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Entrevista: Len
Hynds
A polícia da rede
O chefe da luta contra os crimes
da internet na Inglaterra diz que
todo policial tem de dominar as
novas tecnologias

Malu Gaspar
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Ana Araujo

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"É exagero retratar a
internet como escura e sinistra. Ela é como tudo
na sociedade: há lugares seguros e lugares inseguros"
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Len Hynds, um inglês de 45 anos, nunca
estudou informática nem foi um jovem fanático por
computador. Policial com vinte anos de carreira na luta contra o
crime organizado, Hynds comanda, há três anos, a unidade
de combate ao crime cibernético na Inglaterra, cargo que
ganhou por concurso público. Nesse período, ele descobriu
que realmente existe crime organizado na internet e que as quadrilhas
se organizam e agem no universo virtual da mesma forma que no mundo
real são violentas e pagam muito bem aos hackers que
recrutam. "Eles impõem sua vontade com violência, tiram
competidores do caminho e dirigem seus negócios espúrios
como sempre o fizeram", diz. Recentemente, Hynds esteve no Brasil,
onde participou de um congresso sobre crimes pela internet. Em visita
à Polícia Federal, conheceu a unidade de combate aos
crimes cibernéticos e, pelo que viu, acha que o Brasil tem
"boa experiência e bom conhecimento técnico". Nesta
entrevista a VEJA, ele comenta os crimes mais corriqueiros, fala
da caça aos pedófilos e diz como evitar os golpes
mais comuns.
Veja O senhor confia
na internet para fazer compras e pagamentos?
Hynds Se o site pertence a uma empresa com boa reputação,
a conexão entre seu computador e essa empresa é quase
sempre segura. O problema é quando criminosos conseguem convencer
um usuário a repassar informações pessoais
pela internet. Os golpes têm sido cada vez mais engenhosos.
Outro dia, vi um e-mail supostamente enviado por uma empresa de
vendas on-line que dizia assim: "Obrigado pela compra, esperamos
que tenha apreciado nosso produto e informamos que vamos sacar 150
dólares de sua conta". No fim da página, havia um
link para um suposto serviço de atendimento ao cliente. Como
os usuários não tinham comprado coisa alguma, e obviamente
não queriam perder 150 dólares, a maior parte ia até
o serviço de atendimento para reclamar. Só que, ao
fazer essa operação, o usuário acionava, sem
saber, um programa invasor que capturava seus dados pessoais.
Veja Que precauções
se devem tomar para evitar um golpe assim?
Hynds Em primeiro lugar, um usuário de internet
não deve nunca, jamais, sob hipótese alguma, clicar
num link de e-mail que diga ser de seu banco. Uma instituição
financeira on-line jamais enviará um e-mail assim a seu cliente.
Quem quer entrar no site de seu banco deve digitar, ele próprio,
o endereço eletrônico e nunca responder a e-mails pedindo
ou dando informações. Em segundo lugar, sempre que
aparece aquele esquema facílimo de ganhar dinheiro, tão
fácil que parece mentira, é porque realmente não
é verdade. É golpe. Mas, apesar de tudo o que já
se disse sobre isso, temos estatísticas mostrando que 5%
dos usuários de internet respondem aos e-mails supostamente
enviados pelo seu banco. É verdade que 95% estão informados
sobre o golpe e não respondem, mas ainda há uma parte
da sociedade pouca atenta para o perigo. Precisamos alertar essas
pessoas.
Veja Sites de relacionamento,
como o Orkut, são muito populares no Brasil e, recentemente,
uma jovem foi seqüestrada e especulou-se que as informações
sobre ela tivessem sido obtidas no Orkut. Esses sites devem ser
evitados?
Hynds Temos de separar o exagero da realidade. A internet
não é mais nem menos segura que qualquer outro ambiente
da vida. Se uma pessoa está numa rua respeitável,
com lojas conhecidas, em plena luz do dia, ela provavelmente não
terá problemas se usar cartão de crédito. Agora,
se estiver numa lojinha desconhecida, numa rua lateral, no escuro,
com pessoas esquisitas em volta, saberá que o risco de usar
cartão de crédito é maior. As pessoas têm
essa capacidade de discernimento para evitar dissabores. Na internet,
ocorre a mesma coisa. É preciso ter atenção,
usar o bom senso. Mas é um exagero retratar a rede mundial
como um lugar escuro e sinistro. Ela é como tudo na sociedade:
há lugares seguros e lugares inseguros.
Veja Existe crime organizado
na internet?
