Edição 1878 . 3 de novembro de 2004

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Auto-retrato
Eulina Rabêlo

Paulo Santos/Interfoto


A deputada estadual Eulina Rabêlo (PFL-PA), 40 anos, teve a candidatura à prefeitura de Viseu impugnada porque vive há nove anos com a atual prefeita, Astrid Cunha, 49, e a lei não permite que um cônjuge se candidate ao cargo do outro. Ou seja: por vias tortas, viu sua união ser reconhecida como um casamento. Eulina, que foi casada à moda tradicional durante onze anos e tem dois filhos, falou à repórter Sandra Brasil, pela primeira vez, sobre o assunto.

COMO A SENHORA REAGIU À IMPUGNAÇÃO DE SUA CANDIDATURA?
Eu me senti abandonada pelas leis do meu país. A Constituição não reconhece união estável entre homossexuais quando o assunto são seus direitos, mas de repente reconhece para os deveres.
 

SUA CONSCIÊNCIA NÃO LHE DIZIA QUE HAVIA CONFLITO ENTRE A SITUAÇÃO CONJUGAL DE FATO E A LEGISLAÇÃO ELEITORAL?
Nunca aconteceu isso. Quando se vive num país que nega direitos, a gente até se esquece de enquadrar a própria vida nos padrões normais.
 

A IMPUGNAÇÃO NÃO RESULTOU EM GANHO PARA OS HOMOSSEXUAIS, COM O RECONHECIMENTO IMPLÍCITO DA UNIÃO CONJUGAL?
Verdade. Mas só vou saber se valeu a pena o fim da minha candidatura quando forem aprovadas leis como a da união civil entre pessoas do mesmo sexo.
 

OS DIREITOS DOS HOMOSSEXUAIS ESTAVAM ENTRE AS SUAS BANDEIRAS?
Não. Sempre trabalhei em outras áreas. De repente, surgiu essa bandeira, de graça, para que eu levante. Já que fui a mártir do processo, acho que também posso colher os louros. Estou estudando uma maneira de criar uma entidade de defesa dos direitos dos homossexuais diferente das que existem, sem nada de caricato.
 

A SENHORA FOI VÍTIMA DE DISCRIMINAÇÃO?
Durante a campanha para a prefeitura de Viseu, passavam na frente de casa gritando coisas baixas, do tipo "Xô, sapatão!". Teve muita briga entre gente assim e simpatizantes querendo me defender. Só não houve coisa pior porque, como Viseu é considerado o segundo município paraense mais violento no período eleitoral, o Exército mandou reforços para lá. No último mês da campanha, andei com proteção policial.

COMO A SENHORA E ASTRID SE CONHECERAM?
Ela é médica e trabalhava no hospital na cidade onde eu morava com a minha família. Como já tínhamos atuação política, nos encontrávamos em reuniões partidárias. Uns três anos depois de nos conhecermos, Astrid se mudou para Viseu, e resolvi ir para lá também, cuidar da campanha dela para a prefeitura. Meus filhos ficaram primeiro com meu marido, depois eu trouxe um para minha casa, e depois os dois foram para Belém, com uma empregada de confiança, para estudar. Como deputada estadual, passo a semana lá com eles.
 

SEUS FILHOS (HOJE COM 19 E 18 ANOS) NUNCA QUESTIONARAM SEU RELACIONAMENTO COM A PREFEITA?
As coisas foram acontecendo naturalmente. Eles eram pequenos e se dão bem com a Tide. Durante a campanha, meu caso estava nos jornais e terminou sendo tema de redação na escola do mais novo. Avisado por alunos, o professor, sem jeito, foi até o Cássio para perguntar qual o sentimento dele. A resposta foi: "Nenhum. É a vida dela e ninguém tem o direito de se meter".

COMO FOI O JULGAMENTO DE SUA CANDIDATURA, QUANDO TESTEMUNHAS COMENTARAM DETALHES DE SUA INTIMIDADE COM A PREFEITA?
Sofri ali uma inquisição moderna. A maioria delas era gente que lambia o meu prato e que comia comigo. Não estou negando que exista um relacionamento. Mas a pergunta que não quer calar é: sou lésbica ou não?
 

A SENHORA É LÉSBICA?
O termo é meio pejorativo. Para pessoas muito íntimas, eu sempre digo que gosto da Astrid, o que é diferente. Ela foi a primeira mulher com quem me envolvi e representou uma grande transformação na minha vida. Acho que sou bissexual.

 
 
 
 
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