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Edição 1 622 - 3/11/1999
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O milagre do caixa da UniversalReceita multa a Igreja de Macedo em 300 milhões de reais Alexandre Secco
A Igreja reagiu com uma estratégia bem definida. Primeiro, pagou integralmente as multas aplicadas ao bispo Edir Macedo, ao seu sobrinho Marcelo Crivella (leia reportagem) e a outros participantes do alto escalão da Universal. Foram 50 milhões para livrá-los da possibilidade de prisão. Depois, contestou as multas que estão no nome do grupo. Os processos estão no Conselho de Contribuintes, um órgão ligado ao Ministério da Fazenda, onde aguardam julgamento. Mas os problemas da Igreja do bispo Macedo não são apenas com a Receita. O Instituto Nacional de Seguro Social, INSS, também encontrou pilhas de problemas nas contas de empresas da Universal. Nos últimos dois anos, o órgão lavrou uma série de autuações. As dívidas não foram pagas e acabaram inscritas na dívida ativa da União, uma espécie de cadastro de devedores do governo federal. Mais uma vez, o valor em questão é muito alto: 22 milhões de reais. "Nós compramos algumas empresas que não descontavam o INSS dos seus funcionários. Ainda não conseguimos colocar as contas em dia", diz o deputado federal e bispo Carlos Rodrigues (PL-RJ), coordenador político da Universal.
Para entender o que realmente é a Universal, o governo precisa fazer
malabarismos. Oficialmente, sabe-se do registro de apenas 1.900
templos, que estão cadastrados no INSS sob identificações fiscais diferentes.
Entretanto, imagina-se que a Igreja tenha mais de 10.000
templos espalhados pelo Brasil e pelo mundo. Há meses o governo tenta
encontrar uma solução jurídica adequada para fazer o cadastro da Igreja.
Diante desses indícios de que a Igreja se esteja desviando de sua missão principal, não é só o governo que resolveu examinar a Universal mais de perto. No último ano, uma leva de ex-amigos do bispo se voltou contra ele e pede na Justiça indenizações milionárias. Um grupo de pastores está tentando provar que a Universal é, mais do que Igreja, uma empresa dedicada à realização de lucros. Esses processos judiciais em andamento no Rio de Janeiro e em São Paulo trazem uma série de documentos reveladores sobre os métodos de atuação da Universal. O ex-pastor Hamilton Luciano de Almeida, por exemplo, entregou à Justiça o livro-caixa da filial localizada no bairro Cidade de Deus, no Rio, referente ao período entre março de 1994 e janeiro de 1995. O livro mostra que a arrecadação da Igreja nessa fase subiu de 15.000 para até 50.000 reais mensais. Segundo Almeida, "quem não consegue aumentar a arrecadação da igreja sob sua responsabilidade em pelo menos 25% por mês é mandado embora ou punido". Ele serviu mais de dez anos na Universal e afirma que acabou expulso por contestar as ordens da cúpula. Outro documento interessante, revelado pelo ex-pastor Maviael José de Oliveira, mostra que chegou a existir a figura do pastor comissionado. O advogado José Carlos Esteves Guimarães, que o representa em um pedido de indenização contra o bispo, aberto na 9ª Vara Cível da cidade do Rio de Janeiro no ano passado, diz que os pastores recebiam comissões quando conseguiam elevar a arrecadação em dinheiro de um templo. Outro livro-caixa, apresentado pelo ex-pastor Aloísio de Carvalho, mostra a movimentação financeira da Universal na região Norte, onde ele liderou a expansão da Igreja no começo da década de 90. Revela que o dinheiro da manutenção dos templos, em alguns casos, consumia menos de 30% do que era arrecadado. "O que sobrava a gente mandava para a matriz, em São Paulo", diz ele, que abandonou a Igreja há cinco anos. O ex-pastor Marcelo Gonzales é outro que está ajudando a esclarecer detalhes de contabilidade. Ele diz que comandava um pequeno templo na periferia de Brasília que chegou a arrecadar 230.000 reais por mês em 1997. "A ordem era arrecadar", disse ele. "Qualquer pessoa que estudar as contas da Universal vai descobrir que ela não passa de uma empresa lucrativa, muito lucrativa", afirma Carvalho. No último ano, já se contam pelo menos vinte ações desse tipo na Justiça cobrando indenizações da Universal. Essas ações envolvem pedidos que, somados, atingem o valor de 50 milhões de reais. A lógica desses pedidos é que, se os pastores ajudaram a Igreja a lucrar, eles têm direito a uma parte dos ganhos.