Hynds Antes, os criminosos que conhecíamos
eram pessoas como Kevin Mitnik ou Raphael Gray. Mitnik foi o primeiro
a ser incluído na lista dos hackers mais procurados pelo
FBI. Ele era muito ativo, mas nunca ganhou dinheiro com isso. Gray
obteve 25 000 números de cartões de crédito
na internet, coisa que, uma vez nas mãos do crime organizado,
renderia uma fortuna. Mas Gray contentou-se em pegar o número
do cartão de crédito de Bill Gates para mandar uma
cobrança de compra de Viagra. Diante disso, quando montamos
nossa unidade de combate aos crimes cibernéticos em Londres,
não tínhamos certeza se realmente havia crime organizado
na internet. Hoje, sabemos que há, sim. No Leste Europeu,
por exemplo, há criminosos em atividade agindo na rede exatamente
como agiriam no mundo real: impõem sua vontade com violência,
tiram competidores do caminho e dirigem seus negócios espúrios
como sempre o fizeram.
Veja Quais os crimes cibernéticos
mais preocupantes?
Hynds Extorsão e fraudes diversas são
os crimes mais significativos. Além disso, temos feito muito
para combater a pornografia infantil na rede, dificultando a vida
de quem quer comprar material pornográfico infantil on-line
usando cartões de crédito.
Veja Sua agência tem
dados sobre o crescimento da criminalidade?
Hynds Vou dar uma indicação. De 2002
para 2003, recebemos sete notificações sobre falsificação
de sites de empresas e fraudes diversas, como roubo de identidade.
Foram sete notificações no ano todo. Agora, recebemos
em média duas notificações por semana. Há
um crescimento maciço.
Veja Qual o volume de dinheiro
que o crime na internet movimenta?
Hynds É dificílimo obter um dado seguro,
mas temos uma noção pelo menos na Inglaterra. Fizemos
uma pesquisa que mostra que, no ano passado, 167 empresas inglesas
perderam 195 milhões de libras, o que dá cerca de
350 milhões de dólares. Se fôssemos ampliar
essas estatísticas para todas as empresas do Reino Unido,
estaríamos falando em cifras de alguns bilhões de
dólares. Mesmo sem números precisos, podemos afirmar
que as empresas têm tido perdas enormes, fenomenais. Entre
essas 167 empresas de que falei, duas perderam mais de 35 milhões
de dólares cada uma.
Veja Como se faz extorsão
pela internet?
Hynds Nos últimos meses, temos visto extorsão
contra setores da indústria de lazer, como sites de jogos
on-line. Os criminosos tiram um site do ar e exigem milhões
de dólares para colocá-lo de volta. Funciona assim:
eles invadem alguns milhares de computadores pelo mundo e instalam
um programa que lhes permite acompanhar o que as máquinas
estão fazendo. Aí, programam todos os computadores
invadidos para acessar determinado site de jogo num dia e hora certos.
Com milhares de computadores pedindo acesso ao mesmo tempo, o site
entra em pane e fica paralisado. Quando isso acontece, a quadrilha
manda mensagem aos donos do site dizendo que, se quiserem sua página
funcionando de novo, deverão pagar altas quantias. Já
testemunhei casos de empresas que perderam milhões de dólares
ao ter seus sites atacados dessa forma.
Veja A impressão que
se tem é que os casos de pedofilia na internet são
cada vez mais numerosos.
Hynds Recentemente, alguns provedores em atividade
no Reino Unido ofereceram aos seus clientes um serviço de
bloqueio automático de acesso a sites de pedofilia. Muitos
clientes compraram o serviço. E, dentre eles, houve mais
de 20 000 tentativas de acesso, segundo os próprios provedores.
Quer dizer: mesmo gente que bloqueou voluntariamente o acesso de
seu computador a sites de pedofilia acabou, uma hora qualquer, tentando
abrir esse material. Isso não quer dizer, no entanto, que
o crime esteja aumentando. Na realidade, eu diria que estamos mais
eficientes na detecção desses casos.
Veja Pedófilos
têm características comuns?
Hynds Em geral, eles são muito precavidos,
atentos e preparados para um longo jogo de paciência. Os pedófilos
contumazes desenvolvem planos longos e elaborados para chegar a
seu objetivo, que é abusar de crianças ou trocar material
sobre abuso infantil. Eles procuram aprender todos os detalhes sobre
os sistemas de segurança na internet e se entregam a um demorado
exercício de observação para descobrir o meio
mais eficaz e insuspeito de ficar perto da vítima.
Veja Mesmo assim, no ano
passado, o senhor comandou uma operação que prendeu
uma grande quadrilha de pedófilos com ramificações
em diversos países da Europa. Era a maior quadrilha em atividade?
Hynds Era realmente muito grande. Foram 140 pessoas
presas ao redor do mundo, das quais 27 na Inglaterra. Mas o que
chamou atenção é que elas acreditavam ser tão
eficientes tecnicamente que podiam agir como se estivessem acima
da lei. Elas se gabavam de que nunca seriam pegas e, de fato, eram
muito disciplinadas. Para ter acesso aos sites mais procurados da
rede, um membro da quadrilha precisava ir galgando diversos níveis.
