Budistas perdem
a paciência com uma das mais corruptas e brutais ditaduras da Ásia
Diogo
Schelp
AP
Monges
budistas em manifestação contra o governo: o regime reagiu com tiros e bombas
Quando até
os monges budistas perdem sua tradicional fleuma, cultivada com anos de meditação
e reclusão, é sinal de que o cenário político se tornou
realmente insuportável. Em Mianmar, país asiático até
1989 chamado de Birmânia, os religiosos lideram as manifestações
contra um dos governos mais corruptos, ineptos e brutais da atualidade. Com seus
mantos cor de laranja e o apoio entusiasmado de seus concidadãos, desde
o início de setembro eles saem às ruas para pedir democracia. O
estopim da crise foram o aumento no preço dos combustíveis e a brutalidade
policial contra um grupo de monges. Acabou se tornando uma bola-de-neve. Mianmar
está entre os vinte países mais pobres e isolados do mundo. No poder
há quarenta anos, a junta militar é composta de generais caquéticos
um deles tem câncer de próstata, outro leucemia , mas
nem por isso dispostos a abrir mão de seus cargos. Em 1988, manifestações
similares foram reprimidas a tiros e morreram mais de 3.000 pessoas. Na sexta-feira
passada, a polícia e o Exército começaram a caçar
a tiros os manifestantes, e o número de mortes já ultrapassava duas
centenas.
Nove
em cada dez birmaneses são budistas, o que explica por que os monges são
considerados a reserva moral do país. É comum que os jovens birmaneses
passem uma temporada nos mosteiros, o que amplia a quantidade de monges disponíveis
para passeatas. Com a devoção e a entrega física que lhes
são características, os monges da Ásia têm uma longa
história de resistência à tirania, marcada pela indiferença
com que enfrentam a morte e o sofrimento. A Guerra do Vietnã, por exemplo,
ganhou as dimensões de conflito generalizado depois que vários monges
atearam fogo ao próprio corpo em protesto contra o governo, em 1963.
Os monges que fazem esse tipo de renúncia ao próprio corpo vêem
a prática como uma forma de elevação espiritual. Nada é
mais desconcertante para um tirano que um adversário que não teme
a morte.