Há quatro
anos, a aposentada Ilda Yoko Guiriko cumpre a mesma rotina.
Todos os dias, às 7 da manhã, ela leva a mãe,
Eiko, de 77 anos, ao jogo de gateball, esporte praticado
principalmente por japoneses idosos. Às 8 horas, Ilda
está na casa dos padrinhos, Kiyoshi, de 76 anos, e
Tsuyuko, de 72, para passear no parque. Durante uma longa
e lenta caminhada, a afilhada ouve, pela enésima vez,
as histórias de quando os dois moravam no Japão.
Às 11 horas, Ilda está de volta a sua casa.
É quando o dia, de fato, começa para ela. Com
o marido e os dois irmãos trabalhando no Japão
e os três filhos estudando fora, cabe a Ilda a tarefa
de cuidar da mãe e dos padrinhos. Ela reconhece que,
por vezes, ficava sem paciência. "Já me peguei
fazendo coisas por eles, sem necessidade, só para ganhar
tempo", diz. Hoje, Ilda deixa que os três sigam seu
próprio ritmo. À mesa, por exemplo, eles se
servem sozinhos ainda que as refeições
agora durem uma hora, o dobro de antes. Essa mudança
de comportamento é essencial para preservar a autonomia
de Eiko, Kiyoshi e Tsuyuko e evitar um maior desgaste
emocional da filha e afilhada. Ilda aprendeu a lição
num curso da Universidade de São Paulo (USP) para cuidadores.
O cuidador é a pessoa encarregada de ajudar o idoso
que tem dificuldade de cumprir atividades corriqueiras, como
trocar de roupa, fazer a higiene, tomar remédios, ir
ao médico ou passear.
Como ocorreu nos
Estados Unidos e em alguns países da Europa nos últimos
cinco anos, começam a espalhar-se no Brasil cursos
para cuidadores. O da USP dura dois meses e é ministrado
por uma equipe composta de médicos, enfermeiros, nutricionistas,
psicólogos e terapeutas ocupacionais. As duas primeiras
turmas tiveram as suas 200 vagas preenchidas em poucos dias.
Com o aumento da expectativa de vida, a procura tende a crescer.
Atualmente, o contingente de brasileiros com mais de 60 anos
soma 16 milhões de pessoas. Segundo estimativas do
Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), 13%
deles têm dificuldade para executar pelo menos uma atividade
diária. Em vinte anos, eles serão o dobro.
Os laços
sanguíneos entre o cuidador e o idoso são apontados
como um problema adicional. Um levantamento feito pela empresa
americana de recursos humanos Hewitt Associates mostra que,
quando o acompanhante é um parente próximo,
em 62% dos casos ele sofre alterações em sua
rotina profissional como ter de sair mais cedo do escritório
ou mesmo faltar ao trabalho. "A intimidade entre familiares
atrapalha", diz Ana Teresa de Abreu Ramos Cerqueira, psicóloga
da Faculdade de Medicina, do campus de Botucatu, da Universidade
Estadual Paulista (Unesp). "É comum, por exemplo, um
pai se recusar a seguir as orientações de um
filho." Além de ensinarem a resolver questões
comezinhas, os cursos orientam os cuidadores a lidar melhor
com essas dificuldades de caráter mais subjetivo.
"Procuramos também mostrar ao aluno que é
preciso respeitar os próprios limites", diz Yeda Duarte,
coordenadora do curso da USP. Raramente ele percebe (e reconhece)
que está sobrecarregado do ponto de vista emocional.
Os primeiros sintomas são físicos. Sinais como
falta de apetite e dores de cabeça crônicas podem
ser indício de que está na hora de delegar tarefas.
Se nada for feito, a situação avança
para stress e depressão profundos. Já há
até um quadro clínico descrito como "síndrome
do cuidador".
Fazem parte do
processo natural do envelhecimento as confusões de
memória e as dificuldades motoras. Tudo fica ainda
mais difícil quando o idoso é acometido por
um distúrbio como a doença de Alzheimer. A Associação
Brasileira de Alzheimer oferece cursos específicos
para quem tem de cuidar de uma vítima da doença.
Ensina-se, por exemplo, que, por mais alheia que ela esteja
da realidade, os carinhos, beijos e abraços devem ser
constantes. As trocas afetuosas melhoram a qualidade de vida
do doente e ajudam a apaziguar a tristeza do acompanhante
diante do parente querido que perderá totalmente a
memória. Um estudo publicado na revista americana The
Journal of Immunology revela que o stress das pessoas
que servem de cuidadores a pacientes de Alzheimer costuma
ser tão grande que resulta, muitas vezes, numa baixa
do sistema imunológico o que os deixa mais propensos
a uma série de infecções oportunistas.
O desgaste emocional com um parente que sofre de Alzheimer
rouba, em média, oito anos da vida de um cuidador.
Por isso, aprender a tomar conta dos outros requer, acima
de tudo, aprender a cuidar de si.
VELHICE COM LUXO
Roberto Setton
Hiléa: de 8 000 a 13 000
reais por mês
Falta de tempo é
uma das razões que levam uma família a
renunciar aos cuidados de um parente idoso e interná-lo
numa instituição. São comuns na
Europa e nos Estados Unidos centros de convivência
de luxo que oferecem no mesmo espaço serviços
hospitalares, atividades de lazer, culturais e hotelaria.
O primeiro desses centros acaba de ser inaugurado no
Brasil. Batizado de Hiléa e localizado no bairro
paulistano do Morumbi, tem 15 000 metros quadrados e
capacidade para 119 moradores. Cada uma das suítes
possui telas acopladas aos telefones, para que o idoso
possa visualizar seu interlocutor. Todo o prédio
é equipado com dispositivos de segurança,
como barras de apoio para facilitar a locomoção.
O hóspede e suas visitas têm liberdade
para entrar e sair do Hiléa a qualquer hora.
Na área de lazer, um dos espaços reproduz
uma praça típica de cidades do interior
nos anos 50. "Os idosos que hoje têm mais de 70
anos eram jovens na década de 50. Desse modo,
criar para eles um ambiente que lembre a juventude deve
proporcionar-lhes uma sensação de conforto",
diz Cristiane D'Andrea, administradora hospitalar e
uma das idealizadoras do projeto. O complexo também
conta com piscinas e salas para aulas de trabalhos manuais,
filosofia, culinária e fotografia. O quadro de
pessoal será composto de 100 cuidadores, praticamente
um para cada paciente. O Hiléa é um luxo
para muito poucos. A mensalidade varia de 8 000 a 13
000 reais para os residentes e a partir de 2 000 reais
para o idoso apenas passar o dia. Mas a convivência
familiar perdida para sempre essa não
tem preço.