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3 de outubro de 2007
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Internacional
A ira dos monges

Budistas perdem a paciência com uma das
mais corruptas e brutais ditaduras da Ásia


Diogo Schelp

 

AP
Monges budistas em manifestação contra o governo: o regime reagiu com tiros e bombas

Quando até os monges budistas perdem sua tradicional fleuma, cultivada com anos de meditação e reclusão, é sinal de que o cenário político se tornou realmente insuportável. Em Mianmar, país asiático até 1989 chamado de Birmânia, os religiosos lideram as manifestações contra um dos governos mais corruptos, ineptos e brutais da atualidade. Com seus mantos cor de laranja e o apoio entusiasmado de seus concidadãos, desde o início de setembro eles saem às ruas para pedir democracia. O estopim da crise foram o aumento no preço dos combustíveis e a brutalidade policial contra um grupo de monges. Acabou se tornando uma bola-de-neve. Mianmar está entre os vinte países mais pobres e isolados do mundo. No poder há quarenta anos, a junta militar é composta de generais caquéticos – um deles tem câncer de próstata, outro leucemia –, mas nem por isso dispostos a abrir mão de seus cargos. Em 1988, manifestações similares foram reprimidas a tiros e morreram mais de 3.000 pessoas. Na sexta-feira passada, a polícia e o Exército começaram a caçar a tiros os manifestantes, e o número de mortes já ultrapassava duas centenas.

Nove em cada dez birmaneses são budistas, o que explica por que os monges são considerados a reserva moral do país. É comum que os jovens birmaneses passem uma temporada nos mosteiros, o que amplia a quantidade de monges disponíveis para passeatas. Com a devoção e a entrega física que lhes são características, os monges da Ásia têm uma longa história de resistência à tirania, marcada pela indiferença com que enfrentam a morte e o sofrimento. A Guerra do Vietnã, por exemplo, ganhou as dimensões de conflito generalizado depois que vários monges atearam fogo ao próprio corpo em protesto contra o governo, em 1963.

Os monges que fazem esse tipo de renúncia ao próprio corpo vêem a prática como uma forma de elevação espiritual. Nada é mais desconcertante para um tirano que um adversário que não teme a morte.




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