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Edição 1 622 - 3/11/1999
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O sucessor de Edir MacedoJovem, elegante e cantor, Roberta Paixão
No culto, Macedo e Crivella têm estilos diferentes. O primeiro é um tipo circunspecto. O segundo é mais vibrante, usa gírias e mantém diálogos com os fiéis. São diferenças superficiais, pois tio e sobrinho têm enorme afinidade. "O que o Didi pensa o Marcelo faz", diz a dona de casa Eris Macedo, mãe de Crivella. Didi é o próprio Macedo e irmão de Eris. Nascido no Leblon e criado na Gávea, bairros de classe média do Rio, Crivella é filho único. Apesar de os pais serem católicos, ele começou a freqüentar uma Igreja Metodista aos 7 anos com uma vizinha. Pouco depois, uma tia entrou para a Igreja Evangélica Nova Vida e levou toda a família. Desde pequeno, Crivella segue os passos do tio. Com uma diferença de apenas doze anos para o sobrinho, Macedo ainda era jovem quando Crivella era adolescente. Saíam juntos e chegaram a ser sócios num pequeno negócio de venda de cogumelos, logo abandonado. No final dos anos 70, enquanto Macedo lutava para fazer prosperar a Igreja recém-fundada, Crivella estava mais preocupado em terminar os estudos e casar com Sylvia Jane. Eles haviam se conhecido na igreja e começaram a namorar aos 15 anos. Mas muitas vezes Crivella foi rodar as praças com o tio para pregar, de Bíblia na mão.
Sem dinheiro, Crivella largou a pregação e se alistou no Exército para terminar os estudos e se casar. Ele se formou em engenharia civil pela Universidade de Barra Mansa, no interior do Rio. No quartel, ele não deixou a religião de lado. Tranqüilo, ganhava apelidos como "Bíblia" ou "Pastor". Tentou ser pára-quedista, mas foi reprovado. Era tenente quando foi convidado pelo tio para trabalhar na Igreja, em 1985. Inicialmente não era para ser pastor, mas engenheiro responsável pelas obras (função que exerce até hoje). Não deu outra. Um ano depois já era pastor. Tornou-se bispo em 1994, catapultado pelo sucesso africano. Com a mulher e os filhos, ele foi enviado para a África do Sul em 1992 sem saber uma palavra de inglês e com apenas 5.000 dólares no bolso. "Levei dezenas de caixas de leite porque não sabia se tinha lá", diz Sylvia Jane, que acompanha o marido na maioria dos compromissos. Ele abriu a primeira igreja no porão de um prédio de seis andares. Em um ano, com a arrecadação do dízimo e donativos, tinha comprado o prédio inteiro e aberto outras igrejas. Quando foi chamado de volta, estava dando os primeiros passos para expandir as fronteiras da Universal para a Índia. "Nós vamos onde há sofrimento. Crescemos mais nos países pobres, onde sobra gente sofrendo", diz. Hoje, a África do Sul só perde para o Brasil em número de igrejas. A Universal está em acelerada expansão no continente africano. Apesar de Crivella e Macedo representarem, de certa forma, a nova e a velha geração, ninguém dentro da Universal admite os planos de sucessão. "Nossa preocupação é tocar a fé e desenvolver projetos", diz Edir Macedo. "É bom que o bispo Crivella fique famoso. Só que eu não vou me aposentar." Nos círculos da Universal, no entanto, fala-se sobre a conveniência de atrelar o nome da Igreja a um pastor mais sofisticado. "Nossa Igreja sempre foi malvista. O bispo Crivella ajuda a mudar essa imagem porque ele é mais doce", diz o bispo e deputado federal Carlos Rodrigues, que lidera os dezoito deputados federais e 26 estaduais da bancada política de Edir Macedo. Em contraste com o tio, que passa a imagem de um sujeito que veio de baixo, o sobrinho usa ternos impecáveis, de bom corte. A maioria é azul-marinho e cinza. No pulso leva um Rolex de ouro e prata. Na garagem de casa, tem um Omega azul, importado da Austrália, que vale 100.000 reais e um Corsa. Todos, segundo ele, pertencentes à Igreja. Quando voltou para São Paulo, Crivella recebeu uma casa de quatro quartos e piscina no luxuoso condomínio Tamboré, nos arredores de São Paulo, o mesmo onde vive Macedo. Vizinhos, ele e o tio estreitaram mais ainda a amizade. Nos fins de semana, Crivella costuma levar a família para almoçar ou jantar na casa de Macedo. Não dispensa uma partida de futebol com bispos e pastores no campo do condomínio. Costuma jogar no ataque.
A relação de Macedo e Crivella é quase de pai e filho. O tio cuida da voz à aparência do sobrinho. A retribuição é a lealdade total. Em 1992, quando o bispo Macedo foi preso sob a acusação de charlatanismo e envolvimento com o tráfico de drogas, Crivella foi o primeiro a ser chamado pela mulher de Macedo, Ester Eunice. Não deixou de visitar o tio um só dos onze dias em que esteve no xadrez. Crivella não está a salvo das encrencas envolvendo os negócios da Universal. Ele e a mulher, Sylvia Jane, são réus numa ação de cancelamento de concessão pública da Rede Record de Radiodifusão, que corre na Justiça Federal em São Paulo. A acusação é de que o casal serviu de testa-de-ferro da Universal para a aquisição da TV Record de Franca, no interior paulista. Num depoimento à Polícia Federal, Crivella admitiu que, como a Igreja não podia comprar diretamente a emissora, o fez em seu nome. Mais tarde, em juízo, desmentiu tudo. A rotina de Crivella é intensa. Não dorme antes da meia-noite e acorda por volta das 5h30. Corre, anda de bicicleta e, não raro, caminha na companhia de Macedo. Toma café da manhã com a mulher e os três filhos. Sai de casa às 7 horas com uma extensa agenda de compromissos. Seu escritório é na Catedral da Fé de Santo Amaro, de onde o bispo Edir Macedo administra os negócios. No momento, contudo, tem uma sala em outro edifício, para tocar o projeto agrícola no Nordeste. Anda para cima e para baixo o dia inteiro, mas pelo telefone celular mantém Macedo informado de tudo. Toda quarta-feira viaja ao Rio de Janeiro, onde conduz o culto das 19 horas na Catedral da Fé, em Del Castilho. Quando perde o avião da ponte aérea, aluga um jatinho. À noite, esforça-se para chegar em casa antes de os filhos dormirem. "Marcelo é perfeccionista e quer fazer tudo ao mesmo tempo", diz Sylvia Jane, 41 anos. Seus três filhos estudam numa escola metodista. Deborah, 17 anos, e Rachel, 9, querem casar-se com pastores, e Marcelinho, 14 anos, pretende ser pastor. A família prepara a próxima geração.
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