Ensaio:Roberto Pompeu de Toledo Sobras da história (2)
Ioiô da Professora
era a prova viva
de que a Guerra de Canudos terminou
com derrota para todos
"Seu Ioiô?
Aquele velho branco?" Assim reagiu a senhora a quem o escrevinhante
que vos fala pedira informações, numa rua de
Euclides da Cunha, no sertão da Bahia, na primeira
das três vezes em que por lá esteve para reportagens
sobre a Guerra de Canudos. "Velho branco" é uma identificação
precisa. João Siqueira Santos, o "Ioiô da Professora",
era um velhinho miúdo, óculos de grossas lentes
e armação grande demais para o tamanho do rosto,
pele branca e vasta e decisiva cabeleira branca. Morava numa
casinha verde, conforme informou a senhora da rua. A casinha
era muito procurada por pesquisadores, jornalistas e curiosos
interessados na Guerra de Canudos. Beber na fonte representada
por seu Ioiô dava a ilusão de ouvir uma testemunha
do conflito, 100 anos depois. Ioiô da Professora (ao
modo do sertão, o apelido o define como o filho de
uma professora da cidade) morreu no mês passado, aos
98 anos, na Euclides da Cunha natal, cidade a 80 quilômetros
de Canudos e na região por onde perambularam tanto
Antônio Conselheiro e seus fiéis quanto as tropas
em seu encalço.
O pai de Ioiô
hospedara em casa, no famigerado ano de 1897, tempo em que
Euclides da Cunha ainda se chamava Cumbe, oficiais que dali
preparavam os ataques ao arraial conselheirista. Ioiô
viria a se casar com a neta do "coronel" José Américo
Camelo de Sousa Velho, o maior fazendeiro do Cumbe e inimigo
visceral de Antônio Conselheiro, a quem atribuía
em suas cartas, entre outros epítetos, os de "Conselheiro
da Malvadeza", "monstro horroroso do Brasil" e "danado piolhento".
Ioiô cresceu ouvindo as histórias que recontaria
interminavelmente aos freqüentadores da casinha verde.
Ele não era o único. João de Régis,
João Butão, Paulo Monteiro, Antônio de
Isabel, dona Ana do Bendegó (os nomes são preciosos)
formavam um time de testemunhas, não diretas, que estas
já haviam desaparecido, mas, digamos, testemunhas de
segundo grau, de um dos episódios mais interessantes,
trágicos e emblemáticos da história do
Brasil. Eram pessoas que haviam convivido com pessoas que
haviam vivido a guerra. Ioiô era, entre eles, o último
sobrevivente. Agora é se contentar com as testemunhas
de terceiro grau, as que conviveram com pessoas que conviveram
com pessoas que viveram a guerra se é que dá
para se contentar com elas.
"Quando um negro
velho morre na África, incendeia-se uma biblioteca."
A frase, de Ortega y Gasset, era uma das preferidas do historiador
José Calasans (1915-2001), mestre supremo da "canudologia"
baiana que se seguiu a Os Sertões, de Euclides
da Cunha, e um dos descobridores de Ioiô da Professora.
Não é bem o caso de Ioiô porque a "biblioteca"
contida em sua memória se conserva nas dezenas de livros
e artigos que se alimentaram nela. Curioso foi acompanhar
a utilização que Ioiô deu à "biblioteca"
à medida que o sucesso entre os ouvintes lhe rendia
desenvoltura crescente. Ele enfeitava as histórias
com recursos de retórica e de teatro. "Vamos arretirar.
Vem aí um Treme-Treme que não arrespeita sertanejo",
dizia, caprichando na entonação, para descrever
a reação à chegada do coronel Moreira
César, o ferrabrás do Exército que prometia
arrasar Canudos (e ali acabou morto). Punha nos lábios
do Conselheiro frases como: "Esperem que vou fazer um milagre".
Caprichava nos detalhes: "Aí o conselheiro chamou Pajeú.
Veio Pajeú. Ele disse: Sente-se". Ou então:
"Ele entrou, tirou o chapéu...". Ou: "Vá buscar
o padre Sabino, disse Moreira César". Pausa. "A ordem
foi seca." Ioiô, um velhinho elétrico, sentava,
levantava e gesticulava, enquanto desfiava seus relatos.
Os floreios, mais
o fato de que misturava as memórias pessoais com trechos
de Os Sertões, como notou o historiador Marco
Antonio Villa, tornaram-no fonte menos confiável. Mas,
no que perdeu em credibilidade, ganhou em fascínio.
Não tinha a oferecer simples depoimentos. Encenava
performances. Através delas, fazia a guerra continuar,
por outros meios. Pena que estes eram apenas fugazes momentos
de glória. Ao se despedir do ouvinte, Ioiô voltava
a abrir o botequim (a "bodega", como se diz por lá)
que mantinha na parte da frente da casa. Ou então a
tocar a vida com a mulher (a neta do "coronel" José
Américo), que, "doente das pernas", não saía
da cama e do quarto se comunicava aos gritos com o marido.
A casa era escura e suja. Na bodega, Ioiô atendia os
cachaceiros da vizinhança.
Saía-se
da casinha verde com a convicção de que a Guerra
de Canudos terminara com derrota para todos os lados. Foi
uma vergonha para o Exército, autor de um massacre
contra gente simples e abandonada, uma tragédia para
os seguidores do Conselheiro e, quanto à terceira parte
envolvida potentados sertanejos como o "coronel" José
Américo , mostrou que a posse de um latifúndio
e o controle das rédeas do poder não impedem
que, duas gerações depois, a neta venha a ser
condenada a uma triste cama, num ambiente insalubre, enquanto
o marido vende cachaça. Na bodega de seu Ioiô,
até alguns anos atrás, a dose custava 50 centavos.