Edição 1 622 - 3/11/1999
 

Rumo à fronteira final

No laboratório de pesquisas obstétricas e ginecológicas da Universidade de Tóquio, uma caixa transparente de parede dupla de acrílico expõe um retrato impressionante do futuro. Dentro dela, repousa placidamente o feto de um cabrito em seus últimos dias de gestação. O equipamento é o mais aconchegante útero artificial já criado pela ciência. Nele, o cabritinho consegue viver mais de três semanas, um período de gestação equivalente a um mês e meio quando comparado com gravidez humana. Imerso em líquido amniótico artificial e mantido a temperatura constante, o feto sobrevive graças a um engenhoso equipamento que faz a troca de dióxido de carbono por oxigênio em seu sangue, simulando o sistema respiratório existente na placenta natural. O maior obstáculo dos cientistas até agora tem sido preparar o aparelho para dosar a quantidade exata de nutrientes que precisa ser colocada à disposição do feto. Quando tudo estiver calibrado, eles vão partir para a ousadia suprema: instalar no útero artificial um embrião humano. "A técnica já foi dominada", anuncia o pesquisador Nobuya Unno. O útero artificial japonês foi desenhado originalmente para receber bebês prematuros que nascem até quatro meses antes do fim de uma gravidez normal. Com o aumento das gestações múltiplas provocadas pelos tratamentos contra a infertilidade, em que até seis bebês dividem um órgão com capacidade para apenas um, o problema da gravidez de risco se tornou mais freqüente. A idéia dos japoneses é que nos casos mais graves, em vez de ir para incubadeiras, os bebês seriam imersos no útero artificial, onde ficariam até que seus pulmões tivessem condições plenas de respiração. Certamente chegará o dia em que a máquina japonesa de sustentação da vida vai ser usada para gestar o primeiro bebê humano fora do corpo de uma mulher. Muitas correções no processo terão de ser feitas até lá. Centros de pesquisas da Espanha e dos Estados Unidos também estão desenvolvendo seus protótipos de útero artificial. "O que mais me impressiona nessa pesquisa é que os cabritos nascem anêmicos, da mesma forma como Aldous Huxley previu em Admirável Mundo Novo, há 67 anos. Ele descrevia as crianças anêmicas saindo de úteros artificiais", conta o pesquisador. É de arrepiar.


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