Edição 1 622 - 3/11/1999
 

O gênio português

Novos estudos mostram como avanços na
tecnologia permitiram os descobrimentos

Pablo Nogueira

Durante décadas, o estudo dos descobrimentos portugueses foi seara exclusiva de historiadores. Às vésperas da comemoração dos 500 anos da vinda de Pedro Álvares Cabral ao país, chegou a vez de os cientistas se ocuparem do assunto. Físicos e especialistas em tecnologia estão esmiuçando todo o conhecimento naval e geográfico reunido pelos viajantes portugueses para recontar a História com base em outro ponto de vista. Querem mostrar que Portugal foi o primeiro Estado moderno a se valer da ciência da época para executar um projeto de expansão política e econômica. Algo como se aquele pequeno país, ainda com um pé na Idade Média, desenvolvesse uma versão renascentista do programa Apollo, que levou o homem à Lua, ou do projeto Manhattan, a equipe internacional de cientistas reunida pelos Estados Unidos para construir a bomba atômica. "Normalmente a história da ciência só começa a ser contada a partir de Galileu, e ignoram-se completamente as contribuições que vieram da Península Ibérica", diz a física Marília Junqueira, da Universidade de São Paulo, USP, coordenadora de uma pesquisa sobre o assunto. "Estudar as criações portuguesas é uma maneira de reivindicar uma herança da própria ciência brasileira", explica.

No início do século XV, o conhecimento científico era estanque e passava longe das aplicações práticas. O que se sabia de astronomia, por exemplo, não era usado para orientação dos viajantes. Os astrônomos lusitanos se debruçaram sobre os problemas do cotidiano em alto-mar e foram os primeiros no uso da matemática e na aplicação da trigonometria para calcular rotas. Melhoraram os mapas desproporcionais e aperfeiçoaram os instrumentos de navegação. A maioria das invenções portuguesas foram, na verdade, engenhosas adaptações de instrumentos já conhecidos. É o caso do astrolábio, usado pelos astrólogos árabes para prever o futuro. Os portugueses o transformaram num instrumento portátil capaz de mostrar a posição do barco em relação ao sol. Eles construíram também as embarcações mais avançadas da época, preparadas para empreender longas viagens em alto-mar. "Do ponto de vista tecnológico, o Renascimento começa em Portugal", diz o pernambucano Celso Melo, professor de física da Universidade Federal de Pernambuco e especialista em ciência das navegações.

A unidade de velocidade marítima usada ainda hoje, o nó, foi inventada pelos portugueses, com base em um método engenhoso. Os nós originais eram dados numa corda, a distâncias equivalentes ao comprimento do casco de um navio. Em alto-mar, amarrava-se a corda a um barquinho, que era lançado ao mar. Um marinheiro ficava na amurada, com uma ampulheta na mão. Como não tinha velas, o barquinho ficava parado enquanto o navio se afastava e a corda ia se desenrolando. Pelo número de nós era possível saber a distância percorrida com relação à miniatura. A ampulheta informava o tempo gasto no percurso. A princípio, a medida, hoje cravada em 1,8 quilômetro por hora, era um tanto arbitrária. Mas funcionava muito bem. Os navegantes portugueses também deram jeito de aferir as precárias bússolas do século XV. Isso porque o mecanismo era atraído pela movimentação de cargas de metais nos portos ou mesmo pelo simples deslocamento dos canhões dentro do navio. Depois que o instrumento se tornou mais confiável, foi possível usar tabelas e fazer cálculos matemáticos para orientar a rota. Sem esses avanços, os portugueses jamais teriam podido manter o comércio com a Índia, a China e o Brasil.

A construção naval foi um capítulo à parte, já que os portugueses criaram as primeiras embarcações capazes de enfrentar travessias oceânicas. A maior façanha foi recolher as várias tecnologias existentes no Mediterrâneo e aplicá-las em barcos inovadores. É o caso do uso combinado de velas redondas (que só permitiam viagens com vento de popa) e latinas (para andar com vento lateral) para navegar qual fosse a direção do vento. Também dobraram o tamanho das velas e aboliram os remos, comuns na navegação da época. Os cascos eram reforçados e montados segundo indicações precisas. A construção de um barco utilizava madeira de até oito tipos de árvore, uma para cada parte da estrutura. Havia instruções ainda sobre a melhor hora do dia para efetuar o corte nas árvores. Em alguns casos, os troncos eram enterrados na areia durante um ano até adquirir uma textura ressecada, capaz de resistir à umidade e à corrosão pelo sal marinho.

Os portugueses fabricaram ainda embarcações com funções específicas. As explorações eram realizadas nas caravelas, pequenas, ágeis e mais fáceis de manobrar. Na iminência do lucrativo comércio com as Índias, criou-se a nau, um barco imenso, com capacidade para mais de 500 toneladas, dez vezes maior que uma caravela. Com compartimentos para canhões e pouco casco acima da linha-d'água, os galeões foram os primeiros navios construídos para guerra em alto-mar. O formato de seu casco os fazia parecidos com os antigos navios a remo, as galés, só que em tamanho maior. Daí o nome galeão. O florescimento da ciência marítima em Portugal durou um século e meio. Entre os reinados de dom João I e dom João III, Lisboa se tornou um efervescente centro de sábios, aventureiros e mercadores. Era uma das cidades mais cosmopolitas da Europa, a capital que jogou no ocaso as grandes potências navais italianas de Gênova e Veneza. O ciclo acabou com a morte do rei dom Sebastião na Batalha de Alcácer Quibir, no Marrocos, e a conseqüente anexação de Portugal pela Espanha em 1580. Foi um período de ouro que agora até começa a ser chamado de primeira globalização pelos historiadores. "É uma das chaves para entendermos o que acontece no mundo de hoje", diz o historiador José Jobson de Andrade Arruda, da USP, especialista em história de Portugal.

 

 
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