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Ponto
de vista: Stephen
Kanitz
Cuidado com
o que ouvem
"Achar que tudo o
que ouvimos é verdadeiro
é viver ingenuamente, com sérias conseqüências
para nossa vida profissional"
"Vigilância
epistêmica" é a preocupação que
todos nós devíamos ter com relação
a tudo o que lemos, ouvimos e aprendemos de outros seres humanos,
para não sermos enganados. Significa não acreditar
em tudo o que é escrito e é dito por aí,
inclusive em salas de aula. Achar que tudo o que ouvimos é
verdadeiro, que nunca há uma segunda intenção
do interlocutor, é viver ingenuamente, com sérias
conseqüências para nossa vida profissional. Existe
um livro famoso de Darrell Huff chamado Como Mentir com
Estatísticas, que infelizmente é vendido
todo dia, só que as editoras não divulgam para
quem. Cabe a cada leitor tentar descobrir.
Ilustração
Atômica Studio
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Vigilância epistêmica é uma expressão
mais elegante do que aquela palavra que todos nós já
conhecíamos por "desconfiômetro", que nossos
pais nos ensinaram e infelizmente a maioria de nós
esqueceu. Estudos mostram que crianças de até
3 anos são de fato ingênuas, acreditam em tudo
o que vêem, mas a partir dos 4 anos percebem que não
devem crer. Por isso, crianças nessa idade adoram mágicas,
ilusões óticas, truques. Assim, elas aprenderão
a ter vigilância epistêmica no futuro.
Lamentavelmente,
muitos acabam se esquecendo disso na fase adulta e vivem confusos
e enganados, porque não sabem mais o que é verdade
ou mentira.
Nossa imprensa
infelizmente não ajuda nesse sentido; ela também
não sabe mais separar o joio do trigo. Hoje, o Google
indexa tudo o que encontra pela frente na internet, mesmo
que se trate de uma grande bobagem ou de uma grande mentira.
Qualquer "opinião" é divulgada aos quatro cantos
do mundo. O Google não coloca nos primeiros lugares
os sites da Universidade de Oxford, Cambridge, Harvard ou
da USP, supostamente instituições preocupadas
com a verdade. In veritas é o lema de Harvard.
O Google não usa sequer como critério de seleção
a "qualificação" de quem escreve o texto no
seu algoritmo de classificação. Ph.Ds., especialistas,
o Prêmio Nobel que estudou a fundo o verbete pesquisado
aparecem muitas vezes somente na oitava página classificada
pelo Google. Avaliem o efeito disso sobre a nossa cultura
e a nossa sociedade a longo prazo.
Todos nós
precisamos estar atentos a dois aspectos com relação
a tudo o que ouvimos e lemos:
Se quem
nos fala ou escreve conhece a fundo o assunto, é um
especialista comprovado, pesquisou ele próprio o tema,
sabe do que está falando ou é no fundo um idiota
que ouviu falar e simplesmente está repassando o que
leu e ouviu, sem acrescentar absolutamente nada.
Se o autor
está deliberadamente mentindo.
Aumentar a nossa
vigilância epistêmica é uma necessidade
cada vez mais premente num tempo que todos os gurus chamam
de "Era da Informação".
Discordo profundamente
desses gurus, estamos na realidade na "Era da Desinformação",
de tanto lixo e "ruído" sem significado científico
que nos são transmitidos diariamente por blogs, chats,
podcasts e internet, sem a menor vigilância epistêmica
de quem os coloca no ar. É mais uma conseqüência
dessa visão neoliberal de que todos têm liberdade
de expressar uma opinião, como se opiniões não
precisassem de rigor científico e epistemológico
antes de ser emitidas.
Infelizmente, nossas
universidades não ensinam epistemologia, aquela parte
da filosofia que nos propõe indagar o que é
real, o que dá para ser mensurado ou não, e
assim por diante.
Embora o ser humano
nunca tenha tido tanto conhecimento como agora, estamos na
"Era da Desinformação" porque perdemos nossa
vigilância epistêmica. Ninguém nos ensina
nem nos ajuda a separar o joio do trigo.
Foi por isso que
as "elites" intelectuais da França, Itália e
Inglaterra no século XIV criaram as várias universidades
com catedráticos escolhidos criteriosamente, justamente
para servir de filtros e proteger suas culturas de crendices,
religiões oportunistas e espertos pregando mentiras.
Há 500 anos
nós, professores titulares, livres-docentes e doutores,
nos preocupamos com o método científico, a análise
dos fatos usando critérios científicos, lógica,
estatísticas de todos os tipos, antes de sair proclamando
"verdades" ao grande público. Hoje, essa elite não
é mais lida, prestigiada, escolhida, entrevistada nem
ouvida em primeiro lugar. Pelo contrário, está
lentamente desaparecendo, com sérias conseqüências.
Stephen Kanitz
é administrador (www.kanitz.com.br)
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