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Auto-retrato Eulina
Rabêlo
Paulo
Santos/Interfoto
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A
deputada estadual Eulina Rabêlo (PFL-PA), 40 anos, teve a candidatura à
prefeitura de Viseu impugnada porque vive há nove anos com a atual prefeita,
Astrid Cunha, 49, e a lei não permite que um cônjuge se candidate
ao cargo do outro. Ou seja: por vias tortas, viu sua união ser reconhecida
como um casamento. Eulina, que foi casada à moda tradicional durante onze
anos e tem dois filhos, falou à repórter Sandra Brasil, pela primeira
vez, sobre o assunto.
COMO A SENHORA REAGIU À IMPUGNAÇÃO DE SUA CANDIDATURA? Eu
me senti abandonada pelas leis do meu país. A Constituição
não reconhece união estável entre homossexuais quando o assunto
são seus direitos, mas de repente reconhece para os deveres.
SUA
CONSCIÊNCIA NÃO LHE DIZIA QUE HAVIA CONFLITO ENTRE A SITUAÇÃO
CONJUGAL DE FATO E A LEGISLAÇÃO ELEITORAL? Nunca aconteceu
isso. Quando se vive num país que nega direitos, a gente até se
esquece de enquadrar a própria vida nos padrões normais.
A
IMPUGNAÇÃO NÃO RESULTOU EM GANHO PARA OS HOMOSSEXUAIS, COM
O RECONHECIMENTO IMPLÍCITO DA UNIÃO CONJUGAL? Verdade. Mas
só vou saber se valeu a pena o fim da minha candidatura quando forem aprovadas
leis como a da união civil entre pessoas do mesmo sexo.
OS
DIREITOS DOS HOMOSSEXUAIS ESTAVAM ENTRE AS SUAS BANDEIRAS? Não.
Sempre trabalhei em outras áreas. De repente, surgiu essa bandeira, de
graça, para que eu levante. Já que fui a mártir do processo,
acho que também posso colher os louros. Estou estudando uma maneira de
criar uma entidade de defesa dos direitos dos homossexuais diferente das que existem,
sem nada de caricato.
A
SENHORA FOI VÍTIMA DE DISCRIMINAÇÃO? Durante a campanha
para a prefeitura de Viseu, passavam na frente de casa gritando coisas baixas,
do tipo "Xô, sapatão!". Teve muita briga entre gente assim e simpatizantes
querendo me defender. Só não houve coisa pior porque, como Viseu
é considerado o segundo município paraense mais violento no período
eleitoral, o Exército mandou reforços para lá. No último
mês da campanha, andei com proteção policial.
COMO A SENHORA E ASTRID SE CONHECERAM? Ela é médica e
trabalhava no hospital na cidade onde eu morava com a minha família. Como
já tínhamos atuação política, nos encontrávamos
em reuniões partidárias. Uns três anos depois de nos conhecermos,
Astrid se mudou para Viseu, e resolvi ir para lá também, cuidar
da campanha dela para a prefeitura. Meus filhos ficaram primeiro com meu marido,
depois eu trouxe um para minha casa, e depois os dois foram para Belém,
com uma empregada de confiança, para estudar. Como deputada estadual, passo
a semana lá com eles.
SEUS
FILHOS (HOJE COM 19 E 18 ANOS) NUNCA QUESTIONARAM SEU RELACIONAMENTO COM
A PREFEITA? As coisas foram acontecendo naturalmente. Eles eram pequenos
e se dão bem com a Tide. Durante a campanha, meu caso estava nos jornais
e terminou sendo tema de redação na escola do mais novo. Avisado
por alunos, o professor, sem jeito, foi até o Cássio para perguntar
qual o sentimento dele. A resposta foi: "Nenhum. É a vida dela e ninguém
tem o direito de se meter".
COMO
FOI O JULGAMENTO DE SUA CANDIDATURA, QUANDO TESTEMUNHAS COMENTARAM DETALHES DE
SUA INTIMIDADE COM A PREFEITA? Sofri ali uma inquisição moderna.
A maioria delas era gente que lambia o meu prato e que comia comigo. Não
estou negando que exista um relacionamento. Mas a pergunta que não quer
calar é: sou lésbica ou não?
A
SENHORA É LÉSBICA? O termo é meio pejorativo. Para
pessoas muito íntimas, eu sempre digo que gosto da Astrid, o que é
diferente. Ela foi a primeira mulher com quem me envolvi e representou uma grande
transformação na minha vida. Acho que sou bissexual. |