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Tales
Alvarenga Menos hipocrisia, por favor
"Só
mesmo numa cidade como o Rio de Janeiro, na qual o narcotráfico e os
tiroteios entre quadrilhas não existem mais, é concebível deslocar
quarenta policiais para prender amantes de briga de galo."
Se está na lei que promover briga de galo é crime, e um crime que
dá cadeia, cumpra-se a lei. Outra coisa é transformar o publicitário
Duda Mendonça num sujeito rude, sem bons sentimentos e ainda por cima criminoso
porque foi flagrado e preso numa rinha no Rio de Janeiro pela Polícia Federal.
Não
gosto de rinhas, mas também não gosto de galos. Um galo a menos
no mundo não prejudica ninguém. Aliás, a supressão
de um desses galináceos cheios de testosterona traz a vantagem de calar
um daqueles despertadores ambulantes que nos acordam de madrugada.
Não gosto de galos nem de rinhas, mas gosto de touradas e lutas de boxe,
o que não me transforma num ser humano cruel, muito menos criminoso. Até
aqui estou falando de preferências pessoais. Do ponto de vista dos princípios,
o repentino horror demonstrado às brigas de galo é mais esquisito
ainda.
Se Duda foi preso porque participava de um ritual de crueldade contra galos, o
que dizer de criadores de frangos ou donos de frigoríficos, como o ministro
Luiz Fernando Furlan, da Sadia, que deixam as aves presas a vida inteira em cubículos
e no fim as executam para o deleite carnal de milhões de brasileiros?
Tem muita gente boa que põe passarinho em gaiola. Na sociedade dos homens,
só vai para a gaiola quem é condenado pela Justiça por algum
seriíssimo ato anti-social. Mas, como bicho não é gente (com
exceção dos galos, ao que tudo indica), ninguém chama a polícia
porque o vizinho mantém um canário preso na varanda. Engordar porcos
até aquele limite antinatural que conhecemos também é uma
crueldade, mas não incomoda ninguém. Ao contrário. Você
já viu alguém envergonhado de comprar bacon no supermercado?
Não vamos continuar com a lista porque ela é muito longa. Sem muito
esforço retórico, eu incluiria até mesmo ratos na relação.
Os laboratórios químicos incluem. Conhecendo a força dos
lobbies de proteção aos animais, os fabricantes de remédios
se protegem informando que na produção de suas drogas não
usam métodos cruéis contra cobaias. Agora, cá entre nós.
Você sabe que os franceses alimentam gansos à força, por meio
de funis. Os gansos são entupidos de milho até seu fígado
ficar deformado, enorme. Esses fígados inchados se transformam depois numa
das glórias da culinária francesa. Pois bem: atire a primeira pedra
em Duda Mendonça aquele que nunca comeu patê de fígado de
ganso -- por princípio, é claro.
Duda Mendonça não foi preso apenas por crueldade contra animais.
Também pesa contra ele a acusação de formação
de quadrilha. Só mesmo numa cidade como o Rio de Janeiro, na qual o narcotráfico
foi vencido, os tiroteios entre quadrilhas não acontecem mais e os arrastões
na praia são manifestações há muito dominadas pelas
autoridades, é concebível deslocar quarenta policiais para dar uma
batida em Jacarepaguá com o objetivo de fechar uma rinha.
Sou um defensor do cumprimento das leis. Mas as leis devem refletir alguma lógica.
Então, de duas, uma: ou se muda a lei para liberar as rinhas ou se fecham
todos os matadouros e zoológicos do país. As crianças podem
achar muita graça nos macacos. Mas os macacos não acham graça
nenhuma nas crianças. Em resumo, menos hipocrisia, por favor. |