Nos primeiros contatos, o usuário só tinha acesso
a alguns sites e precisava dar algo em troca, de modo que se comprometesse
com a quadrilha e ficasse impedido de sair de uma hora para outra
e começar a denunciar a rede. Eram testes de confiança.
À medida que fosse ganhando confiança, o usuário
passava a ter acesso aos sites mais cobiçados. Havia uma
organização sofisticada, mas eles também cometeram
erros. Por exemplo: relacionavam-se entre si na vida real. Quando
foram presos, encontramos fotos dos membros da quadrilha em reuniões
sociais, festas, restaurantes.
Veja As quadrilhas da internet
de hoje recrutaram os hackers que, no passado, aplicavam apenas
trotes inocentes?
Hynds Não exatamente. Os especialistas que
servem ao crime organizado atualmente são, na maior parte,
desempregados altamente qualificados que foram recrutados em troca
de uma ótima compensação financeira. Eles recebem,
às vezes, até dez vezes mais que o salário
do mercado legal. Se o dinheiro não é atrativo suficiente,
os criminosos também fazem recrutamento forçado. Nesse
caso, eles intimidam o profissional ou destroem seu negócio
legítimo para que, sem outra opção, o sujeito
acabe cedendo à chantagem. Há casos ainda de pessoas
altamente capacitadas que freqüentam comunidades de hackers
nas quais ficam sabendo que, ao mandar seu currículo para
determinados sites, podem conseguir empregos excepcionalmente bem
remunerados. As quadrilhas também costumam visitar esses
sites de hackers com o propósito de recrutar especialistas.
Veja Com base nas
suas viagens pelo mundo, o senhor diria que as polícias estão
preparadas para combater o crime cibernético?
Hynds Entre as polícias de elite, a evolução
é boa em todos os lugares do mundo de que tenho notícia,
inclusive no Brasil. A maioria dos países está criando
agências semelhantes à que comando em Londres. Mas
uma agência de combate ao crime cibernético é
apenas parte da solução porque as polícias
precisam lidar com a tecnologia rotineiramente. Por isso, digo que
a polícia ainda está brincando de pega-pega com o
crime eletrônico. Na Inglaterra, por exemplo, ela se encontra
preocupada com as prioridades da comunidade. As pessoas querem se
sentir seguras e erradicar os roubos de carros, arrombamentos e
assaltos nas ruas. Isso é natural. O que não estamos
percebendo é que a internet é uma dimensão
totalmente nova para a atuação da polícia.
Os jovens hoje vão para as salas de bate-papo. Eles não
se reúnem mais em volta de um muro, em frente a uma parada
de ônibus. Eles vão para uma esquina virtual. A polícia
deve estar na esquina virtual tanto quanto estaria numa esquina
do mundo real.
Veja O senhor acha que o policial
do futuro será mais virtual do que real?
Hynds Em uma hipótese otimista, um policial do
futuro deverá ter domínio sobre a tecnologia. Pelo
menos isso. Numa cena de crime, por exemplo, o policial precisa
saber como lidar com evidências em formato digital, como lidar
com um arquivo de computador, o que pode ser recuperado e o que
não pode.
Veja Quais as regiões
do mundo em que o combate ao crime organizado cibernético
está mais avançado?
Hynds Há vários países trabalhando
para melhorar seus serviços, mas, pelo que sei, o serviço
dos Estados Unidos e o nosso estão conseguindo resultados
vistosos. Agora, para avaliar o avanço de um país
no combate ao crime cibernético, é preciso avaliar
primeiro como funcionam os provedores e conhecer o sistema jurídico,
além de saber o tipo de crime cibernético mais comum.
Veja Qual a situação
comparativa do Brasil no mundo?
Hynds O Brasil tem boa experiência e bom conhecimento
técnico. Na Polícia Federal, visitei a unidade especializada
no combate aos crimes na área de informática e descobri
muita coisa em comum com o nosso trabalho na Inglaterra. Claramente,
o Brasil está na liderança dessa questão no
continente. Mas há áreas em que podemos ajudar a polícia
brasileira. Na minha visita, sugeri que a Polícia Federal
tivesse estratégia própria de combate aos crimes informáticos
e evitasse trabalhar ao sabor das demandas empresariais. Na Inglaterra,
nós elaboramos uma estratégia independente e isso
nos ajudou a ter uma visão mais clara do crime nessa área.
Acho que a polícia do Brasil deveria fazer uma ampla pesquisa
para, em primeiro lugar, saber quais os crimes mais comuns, como
e onde ocorrem e como são os esquemas de segurança
das redes brasileiras. Isso seria bom para o país e para
nós também. Saberíamos se as tendências
do crime cibernético aqui são as mesmas que vimos
na Inglaterra e nos Estados Unidos.
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