Edição 1 622 - 3/11/1999
 

O maior de todos

Prefeitura de São Paulo prepara lei para
a construção do prédio mais alto do mundo

André Viana

O bilionário americano Donald Trump ligou, há duas semanas, para o empresário Mário Garnero, presidente do grupo Brasilinvest, à procura do número de telefone do guru indiano Maharishi Mahesh Yogi. O motivo nada tinha de transcendental. Ao contrário. Trump queria saber da possibilidade de Maharishi patrocinar nos Estados Unidos um edifício igualzinho ao São Paulo Tower, o megaprédio projetado para ser construído numa área deteriorada do centro da capital paulista. Desenhado para ser o mais alto do mundo, é uma obra que realmente chama a atenção e desperta a cobiça. Se vai sair do papel aqui no Brasil é outra história. Na semana passada, o plano deu um primeiro passo para se transformar em tijolos e cimento. O prefeito Celso Pitta anunciou que estava enviando à Câmara Municipal um projeto de lei que regulamenta a construção do São Paulo Tower no bairro do Pari. Tal projeto prevê, entre outras coisas, a desapropriação de terrenos, a liberação de avenidas, além de um completo remanejamento nas linhas de ônibus, metrô e trem da região onde o prédio deverá ser erguido. O texto acabou não chegando à mão dos vereadores, pois a prefeitura decidiu alterar alguns itens. A movimentação, contudo, foi o suficiente para que a Brasilinvest comprasse páginas e páginas nos principais jornais para alardear o lançamento do empreendimento e convidar os investidores brasileiros a aplicar no arranha-céu.

Garnero garante que se não for possível conseguir um único investidor disposto a dividir o empreendimento, o prédio sai de qualquer jeito, pois Maharishi paga a conta toda. O contrato assinado entre o brasileiro e o guru indiano em agosto assegura que o Maharishi Global Development Fund, o MGDF – um fundo internacional de investimentos que fatura cerca de 3 bilhões de dólares por ano –, vai entrar com 1,65 bilhão de dólares. É dinheiro bastante para erguer o prédio. Se o otimismo dos empreendedores se espalhar, a inauguração do São Paulo Tower está prevista para 2005. Tudo no projeto do prédio tem proporções gigantescas. Os 108 andares que antes estavam distribuídos por 494 metros de altura foram remodelados para 510 metros. A mudança foi feita para que não houvesse dúvidas de que o São Paulo Tower será o maior edifício do mundo, batendo em 2 metros o International Financial Center de Taipé, em Taiwan, com inauguração prevista para 2002.

Não é só isso. Em volta do prédio planeja-se a construção de um gigantesco parque público cercado em cuja área caberiam sete estádios do Maracanã (veja quadro). "Não existe no mundo projeto arquitetônico em proporções iguais às do complexo do São Paulo Tower", elogia Cândido Malta, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, a FAU. Malta é um dos quatro arquitetos contratados pela Brasilinvest para "abrasileirar" alguns detalhes do edifício de Maharishi. Isso porque o projeto original foi concebido nos Estados Unidos, no escritório de arquitetura Minori Yamasaki – o mesmo do World Trade Center, em Nova York, que tem 415 metros de altura.

As alterações na fisionomia do edifício, contudo, deverão ser mínimas. Seu aspecto de torre hindu é exigência de Maharishi e não poderá ser modificado. Trata-se de uma concepção baseada na arquitetura védica, um estilo de construção que remonta a mais de 6.000 anos e incorpora uma filosofia espiritual totalmente estranha ao Brasil. Plantado no centro de São Paulo pode ter a estranheza de uma bananeira no asfalto da Avenida Paulista. A edificação é composta da junção de quatro torres, o que cria um gigantesco vão no interior do conjunto. Esse vazio é dividido em vários níveis por jardins suspensos. Segundo Malta, esse tipo de arquitetura cheio de vazios foi concebido para "harmonizar o homem e o cosmos". No caso do São Paulo Tower, o efeito final será um prédio de 510 metros de altura dividido em seis blocos com cerca de quinze andares, por onde circulariam diariamente 80.000 pessoas.

As dimensões do prédio só são comparáveis à polêmica que desperta entre os especialistas. "Esse projeto é exagerado", diz a urbanista Raquel Rolnik. "Pelo seu gigantesco porte, vai mexer profundamente com a vida de milhares de pessoas que moram ou trabalham naquela região." A arquiteta Regina Meyer, professora da FAU, teme que o complexo se isole do resto da cidade. Ela acredita que o parque em volta do prédio nada mais será do que "um grande fosso em volta do castelo". Ainda há um longo caminho burocrático pela frente. Se o projeto de lei passar pela Câmara Municipal, será aberta uma concorrência internacional para propostas de remodelação do centro de São Paulo. Isso porque não se pode modificar uma lei para uma única empresa particular. Pelo menos em teoria, pode surgir uma proposta que vença a de Maharishi e Garnero. Talvez o estilo védico não seja inevitável.

 

 

 

 




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