Edição 1 622 - 3/11/1999
 

Embriões sem pai nem mãe

Alexandre Tokitaka
"Sobras" abandonadas: congelamento em tanques de nitrogênio e destino incerto


O Brasil já tem hoje 6 000 bebês de proveta (no mundo, são mais de 75 000). São crianças cujos pais percorreram a via-sacra das clínicas, desfizeram-se de bens, submeteram-se a infindáveis baterias de exames e passaram noites em claro na angustiante espera do resultado. Hoje, podem ver os filhos crescendo fortes e saudáveis – seus filhos. Mas se técnicas como a fecundação artificial propiciaram alegrias antes inacessíveis a muitas famílias, deixaram por outro lado resíduos tão cruéis quanto os que lotam hoje uma das salas da Fertility. Acondicionados em seis tanques de nitrogênio estão 600 embriões abandonados. São as "sobras" dos processos de fertilização realizados em laboratório. Cada tentativa bem-sucedida resulta, em média, em seis embriões saudáveis. Como, pelas normas do Conselho Federal de Medicina do Brasil, CFM, só quatro podem ser transferidos para o útero da mãe, o excedente vai para os contêineres de nitrogênio.

Embora os pais assinem termos comprometendo-se a implantar os embriões congelados num prazo máximo de três anos, o que ocorre é que muitos desistem de fazê-lo – ou porque não querem ter mais filhos, ou porque se separaram no período. Às clínicas, resta a opção do congelamento indefinido, já que não há demanda para doações e o descarte é proibido. Essa opção é de fachada, porque armazenar embriões custa caro e muitas acabam mesmo se desfazendo do excedente. O descarte de embriões é apenas uma das zonas de sombra que envolvem a reprodução não natural. Uma resolução de 1992 do CFM proíbe os médicos de inseminar artificialmente mulheres solteiras em busca de uma produção independente. Na prática, esses casos são comuns. "Essa área gera controvérsias porque não há uma lei específica", diz Gabriel Oselka, ex-presidente do conselho e um dos redatores da resolução. "As normas asseguram princípios básicos mas não controlam todos os casos."


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