Edição 1 622 - 3/11/1999
 

O sucessor de Edir Macedo

Jovem, elegante e cantor,
o bispo Marcelo Crivella é
a
nova imagem da Universal

Roberta Paixão

A Igreja Universal do Reino de Deus viveu sua revanche na noite de sexta-feira passada. Desde que os católicos lotaram o Maracanã no dia de Nossa Senhora Aparecida, em outubro, o bispo Edir Macedo não pensava em outra coisa. Queria mostrar que sua Igreja é capaz de colocar ainda mais fiéis no maior estádio de futebol do mundo. Não só o Maracanã lotou. Também ficou cheio o vizinho Maracanãzinho, de onde o público acompanhou o culto gigante por um telão. Mais: muita gente não conseguiu entrar por falta de espaço. O dono da noite foi o bispo Marcelo Crivella, que cantou, animou a platéia e orou. Isso não aconteceu por acaso. Colocar Crivella no centro do palco é a estratégia da Universal para mudar de imagem. Um dos objetivos é livrar-se do estigma de estar confinada à população mais pobre. Nos últimos anos, fiéis mais abastados começaram a estacionar seus carrões diante dos templos, e Crivella é o homem certo para consolidar a cabeça-de-ponte nos bairros nobres. Jovem (42 anos), alto (1,82 metro), louro e com olhos verdes, ele tem a estampa e a linguagem de um executivo bem-sucedido. "Nós queremos conquistar a classe média", anuncia Crivella. Suas credenciais são perfeitas. Sobrinho e braço direito de Edir Macedo, foi ele quem plantou, com espetacular sucesso, a bandeira da Universal na África. O tamanho desse desafio missionário só é comparável ao do próprio bispo Macedo, que criou sua Igreja do nada, pregando nas praças do Rio de Janeiro. Não é surpresa que Crivella seja visto como o sucessor natural do tio.

Paulo Jares

Bispo Crivella: megatemplos, roupas bem cortadas e canções para conquistar a classe média


De volta ao Brasil há seis meses, ele tem-se ocupado de duas missões estratégicas. A primeira é o ambicioso projeto de lançar uma linha de produtos alimentícios industrializados, produzidos em fazendas e fábricas da própria Igreja. Dois meses atrás, comprou na Bahia, em nome da Universal, uma primeira fazenda de 400 hectares, batizada de Canaã, onde pretende investir 3,5 milhões de reais para plantar com tecnologia israelense de irrigação. "Vamos escrever que nosso ketchup foi feito com o espírito do povo do sertão", entusiasma-se Crivella. "As pessoas vão preferir o produto Canaã pelo apelo social." A segunda missão é enfrentar a concorrência da mais fulgurante novidade da Igreja Católica, o padre-cantor Marcelo Rossi, que já vendeu mais de 4 milhões de discos. Crivella fechou um contrato com a Sony Music para fazer três discos, um deles em espanhol. O primeiro CD, O Mensageiro da Solidariedade, já vendeu 1,3 milhão de cópias e a gravadora espera chegar a 3 milhões. Dono de uma voz afinada que tenta imitar o timbre de Frank Sinatra, Crivella já gravou dez CDs (1,5 milhão de cópias vendidas) pela gravadora da Igreja, Line Records, mas é a primeira vez que coloca o rosto na capa. Ele também é autor de treze das catorze músicas do disco, duas delas em parceria com Macedo. Crivella é o único pastor da Universal, além do próprio bispo Macedo, com o direito de reunir multidões em estádios. Começou em Brasília, no ginásio Nilson Nelson, com capacidade para 25.000 pessoas. Depois lotou o Estádio Fonte Nova, em Salvador, e em seguida o Mineirão, em Belo Horizonte. Aí foi a vez do Maracanã, na semana passada. Até o fim do ano, ele planeja ter cantado nos maiores estádios de futebol do país. Além dos shows, já gravou dois clipes e participa de todos os programas de televisão que pode.

No culto, Macedo e Crivella têm estilos diferentes. O primeiro é um tipo circunspecto. O segundo é mais vibrante, usa gírias e mantém diálogos com os fiéis. São diferenças superficiais, pois tio e sobrinho têm enorme afinidade. "O que o Didi pensa o Marcelo faz", diz a dona de casa Eris Macedo, mãe de Crivella. Didi é o próprio Macedo e irmão de Eris. Nascido no Leblon e criado na Gávea, bairros de classe média do Rio, Crivella é filho único. Apesar de os pais serem católicos, ele começou a freqüentar uma Igreja Metodista aos 7 anos com uma vizinha. Pouco depois, uma tia entrou para a Igreja Evangélica Nova Vida e levou toda a família. Desde pequeno, Crivella segue os passos do tio. Com uma diferença de apenas doze anos para o sobrinho, Macedo ainda era jovem quando Crivella era adolescente. Saíam juntos e chegaram a ser sócios num pequeno negócio de venda de cogumelos, logo abandonado. No final dos anos 70, enquanto Macedo lutava para fazer prosperar a Igreja recém-fundada, Crivella estava mais preocupado em terminar os estudos e casar com Sylvia Jane. Eles haviam se conhecido na igreja e começaram a namorar aos 15 anos. Mas muitas vezes Crivella foi rodar as praças com o tio para pregar, de Bíblia na mão.

