Documentos indicam
mais fraudes de autoria do primatologista holandês Marcus van Roosmalen
Leonardo
Coutinho
Eraldo
Peres/AP
Marcus
van Roosmalen: ele alega que é vítima de uma conspiração
Em
duas décadas de trabalho na Amazônia, o primatologista
holandês Marcus van Roosmalen descobriu cinco espécies
de macaco. É um recorde que lhe rendeu fama mundial.
Com base nisso, a comunidade científica indignou-se
em junho passado, quando a Justiça Federal do Amazonas
condenou Van Roosmalen a quinze anos e nove meses de prisão
por peculato e crime ambiental. A Sociedade Brasileira para
o Progresso da Ciência convocou uma cruzada contra a
"criminalização da pesquisa científica".
O jornal americano The New York Times classificou o
julgamento como "paranóia". O diário inglês
The Guardian declarou que o holandês foi vítima
da "xenofobia" dos brasileiros. O também inglês
The Independent afirmou que Van Roosmalen foi punido
por "cuidar de macacos órfãos". Depois de 53
dias de cadeia, o cientista conseguiu um habeas corpus para
aguardar novo julgamento em liberdade. Uma vez fora da prisão,
Van Roosmalen se disse alvo de uma conspiração
urdida por madeireiros e pelo governo brasileiro. Documentos
obtidos por VEJA corroboram, porém, que o holandês
levava uma vida dupla: dedicava uma parte de seu tempo à
ciência e outra a enriquecer à custa dos cofres
públicos.
Um dos documentos é a conclusão do processo administrativo que resultou
na demissão de Van Roosmalen do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia
(Inpa), onde ele trabalhou de 1986 a 2003. O Inpa descobriu que o cientista usava
o nome do instituto para engordar seu patrimônio pessoal. Um exemplo disso
é um convênio firmado em 1993 por Van Roosmalen com a produtora inglesa
de TV Survival Anglia, para a realização de três documentários
sobre a Amazônia. Embora o Inpa jamais o tenha autorizado a negociar nenhum
acordo em seu nome, o primatologista aparece no contrato como procurador do instituto.
A Survival Anglia pagou 95.000 dólares a Van Roosmalen. A fraude foi descoberta
em 1998 por um executivo da produtora, Nicholas Gordon. Em 2002, ele relatou o
caso à Polícia Federal. Só então o Inpa tomou conhecimento
de que tinha sido envolvido em um golpe. Gordon contou à polícia
que não revelou o crime antes porque tinha medo do holandês. "Ele
disse que me mataria se eu sujasse o nome dele", afirmou o executivo, que sucumbiu
a um ataque cardíaco em 2004.
O Ministério Público estuda denunciar Van Roosmalen por essa e outra
fraude semelhante, na qual também aparece a Survival Anglia. A produtora
inglesa pretendia remunerar o Inpa pelos tais documentários, doando-lhe
terras na Amazônia. Por orientação do primatologista, as escrituras
foram feitas no nome dele próprio. Mais: parte da área fica em uma
reserva indígena. Os procuradores avaliam, agora, se já têm
provas suficientes para voltar a processar Van Roosmalen por peculato, grilagem
de terras e falsificação de documentos, o que pode lhe render uma
nova condenação de até dezoito anos de cadeia. A advogada
do primatologista, Creuza Cohen, diz que seu cliente é vítima da
Justiça brasileira. Mas, ao que tudo indica, Van Roosmalen descobriu muito
mais que macacos na Amazônia.