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consumada do monarca absoluto, Henrique VIII parece ter reinado
ao sabor de seus caprichos na Inglaterra do século
XVI. Rompeu com o papa e fundou uma nova igreja só
para obter o divórcio de sua primeira mulher, Catarina
de Aragão. No que concerne às práticas
políticas, a série The Tudors (Estados
Unidos), que começa a ser exibida no domingo 7 pelo
canal por assinatura People+Arts, retrata o monarca dentro
do figurino tradicional. O Henrique VIII interpretado pelo
irlandês Jonathan Rhys Meyers o inescrupuloso
arrivista social do filme Match Point é
um homem autoritário, cruel e inclemente com os inimigos
(um deles é decapitado já no segundo episódio).
A principal diferença está na forma física
do rei, muito diferente das dimensões robustas que
se vêem nos retratos históricos. A série
não perde uma só oportunidade de exibir os dotes
de modelo-e-ator de Rhys Meyers, seja em uma improvável
luta livre com o rei Francisco I, da França, seja em
sucessivas performances no leito real. Entre uma e outra conspiração
palaciana todas, aliás, envolventes e bem urdidas
, o protagonista de The Tudors sempre encontra
um tempinho para conhecer mais de perto a nova dama de companhia
da rainha. O People+Arts até programou uma versão
light, sem as cenas eróticas, que será exibida
nas quartas-feiras. Cada episódio censurado tem, em
média, oito minutos menos que a edição
integral. A primeira temporada da série compreende
dez episódios ao todo, portanto, são
uma hora e vinte minutos de sexo.
A escalação
de Rhys Meyers para o papel foi ironizada pela crítica
e pelos historiadores. Seria uma liberdade ficcional exagerada
dar um tórax bem torneado e beiços lascivos
ao balofo Henrique VIII? Os produtores da série dizem
que não. Argumentam que o jovem Henrique era considerado
um dos monarcas mais atraentes de seu tempo. E o homem era
um esportista, sempre bem disposto para uma boa caçada.
A desculpa não cola. A ação da série
começa por volta de 1520, quando Henrique já
tinha quase 30 anos seria de esperar que pelo menos
os primeiros sinais de sua monumental barriga já aparecessem.
A razão para descartar a fidelidade histórica
quanto às medidas da cintura real é bem prosaica:
o público gosta de gente bonita especialmente
quando há cenas de sexo na jogada. "Ninguém
quer ver um drama histórico com um barbudo que pesa
100 quilos. Heróis não têm essa aparência",
disse Rhys Meyers em uma entrevista ao Sunday Times,
de Londres.
Henrique VIII não
chega a ser propriamente um herói. Os personagens da
série, aliás, não se dividem claramente
em bandidos e mocinhos. De certo modo, são todos bandidos,
tipos mesquinhos e interesseiros lutando por mais poder. O
título plural da série, aliás, pode ser
visto como uma homenagem a uma de suas mais inusitadas inspirações:
Os Sopranos. Os conselheiros, os nobres e os membros
do clero que cercam Henrique VIII comportam-se todos como
mafiosos avant la lettre. A exceção solitária
é o filósofo Thomas More (Jeremy Northam), um
católico humanista que mantém sua família
longe da corte no esforço de criar os filhos em um
ambiente que não seja contaminado pela corrupção.
Em um diálogo um tanto artificioso da série,
o rei comenta com seu conselheiro filósofo que prefere
O Príncipe, de Maquiavel, a Utopia, do
próprio More. "É mais realista e menos... utópico",
conclui o rei. More, aliás, seria preso e executado
em 1535, por sua recusa em aceitar Henrique VIII como chefe
da igreja inglesa. Mas isso não é matéria
da primeira temporada, que se encerra em 1530.
Divulgação
Henrique, o sarado, com a espevitada
Ana Bolena: mais de uma hora de cenas de sexo
O reinado da dinastia
Tudor começou em 1485, com Henrique VII, e se estendeu
até a morte de Elizabeth I filha de Henrique
VIII e sua segunda mulher, Ana Bolena (interpretada na série
pela espevitada inglesa Natalie Dormer) , em 1603. O
reinado mais notável do período é, por
todos os títulos, o de Elizabeth. A "rainha virgem"
pacificou um país dilacerado por conflitos religiosos
e teve ainda a sorte de viver uma época de florescimento
literário quase milagroso, com dramaturgos como Marlowe
e Shakespeare disputando as platéias de Londres. Os
feitos de Henrique VIII são modestos em comparação.
Mas ele teve sucesso em fazer da Inglaterra uma força
importante nas complicadas disputas geopolíticas da
Europa, ora cortejando os interesses franceses, ora se aproximando
do poderoso Carlos V, rei da Espanha e do Sacro Império
Romano. Contemporâneo de Lutero por quem não
nutria simpatias , acabou se tornando o grande agente
da Reforma na Inglaterra, rompendo com a Igreja Católica
no episódio do divórcio. A despeito de sua eventual
truculência política, Henrique VIII também
tinha seus fumos humanistas. Gostava de se cercar de artistas
e filósofos além de Thomas More, a série
reserva algumas cenas secundárias a Thomas Tallis,
um importante compositor de música sacra.
Criado por Michael
Hirst, roteirista do filme Elizabeth (uma patacoada
histórica que só vale pelo desempenho de Cate
Blanchett), The Tudors reconstitui a época com
alguma liberdade no tratamento de fatos e datas. Os motivos
sexuais de Henrique VIII para romper com Catarina e a Igreja
ganham mais destaque do que a política ou a religião.
O nascimento de Henry FitzRoy, filho ilegítimo do rei,
se deu em 1519, dois anos antes da execução
do duque de Buckingham, acusado de traição.
Na série, porém, os dois eventos são
apresentados como simultâneos, para estabelecer um manjado
mas eficiente contraste entre nascimento e morte. São
adaptações admissíveis em uma série
que, afinal, também tem de divertir o espectador (e
o faz muito bem). Outras mudanças, no entanto, beiram
o grosseiro. Já se anuncia que, na segunda temporada,
Henrique VIII tentará obter o seu divórcio em
negociações com Paulo III quando, na
verdade, o papa da época era Clemente VII. Por que
a alteração? Bem, na primeira temporada, nas
poucas cenas em que Clemente VII aparece, ele é interpretado
pelo desconhecido Ian McElhinney. A produção
conseguiu um ator de maior peso para a nova temporada e por
isso resolveu adiantar a troca de pontífice. Peter
O'Toole será prematuramente ungido como Paulo III.
Triângulo
real
Na sua primeira
temporada, a série The Tudors acompanha
as tramas da corte inglesa na década de 1520
com ênfase na vida amorosa do rei
Henrique
VIII (1491-1547)
Segundo monarca
da dinastia Tudor, reinou de 1509 até a morte.
Seus retratos mostram uma obesidade imponente
mas, na série, é interpretado por Jonathan
Rhys Meyers, que não perde a oportunidade de
exibir a barriga de tanquinho
Catarina
de Aragão (1485-1536)
Filha dos
reis espanhóis Isabel I e Fernando II, Catarina
teve seis filhos com Henrique VIII, mas só Maria
sobreviveu à primeira infância. Frustrado
com a falta de um herdeiro, Henrique VIII quis se divorciar
de Catarina. O papa Clemente VII não lhe concedeu
o divórcio
Ana Bolena
(1507-1536)
Maria Bolena
passou pela cama do rei mas Henrique VIII se
encantou com sua irmã, Ana. Para se casar com
ela, rompeu com o papa e fundou a Igreja Anglicana.
Ana que seria decapitada foi mãe
da futura rainha Elizabeth I