Os bispos, pastores e obreiros não têm carteira assinada porque a profissão de pastor não é regulamentada. Macedo, portanto, está desobrigado de recolher impostos e contribuições sobre sua folha de pagamento. Isso explica o motivo de não caberem ações trabalhistas contra a Igreja. Sabe-se que um pastor da Universal pode receber até 6.000 reais. Se for realmente bom, ganha carro importado e casa para morar. Detalhe: nenhum bem fica em seu nome. O carro, a casa, tudo é da Igreja. Só em São Paulo a Universal já manteve uma frota de cerca de 300 veículos registrados em seu nome, segundo um levantamento no Detran. Caso o pastor decida abandonar a Universal, precisa abrir mão de tudo. Outra novidade ruim para o bispo Macedo é que cerca de 300 ex-pastores do Rio e de São Paulo que foram mandados embora estão se articulando para criar uma associação cuja finalidade é exigir indenizações do bispo. "Ninguém mais agüenta viver na miséria enquanto a cúpula da Igreja fatura cada vez mais alto", diz o ex-pastor Hamilton Luciano de Almeida. Curiosamente, toda essa movimentação por parte do governo e dos ex-pastores ocorre no momento de maior expansão da Universal em número de fiéis, em arrecadação, em construção de templos e importância política. Nos últimos anos, o bispo ordenou a abertura de novas sedes e maior oferta de cultos. Hoje, a Universal é capaz de lotar estádios até na África. A bancada de políticos cresceu e já soma dezoito deputados federais. Alguns templos começaram a realizar até seis cultos por dia (normalmente são quatro), e as campanhas especiais foram multiplicadas. A campanha de Israel, por exemplo, era anual e hoje é feita até três vezes por ano. Nesse tipo de campanha, os fiéis são convidados a colocar a maior quantidade de dinheiro que puderem em um envelope junto a um pedido. Ao final da campanha, os bispos se comprometem a levar os pedidos para a terra prometida. A Igreja também está gastando na construção de templos novos, maiores e mais bem localizados. Macedo quer construir dezenas de templos com capacidade para mais de 5.000 pessoas nos próximos anos. O maior deles foi inaugurado há dois meses. É uma catedral com capacidade para 11.000 pessoas, numa área de 54 000 metros quadrados, e estacionamento para 2.000 carros, no bairro de Del Castilho, Zona Oeste do Rio de Janeiro. Até agora o projeto já consumiu 32 milhões de reais. Dentro de um ano, ele pretende inaugurar outras cinco catedrais no país, ao custo de cerca de 200 milhões de reais. Só para se ter uma breve idéia da evolução da Igreja Universal, há pouco
mais de vinte anos, o bispo Edir Macedo pregava no coreto de uma praça
no Rio porque não tinha dinheiro sequer para pagar o aluguel de uma garagem.
Ele precisou de apenas três anos para abrir seus primeiros galpões e construir
a primeira filial nos Estados Unidos. Hoje, está à frente de um império
espalhado por todo o Brasil e em outros setenta países nos quatro cantos
do mundo, da Colômbia aos Estados Unidos, da África até a Rússia. A Igreja
comanda uma vasta rede composta de vinte emissoras de TV e cinqüenta rádios,
um jornal semanal com tiragem de 1,3 milhão de exemplares dedicado a espinafrar
seu maior rival, a Igreja Católica, e pelo menos uma dezena de empresas
que atuam em segmentos variados, no setor financeiro, de construção civil
e gráfico. Em média, essa estrutura consegue inaugurar três templos a
cada domingo. Juntos, os mais de 20.000 pastores, bispos e obreiros (espécie de soldados rasos
que trabalham sem remuneração) a serviço da Universal oferecem por ano
30 milhões de cultos, quatro por dia, religiosamente todo santo dia em
qualquer parte do planeta em que exista um templo da Universal. Estima-se
que acorrem a essas cerimônias cerca de 10 milhões de pessoas à espera
de bênçãos para todos os tipos de males. Prega a cartilha da Universal
que o fiel de verdade é capaz de conseguir a cura para qualquer doença,
inclusive câncer e Aids. Uma pesquisa conduzida pelo Instituto Superior
de Estudos da Religião, Iser, em 1994, mostrou que 35% dos fiéis com renda
de até dois salários mínimos entregam para a Igreja mais que 10% de seu
rendimento. Do lado de lá do balcão, para muitos pastores o estímulo é
mesmo o dinheiro. No passado, a Igreja chegou a pagar comissão para os
pastores. Muitos receberam até carteirinhas para identificação como pastores
comissionados. Pedir, pedir e pedir é lei número 1 de Edir Macedo. Em
alguns casos, o pastor da Universal não se constrange de pedir para que
o fiel doe todo o dinheiro que tem guardado. Esse tipo de apelo foi comum
na época em que a Universal precisava levantar dinheiro para comprar a
TV Record. "A TV é parte fundamental do nosso projeto de batizar
o maior número de fiéis possível. E está funcionando", diz o bispo
Rodrigues. |
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querem indenização trabalhista
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