. A carioca V.M., 38 anos, é solteira, e daqui a seis meses terá seu segundo filho gerado com o sêmen de um desconhecido. V., que não trabalha, mas possui boa renda própria, teve um filho à antiga, com o namorado, em 1994. O bebê morreu logo depois. Sozinha, porém decidida a ser mãe novamente, um ano depois procurou um banco de esperma, submeteu-se a uma inseminação artificial e deu à luz M.A., hoje com 3 anos. No início deste ano, achou que o garoto precisava de um irmão e nem lhe passou pela cabeça apelar para os métodos tradicionais. "Não queria engravidar de qualquer um. Preferi recorrer de novo a um banco de sêmen, porque lá sei que vou estar livre de riscos", explica. Como da primeira vez, escolheu a dedo o doador, tomando o cuidado de checar seu grau de instrução. "Pode ser preconceito, mas não queria um pai sem curso superior", diz. Optou por um veterinário de origem européia que gosta de idiomas e esportes. A gravidez corre tranqüila e a única preocupação de V. é com a hora em que terá de decidir se conta ou não às crianças a sua origem. Por enquanto, cala-se."

Nélio Rodrigues
"Direi ao meu filho que eu e a minha companheira somos seu pai e mãe ao mesmo tempo."
Adriana Gomes Ferreira, 26 anos, cabeleireira

"Não temos o direito de decidir quem vai poder ou não ter filhos. Médicos são técnicos, não deuses", argumenta o doutor Edson Borges. Sua clínica, a Fertility, Centro de Fertilização Assistida, em São Paulo, já inseminou artificialmente mais de vinte mulheres solteiras nos últimos dois anos. Não é a regra. A cabeleireira mineira Adriana Gomes Ferreira, 26 anos, lançou mão de manobras complicadas para conseguir uma inseminação artificial. Homossexual, ela vive há dois anos com a programadora de computadores Iolanda Cristina de Souza Moreira, de 25. Quando decidiu ter um bebê por fecundação artificial, esbarrou na resistência de médicos que consideraram sua condição incompatível com a maternidade. Para driblar a dificuldade, a cabeleireira pediu a ajuda de um amigo (também homossexual), que doou o sêmen para a inseminação e se fez passar por seu companheiro durante o tratamento. Em maio deste ano, Adriana deu à luz um menino – que para a companheira Iolanda é seu filho também.

A maior parte das pessoas que recorrem à reprodução assistida, relatam especialistas, faz questão de manter segredo em torno do processo. Mas elas sempre têm idéia clara do tipo físico que desejam ver se desenvolver no novo filho. "Quase sempre pedem doadores com características físicas semelhantes às suas", afirma o embriologista José Roberto Alegrette, da Clínica Huntington, de São Paulo. Em se tratando de casais, a principal exigência é que a criança venha a se parecer com o pai – o que talvez explique o fracasso da primeira tentativa de se oferecer uma linha de montagem de bebês quase perfeitos, surgida, como não podia deixar de ser, nos Estados Unidos. Em 1980, o oftalmologista americano Robert Graham montou um banco de espermatozóides na Califórnia onde pretendia reunir, em cápsulas congeladas, células reprodutivas da nata da raça humana. Graham convenceu cientistas laureados com o Prêmio Nobel a doar sêmen para o projeto. A iniciativa de Graham foi atacada e ridicularizada e logo depois de sua morte, em 1997, o banco genético da cidade de Escondido fechou.

No banco de sêmen do Hospital Einstein, o doador mais solicitado é o homem de pele branca e olhos castanhos – tipo semelhante à maior parte da população brasileira que pode pagar por um tratamento desses. Os doadores são, em geral, universitários e profissionais liberais, todos voluntários e anônimos. Como a doação de esperma é um procedimento simples e indolor, onde bastam uma sala fechada e uma boa pilha de Playboy, campanhas em universidades e bancos de sangue são suficientes para manter abastecidos os estoques dos centros de reprodução. A situação é diferente quando se trata de óvulos – algumas clínicas chegam a ter até 100 pacientes à espera de uma doadora. Isso ocorre porque a transferência do gameta feminino implica um procedimento invasivo e doloroso para a voluntária. Para estimular a produção dos ovários, ela tem de ingerir uma bateria de hormônios que provocam sintomas desagradáveis, semelhantes aos da menopausa, como calor, inchaço e letargia. O tratamento não dura menos de um mês e a retirada dos óvulos requer anestesia geral.

Alexandre Tokitaka
"Fiz um aborto e hoje me arrependo. Tantas mulheres sonham em ter filhos e eu desprezei o meu. Depois disso, decidi doar meus óvulos."
Kátia, operadora de marketing, 25 anos


A operadora de marketing Kátia, de 25 anos, sabia de tudo isso quando decidiu tornar-se doadora. Há quase um mês ela se prepara para produzir cerca de quinze óvulos, que, em breve, serão retirados de seu corpo por meio de um cateter. Fertilizados, eles crescerão na barriga de mulheres que Kátia nunca conhecerá. Ela não recebe um tostão pela iniciativa e ainda paga do próprio bolso as três conduções que toma para ir de sua casa, na periferia de São Paulo, a região chique dos Jardins, onde fica a clínica que a prepara para a doação. Sem emprego fixo, muitas vezes toma emprestado o dinheiro do ônibus. Kátia decidiu doar seus óvulos depois de fazer um aborto no ano passado. Mãe de duas filhas, engravidou pela terceira vez numa época em que tanto ela quanto o marido estavam sem emprego. "Achamos que não tínhamos condições de criar mais uma criança. Até hoje me arrependo. Não podia ter feito o que fiz, enquanto tanta gente sofre porque não pode ser mãe", diz.

