O
trompete deu ao jazz alguns de seus maiores momentos. É
um instrumento central nesse gênero de música.
Desde o começo do século XX, houve sutis transformações
na maneira de tocá-lo. Os responsáveis por essas
mudanças de Louis Armstrong a Miles Davis
imprimiram seu nome na história. Com auxílio
da tecnologia, um novo estilo de tocar trompete está
agora em gestação. O instrumento é ligado
a um aparelho eletrônico, que produz uma espécie
de "eco" e proporciona ao músico maior liberdade para
improvisar. "Nunca soube de um trompetista que fizesse esse
tipo de fusão", diz o pianista Herbie Hancock, uma
das maiores estrelas do jazz contemporâneo. A novidade,
que começa a causar discussão entre os músicos
e nas publicações especializadas, pôde
ser vista recentemente no Brasil, durante o festival Tudo
É Jazz, que aconteceu em Ouro Preto. Não bastasse
a ousadia musical, causa surpresa saber quem está por
trás dela. Não, não se trata de um músico
negro americano mas de uma mulher branca, e canadense.
Seu nome é Ingrid Jensen, uma das principais solistas
na orquestra da compositora Maria Schneider, ela mesma uma
das personalidades mais provocadoras do jazz atual.
O primeiro jazzista
a explorar as múltiplas sonoridades do trompete foi
Louis Armstrong. Foi com ele em mãos que Armstrong,
no começo do século XX, começou a expandir
as fronteiras de um tipo de música cujo cerne viria
a ser a improvisação. Nas décadas seguintes,
o instrumento ganhou o reforço de outros inovadores,
como Dizzy Gillespie, um dos pais do bebop, e Miles Davis,
com seu toque puro e contido. Nos últimos tempos, contudo,
o trompete se tornou símbolo de ortodoxia, graças
a Wynton Marsalis, que, além de ser um virtuose no
instrumento, é uma das figuras mais poderosas do jazz,
defendendo com zelo a teoria de que nenhuma inovação
nessa seara, depois dos anos 60, merece atenção.
Ingrid, claro, discorda. "Acreditar na estagnação
só leva a mais estagnação", diz ela.
Desafiar Wynton
Marsalis requer coragem. Mais ainda em se tratando de uma
mulher. O jazz reserva um espaço a cantoras e pianistas
que com freqüência se convertem em símbolos
sexuais. Muito mais raro é encontrá-las à
frente de outros instrumentos tradicionais do gênero,
como bateria, contrabaixo, saxofone ou trompete. "Existe,
sim, preconceito. Não há mulheres na capa de
revistas especializadas, e há poucas na escalação
de grandes festivais", diz Ingrid. Na orquestra de Maria Schneider,
Ingrid aprendeu a temperar sua música com ritmos brasileiros
e toques de flamenco. Sua faceta inovadora obedece a um critério
rigoroso. "Há músicos que levam um computador
para o palco e deixam que ele tome conta. Para mim, é
importante preservar a melodia acima de tudo." Casada, 40
anos, a trompetista sabe jogar duro, quando necessário,
no cenário competitivo do jazz. "Sei que faço
um trabalho importante", afirma. Mas sua música é
suave.