Oscar Cabral

Culto em templo da Universal: muita fé e uma nova linha de produtos alimentícios


Sem dinheiro, Crivella largou a pregação e se alistou no Exército para terminar os estudos e se casar. Ele se formou em engenharia civil pela Universidade de Barra Mansa, no interior do Rio. No quartel, ele não deixou a religião de lado. Tranqüilo, ganhava apelidos como "Bíblia" ou "Pastor". Tentou ser pára-quedista, mas foi reprovado. Era tenente quando foi convidado pelo tio para trabalhar na Igreja, em 1985. Inicialmente não era para ser pastor, mas engenheiro responsável pelas obras (função que exerce até hoje). Não deu outra. Um ano depois já era pastor. Tornou-se bispo em 1994, catapultado pelo sucesso africano. Com a mulher e os filhos, ele foi enviado para a África do Sul em 1992 sem saber uma palavra de inglês e com apenas 5.000 dólares no bolso. "Levei dezenas de caixas de leite porque não sabia se tinha lá", diz Sylvia Jane, que acompanha o marido na maioria dos compromissos. Ele abriu a primeira igreja no porão de um prédio de seis andares. Em um ano, com a arrecadação do dízimo e donativos, tinha comprado o prédio inteiro e aberto outras igrejas. Quando foi chamado de volta, estava dando os primeiros passos para expandir as fronteiras da Universal para a Índia. "Nós vamos onde há sofrimento. Crescemos mais nos países pobres, onde sobra gente sofrendo", diz. Hoje, a África do Sul só perde para o Brasil em número de igrejas. A Universal está em acelerada expansão no continente africano.

Apesar de Crivella e Macedo representarem, de certa forma, a nova e a velha geração, ninguém dentro da Universal admite os planos de sucessão. "Nossa preocupação é tocar a fé e desenvolver projetos", diz Edir Macedo. "É bom que o bispo Crivella fique famoso. Só que eu não vou me aposentar." Nos círculos da Universal, no entanto, fala-se sobre a conveniência de atrelar o nome da Igreja a um pastor mais sofisticado. "Nossa Igreja sempre foi malvista. O bispo Crivella ajuda a mudar essa imagem porque ele é mais doce", diz o bispo e deputado federal Carlos Rodrigues, que lidera os dezoito deputados federais e 26 estaduais da bancada política de Edir Macedo. Em contraste com o tio, que passa a imagem de um sujeito que veio de baixo, o sobrinho usa ternos impecáveis, de bom corte. A maioria é azul-marinho e cinza. No pulso leva um Rolex de ouro e prata. Na garagem de casa, tem um Omega azul, importado da Austrália, que vale 100.000 reais e um Corsa. Todos, segundo ele, pertencentes à Igreja. Quando voltou para São Paulo, Crivella recebeu uma casa de quatro quartos e piscina no luxuoso condomínio Tamboré, nos arredores de São Paulo, o mesmo onde vive Macedo. Vizinhos, ele e o tio estreitaram mais ainda a amizade. Nos fins de semana, Crivella costuma levar a família para almoçar ou jantar na casa de Macedo. Não dispensa uma partida de futebol com bispos e pastores no campo do condomínio. Costuma jogar no ataque.

A relação de Macedo e Crivella é quase de pai e filho. O tio cuida da voz à aparência do sobrinho. A retribuição é a lealdade total. Em 1992, quando o bispo Macedo foi preso sob a acusação de charlatanismo e envolvimento com o tráfico de drogas, Crivella foi o primeiro a ser chamado pela mulher de Macedo, Ester Eunice. Não deixou de visitar o tio um só dos onze dias em que esteve no xadrez. Crivella não está a salvo das encrencas envolvendo os negócios da Universal. Ele e a mulher, Sylvia Jane, são réus numa ação de cancelamento de concessão pública da Rede Record de Radiodifusão, que corre na Justiça Federal em São Paulo. A acusação é de que o casal serviu de testa-de-ferro da Universal para a aquisição da TV Record de Franca, no interior paulista. Num depoimento à Polícia Federal, Crivella admitiu que, como a Igreja não podia comprar diretamente a emissora, o fez em seu nome. Mais tarde, em juízo, desmentiu tudo.

A rotina de Crivella é intensa. Não dorme antes da meia-noite e acorda por volta das 5h30. Corre, anda de bicicleta e, não raro, caminha na companhia de Macedo. Toma café da manhã com a mulher e os três filhos. Sai de casa às 7 horas com uma extensa agenda de compromissos. Seu escritório é na Catedral da Fé de Santo Amaro, de onde o bispo Edir Macedo administra os negócios. No momento, contudo, tem uma sala em outro edifício, para tocar o projeto agrícola no Nordeste. Anda para cima e para baixo o dia inteiro, mas pelo telefone celular mantém Macedo informado de tudo. Toda quarta-feira viaja ao Rio de Janeiro, onde conduz o culto das 19 horas na Catedral da Fé, em Del Castilho. Quando perde o avião da ponte aérea, aluga um jatinho. À noite, esforça-se para chegar em casa antes de os filhos dormirem. "Marcelo é perfeccionista e quer fazer tudo ao mesmo tempo", diz Sylvia Jane, 41 anos. Seus três filhos estudam numa escola metodista. Deborah, 17 anos, e Rachel, 9, querem casar-se com pastores, e Marcelinho, 14 anos, pretende ser pastor. A família prepara a próxima geração.

 

Um missionário na África

O Exército no lugar da Bíblia: para poder casar e continuar estudando engenharia, o jovem Crivella alistou-se. Era tenente quando retornou à Igreja





O bispo Crivella conheceu sua
mulher, Sylvia Jane, na igreja, quando ambos tinham 15 anos: parceiros como missionários na África e na compra da Record





Exorcismo em Johanesburgo:
o pastor chegou à África do Sul sem saber palavra em inglês. Conquistou o continente e voltou promovido a bispo

Fotos: Álbum de família

 
 

 

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