A paquistanesa Mukhtar
Mai, uma vítima da
violência contra mulheres em seu país, narra
em livro a história de seu renascimento
Ronaldo Soares
Mukhtar: a revolta e a
dor de ser
estuprada por quatro homens
diante de toda a sua aldeia
"Às
vezes, basta que dois
homens entrem em disputa
por um problema qualquer
para que um deles se
vingue na mulher do outro.
Nas aldeias, é muito comum
que os próprios homens
façam justiça, invocando o
princípio do olho por olho.
O motivo é sempre uma
questão de honra, e tudo
é permitido a eles. Cortar
o nariz de uma esposa,
queimar uma irmã, violar
a mulher do vizinho."
A
paquistanesa Mukhtar Mai apertou seu exemplar do Corão
contra o peito quando ouviu, na presença de mais de
100 homens, a sentença que o conselho de sua aldeia
acabara de lhe impor: um estupro coletivo. Integrante de uma
casta inferior, Mukhtar fora até lá apenas para
pedir clemência para o irmão mais jovem. Era
ele o réu no julgamento. Estava prestes a ser condenado
à morte por ter se envolvido com uma mulher de um clã
superior, fato nunca inteiramente esclarecido. O líder
tribal que era o chefe do tal clã ignorou
o pedido de Mukhtar, então com 28 anos, e ordenou a
punição. Ela foi imediatamente arrastada por
quatro homens armados, como "uma cabra que vai ser abatida",
segundo sua própria descrição. Eles a
agarraram pelos braços e puxaram suas roupas, o xale
e o cabelo. Indiferentes a seus gritos e súplicas,
levaram-na para dentro de um estábulo vazio e, no chão
de terra batida, violentaram-na, um após o outro. "Não
sei quanto tempo durou essa tortura infame, uma hora ou uma
noite. Jamais esquecerei o rosto desses animais", conta
a paquistanesa. O impressionante relato de Mukhtar, colhido
pela jornalista francesa Marie-Thérèse Cuny,
está em Desonrada (tradução
de Clóvis Marques; Editora Best Seller; 154 páginas;
29,90 reais), que acaba de ser lançado no Brasil. Mais
do que o desfecho de uma querela tribal, o livro narra como
Mukhtar transformou sua tragédia pessoal em uma causa:
a defesa dos direitos das mulheres em seu país. E,
com isso, tornou-se um símbolo da luta das mulheres
no mundo islâmico.
Nos
três dias seguintes ao estupro, permaneceu trancada
em seu quarto. Não conseguia comer nem falar. Como
normalmente ocorre com as mulheres vítimas de violência
sexual em seu país, pensou em suicidar-se. "Até
hoje eu sinto a dor, mas aprendi a mitigar esse sofrimento",
disse Mukhtar a VEJA. "O que me conforta é que
abri uma escola para meninas. Quando vejo as alunas estudando
e brincando, eu me sinto honrada, é isso que atenua
a minha dor." A camponesa pobre e analfabeta, nascida
Mukhtaran Bibi, virou uma ativista conhecida mundo afora pelo
codinome Mukhtar Mai, que significa "grande irmã
respeitada" em urdu, o idioma oficial de seu país.
Seu livro, publicado no ano passado, é o terceiro na
lista dos mais vendidos na França. Nele, conta como
se deu essa transformação. Narra sua luta por
justiça e relata as barbaridades cometidas contra mulheres
em seu país.
A tragédia
de Mukhtar teria virado apenas mais um episódio sem
conseqüências na longa história de violações
dos direitos humanos no Paquistão. O que mudou seu
destino foi uma reportagem, publicada em um jornal da região,
contando sua história. A notícia correu mundo,
e as autoridades locais se viram forçadas a agir. A
polícia a procurou em casa. E ela, numa atitude corajosa,
não recuou diante da oportunidade de denunciar seus
agressores. Foram levados a julgamento os quatro estupradores
e outros dez responsáveis pela sentença ilegal.
Embora comum no cotidiano das pequenas aldeias paquistanesas,
esse tipo de violência é crime segundo as leis
do país. Uma decisão de segunda instância
absolveu cinco dos acusados. Mukhtar recorreu, e atualmente
o caso tramita na Suprema Corte do Paquistão. A batalha
judicial lhe rendeu ameaças de morte e custou a vida
de um primo, assassinado pelo clã inimigo.
Mukhtar não
desafiou apenas o poder local em Meerwala, um vilarejo de
agricultores distante 600 quilômetros da capital do
Paquistão, Islamabad, onde quase não há
comércio e que só recentemente passou a ter
energia elétrica. Ela iniciou um movimento que contesta
a condição feminina em seu país e questiona
hábitos ancestrais como a jirga, conselho tribal
que a condenou ao estupro. Em alegações de desonra,
a solução encontrada muitas vezes é impor
vergonha à família, por meio de suas mulheres.
Elas também são usadas como moeda de troca
duas meninas podem ser dadas a um clã rival para compensar
um homicídio, por exemplo. No caso de Mukhtar, tratou-se
de um episódio inédito de estupro coletivo.
Uma violência ainda maior do que de costume, imposta
apenas porque a casta de seus agressores controlava a assembléia
tribal.
Embora o Corão,
o livro sagrado dos muçulmanos, ensine que, aos olhos
de Alá, homens e mulheres são iguais, em algumas
culturas o fundamentalismo distorceu essa visão. E
produziu situações que chocam o Ocidente, como
meninas proibidas de freqüentar a escola, mulheres impedidas
de trabalhar ou condenadas a penas de apedrejamento. "As
mulheres reagem de maneira submissa a atos de violência.
Encaram isso como se fosse destino", diz Mukhtar. Para
o jornal The New York Times, ela é "a Rosa
Parks do século XXI", comparação
feita com a americana-símbolo do movimento dos direitos
civis nos Estados Unidos. Ainda que movida pela revolta, Mukhtar
apostou na educação como forma de mudar a realidade
em seu país. Na sua e na de outras meninas na mesma
situação. Ela aprendeu a ler e escrever, abriu
outras três escolas e começou a dar apoio a mulheres
vítimas de violência. Seu maior inimigo passou
a ser o obscurantismo.