Como são pouquíssimas as doadoras como Kátia, as mulheres que precisam de óvulos penam para conseguir um. A doação entre parentes é proibida pelo Conselho de Medicina – a voluntária tem de ser anônima. Quem tem muito dinheiro ainda pode "importar" uma doadora dos Estados Unidos, país em que a venda de gametas é legal, e financiar sua vinda, pois óvulos, ao contrário de espermatozóides e embriões, não podem ser congelados. Além de caro, o procedimento não conta com a aprovação do Conselho Federal de Medicina, e poucos médicos aceitam fazê-lo. A solução mais usada pelas clínicas de fertilização é estimular acordos entre suas pacientes: as que têm maridos em tratamento, mas possuem óvulos saudáveis, doam gametas para casais em que a mulher é infértil. Em troca, têm o tratamento do cônjuge custeado pelo casal receptor. Para muitos é compensador, já que cada procedimento de inseminação ou fertilização in vitro custa de 2.000 a 11.000 reais – e as chances de uma tentativa resultar em gravidez completa não chegam a 35%. Há casais que chegam a fazer até sete tentativas sem êxito.

Quando dá certo, é o êxtase. Quando não dá, a sensação de fracasso é devastadora. Pior, porém, é quando a fertilização do óvulo se concretiza e o embrião não é implantado – a não muito rara situação em que, no maravilhoso mundo da engenharia genética, tecnologia e terror se misturam. Há cerca de um ano, o médico Edson Borges viveu uma de suas mais chocantes experiências profissionais. Ao comunicar a um casal de pacientes o sucesso de sua segunda tentativa de fertilização in vitro, esperava uma explosão de alegria diante dos três embriões saudáveis, do sexo feminino, prontos para ser transferidos para o útero da mulher. Mas, ao ouvir a notícia, o marido da paciente disse apenas: "Pode jogá-los fora". Ele queria, sim, um bebê, desde que fosse menino. Borges ainda tentou convencê-lo a, ao menos, congelar os embriões, mas, enquanto falava, ele já se retirava da clínica. Sua mulher o seguia aos prantos.

Claudio Rossi
"Conseguimos quatro embriões e dois eram do sexo feminino. Os outros dois eram meninos e os exames mostraram que teriam síndrome de Down. Tive de optar. Eles foram descartados."
Cilene Lopes, 37 anos, funcionária pública


Ao se casar, a funcionária pública paulista Cilene Lopes, 37 anos, sabia havia anos que tinha um problema de saúde que a tornava mais propensa a gerar filhos homens com síndrome de Down. "A médica me aconselhou a nunca engravidar", diz. No começo, atendeu – ela e o marido adotaram um menino, Gustavo. Há dois anos, souberam da possibilidade de, por meio da inseminação artificial, saber com antecedência o sexo da criança e a presença ou não da síndrome, e puseram-se em ação. Na terceira tentativa, quatro óvulos foram fertilizados. "Dois seriam meninos e teriam a síndrome. Foram descartados. Não tive conflito nenhum", relata Cilene, que justifica: "Não queria transmitir ao meu filho um problema que ele carregaria a vida inteira". Sua filhinha, Beatriz, nasceu há um mês e não tem a síndrome. "Esse tipo de opção é uma situação delicada", avalia o húngaro Zsolt Peter Nagy, especialista em reprodução artificial, que desenvolve pesquisas na clínica Abdelmassih, de São Paulo. "A determinação do sexo só deveria existir a partir de uma justificativa clínica bem específica. Mas muitas vezes os médicos cedem ao apelo dos pais por este ou aquele sexo."

O maior desafio para os próximos anos, pelo menos sob o ponto de vista médico, é encontrar as origens genéticas das chamadas doenças provocadas por fatores múltiplos, que envolvem grande número de genes relacionados entre si. É o caso do diabetes, do mal de Alzheimer, dos distúrbios cardiovasculares e de alguns tipos de câncer. Nem esse mapeamento, porém, vai garantir o filhinho perfeito. "O problema é que os fatores ambientais têm um peso imenso na evolução de inúmeras doenças e mesmo na expressão dos genes", explica o geneticista Sérgio Danilo Pena, da Universidade Federal de Minas Gerais, UFMG. "A produção de um ser humano livre de doenças, bonito e perfeito não passa de ficção." Já a escolha da cor dos olhos, do tipo de cabelo, da altura e do porte físico está ao alcance dos casais brasileiros.


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Com reportagem de Leandro Loyola,
Leonardo Coutinho e Roberta Paixão

 




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