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3 de outubro de 2007
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Comportamento
Lições em família

Cuidar de parentes idosos não é fácil. Tanto
que há cursos para amenizar o desgaste
físico e emocional de todos os envolvidos


Adriana Dias Lopes

Roberto Setton
Ilda, ao fundo, com o padrinho, a madrinha e a mãe: nas aulas, ela aprendeu a respeitar o ritmo dos velhinhos


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Quadro: Dia-a-dia mais leve

Há quatro anos, a aposentada Ilda Yoko Guiriko cumpre a mesma rotina. Todos os dias, às 7 da manhã, ela leva a mãe, Eiko, de 77 anos, ao jogo de gateball, esporte praticado principalmente por japoneses idosos. Às 8 horas, Ilda está na casa dos padrinhos, Kiyoshi, de 76 anos, e Tsuyuko, de 72, para passear no parque. Durante uma longa e lenta caminhada, a afilhada ouve, pela enésima vez, as histórias de quando os dois moravam no Japão. Às 11 horas, Ilda está de volta a sua casa. É quando o dia, de fato, começa para ela. Com o marido e os dois irmãos trabalhando no Japão e os três filhos estudando fora, cabe a Ilda a tarefa de cuidar da mãe e dos padrinhos. Ela reconhece que, por vezes, ficava sem paciência. "Já me peguei fazendo coisas por eles, sem necessidade, só para ganhar tempo", diz. Hoje, Ilda deixa que os três sigam seu próprio ritmo. À mesa, por exemplo, eles se servem sozinhos – ainda que as refeições agora durem uma hora, o dobro de antes. Essa mudança de comportamento é essencial para preservar a autonomia de Eiko, Kiyoshi e Tsuyuko – e evitar um maior desgaste emocional da filha e afilhada. Ilda aprendeu a lição num curso da Universidade de São Paulo (USP) para cuidadores. O cuidador é a pessoa encarregada de ajudar o idoso que tem dificuldade de cumprir atividades corriqueiras, como trocar de roupa, fazer a higiene, tomar remédios, ir ao médico ou passear.

Como ocorreu nos Estados Unidos e em alguns países da Europa nos últimos cinco anos, começam a espalhar-se no Brasil cursos para cuidadores. O da USP dura dois meses e é ministrado por uma equipe composta de médicos, enfermeiros, nutricionistas, psicólogos e terapeutas ocupacionais. As duas primeiras turmas tiveram as suas 200 vagas preenchidas em poucos dias. Com o aumento da expectativa de vida, a procura tende a crescer. Atualmente, o contingente de brasileiros com mais de 60 anos soma 16 milhões de pessoas. Segundo estimativas do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), 13% deles têm dificuldade para executar pelo menos uma atividade diária. Em vinte anos, eles serão o dobro.

Os laços sanguíneos entre o cuidador e o idoso são apontados como um problema adicional. Um levantamento feito pela empresa americana de recursos humanos Hewitt Associates mostra que, quando o acompanhante é um parente próximo, em 62% dos casos ele sofre alterações em sua rotina profissional – como ter de sair mais cedo do escritório ou mesmo faltar ao trabalho. "A intimidade entre familiares atrapalha", diz Ana Teresa de Abreu Ramos Cerqueira, psicóloga da Faculdade de Medicina, do campus de Botucatu, da Universidade Estadual Paulista (Unesp). "É comum, por exemplo, um pai se recusar a seguir as orientações de um filho." Além de ensinarem a resolver questões comezinhas, os cursos orientam os cuidadores a lidar melhor com essas dificuldades de caráter mais subjetivo. "Procuramos também mostrar ao aluno que é preciso respeitar os próprios limites", diz Yeda Duarte, coordenadora do curso da USP. Raramente ele percebe (e reconhece) que está sobrecarregado do ponto de vista emocional. Os primeiros sintomas são físicos. Sinais como falta de apetite e dores de cabeça crônicas podem ser indício de que está na hora de delegar tarefas. Se nada for feito, a situação avança para stress e depressão profundos. Já há até um quadro clínico descrito como "síndrome do cuidador".

Fazem parte do processo natural do envelhecimento as confusões de memória e as dificuldades motoras. Tudo fica ainda mais difícil quando o idoso é acometido por um distúrbio como a doença de Alzheimer. A Associação Brasileira de Alzheimer oferece cursos específicos para quem tem de cuidar de uma vítima da doença. Ensina-se, por exemplo, que, por mais alheia que ela esteja da realidade, os carinhos, beijos e abraços devem ser constantes. As trocas afetuosas melhoram a qualidade de vida do doente e ajudam a apaziguar a tristeza do acompanhante diante do parente querido que perderá totalmente a memória. Um estudo publicado na revista americana The Journal of Immunology revela que o stress das pessoas que servem de cuidadores a pacientes de Alzheimer costuma ser tão grande que resulta, muitas vezes, numa baixa do sistema imunológico – o que os deixa mais propensos a uma série de infecções oportunistas. O desgaste emocional com um parente que sofre de Alzheimer rouba, em média, oito anos da vida de um cuidador. Por isso, aprender a tomar conta dos outros requer, acima de tudo, aprender a cuidar de si.

 

VELHICE COM LUXO


Roberto Setton
Hiléa: de 8 000 a 13 000 reais por mês

Falta de tempo é uma das razões que levam uma família a renunciar aos cuidados de um parente idoso e interná-lo numa instituição. São comuns na Europa e nos Estados Unidos centros de convivência de luxo que oferecem no mesmo espaço serviços hospitalares, atividades de lazer, culturais e hotelaria. O primeiro desses centros acaba de ser inaugurado no Brasil. Batizado de Hiléa e localizado no bairro paulistano do Morumbi, tem 15 000 metros quadrados e capacidade para 119 moradores. Cada uma das suítes possui telas acopladas aos telefones, para que o idoso possa visualizar seu interlocutor. Todo o prédio é equipado com dispositivos de segurança, como barras de apoio para facilitar a locomoção. O hóspede e suas visitas têm liberdade para entrar e sair do Hiléa a qualquer hora. Na área de lazer, um dos espaços reproduz uma praça típica de cidades do interior nos anos 50. "Os idosos que hoje têm mais de 70 anos eram jovens na década de 50. Desse modo, criar para eles um ambiente que lembre a juventude deve proporcionar-lhes uma sensação de conforto", diz Cristiane D'Andrea, administradora hospitalar e uma das idealizadoras do projeto. O complexo também conta com piscinas e salas para aulas de trabalhos manuais, filosofia, culinária e fotografia. O quadro de pessoal será composto de 100 cuidadores, praticamente um para cada paciente. O Hiléa é um luxo para muito poucos. A mensalidade varia de 8 000 a 13 000 reais para os residentes e a partir de 2 000 reais para o idoso apenas passar o dia. Mas a convivência familiar perdida para sempre – essa não tem preço.

 

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