Edição 1878 . 3 de novembro de 2004

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Lula Strangelove

"Se construir centrífugas para o
enriquecimento de
urânio é mau negócio
para os americanos, que têm mais de 100
usinas, claro que não pode ser bom negócio
para o Brasil.
Até mesmo as contas maquiadas
do
governo mostram a burrice do programa"

Onde roubamos nossa tecnologia nuclear? Na Europa ou no Paquistão? Corrompemos os cientistas da Urenco, ou usamos a rede de contrabando de Abdul Qadeer Khan? Repassamos as informações roubadas para o Iraque? Para o Irã? Para a Líbia? Roubamos também projetos para a construção de bombas nucleares? Onde eles estão guardados? Com quem? Qual o valor total da operação? Um bilhão de dólares? Dois bilhões? O programa nuclear paralelo ainda tem contas secretas em paraísos fiscais? Quem controla esse dinheiro?

Os lulistas não aceitam nenhuma dessas perguntas. O programa nuclear brasileiro, segundo eles, não é roubado. Pelo contrário. Afirmam que a tecnologia de enriquecimento de urânio desenvolvida no país é tão inovadora e barata que são os americanos a querer nos roubar. O ministro Celso Amorim suspeita sobretudo dos inspetores da ONU, encarregados de vistoriar a usina de Resende. Como ele próprio admitiu, os inspetores "não são necessariamente espiões, mas nenhuma agência é neutra". Saddam Hussein levantou a mesma suspeita e se deu mal. Para o diplomata José Maurício Bustani, quem duvida que o Brasil possa desenvolver uma tecnologia de ponta deve "se lembrar da nossa urna eletrônica". A comparação é pitoresca. Uma urna eletrônica requer tanta tecnologia quanto uma batedeira de bolo ou uma cafeteira elétrica. Ainda bem que os americanos tiveram o bom senso de destituir Bustani de seu cargo na Opaq, a entidade responsável pela proibição de armas químicas. O mundo ficou mais seguro.

A argumentação dos lulistas, como sempre, é enganosa. A tecnologia de enriquecimento de urânio dos americanos é de fato ultrapassada e antieconômica, tendo sido instalada há mais de cinqüenta anos, mas é ridículo atribuir isso à incapacidade tecnológica. Os americanos não investem em novas usinas simplesmente porque é um mau negócio. A cotação do urânio enriquecido no mercado internacional vem caindo de maneira contínua desde 1985. Por isso, é muito mais conveniente abastecer os reatores nucleares americanos com urânio importado da Rússia ou do consórcio europeu Urenco, que vendem o produto a preço de banana, do que aplicar em tecnologias mais modernas. Se construir centrífugas para o enriquecimento de urânio é mau negócio para os americanos, que têm mais de 100 usinas, claro que não pode ser bom negócio para o Brasil. Até mesmo as contas maquiadas do governo mostram a burrice do programa. Os lulistas calculam que, investindo os 200 milhões de dólares pedidos pela Marinha, poderemos poupar a ninharia de 10 milhões de dólares por ano, a partir de 2014. Isso se, até lá, não forem criadas tecnologias mais competitivas. A verdade é que o enriquecimento de urânio não tem interesse comercial, apenas geopolítico. Lula quer usar nosso dinheiro para financiar sua megalomania.

O ufanismo nuclear brasileiro tem um aspecto ainda pior. Lula prometeu investir 2,8 bilhões de dólares para construir quatro usinas nucleares inteiramente nacionais em cidades como Manaus. Nosso último surto de nacionalismo tecnológico foi o foguete VLS-1. Todo mundo lembra o que aconteceu. O primeiro foguete explodiu. O segundo foguete explodiu. O terceiro foguete explodiu, matando um monte de gente. Quantas mortes podem ocorrer no caso de explosão de uma usina nuclear? Melhor é construir usinas de babaçu.

 
 
 
 
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