Entidade fundada
por petistas e ligada à líder do
PT no Senado é suspeita de desviar dinheiro público
Ricardo Brito e Otávio Cabral
Marcelo Botelho/Obrito
News
A senadora Ideli: negociações
para liberação de verbas dentro do gabinete
O
Senado vai instalar nesta semana uma CPI para investigar entidades
e organizações não-governamentais suspeitas
de desviar recursos públicos. Somente nos últimos
oito anos, o governo destinou 33 bilhões de reais às
chamadas ONGs por meio de convênios e emendas parlamentares.
Seria uma forma ágil e eficiente de fazer chegar às
comunidades mais carentes os programas sociais. Sem fiscalização
adequada, muitas dessas organizações se transformaram
em máquinas de fraudes que enriquecem seus dirigentes
e financiam campanhas políticas regionais. Em Santa
Catarina, a Polícia Federal está investigando
um caso exemplar. A Federação dos Trabalhadores
na Agricultura Familiar da Região Sul (Fetraf-Sul)
recebeu 5 milhões de reais para promover cursos de
treinamento profissional. Parte do dinheiro, já se
sabe, foi parar na campanha política de um deputado
do PT. Para justificarem os gastos, os dirigentes da federação
falsificaram planilhas e criaram alunos-fantasma. O que mais
chama atenção no caso, porém, é
o eixo entre os principais envolvidos na fraude. Todos são
correligionários, amigos ou assessores da senadora
catarinense Ideli Salvatti, líder do PT no Senado.
A investigação
da polícia se concentra em dezoito convênios
firmados entre a Fetraf e os ministérios do Desenvolvimento
Agrário, do Trabalho, da Agricultura e da Pesca
que lhe destinaram 5,2 milhões de reais entre maio
de 2003 e março de 2007. O inquérito, que já
tem mais de 300 páginas, recolheu provas que permitem
concluir que a federação usou uma tecnologia
de fraude muito conhecida desde os tempos em que o ex-tesoureiro
do PT Delúbio Soares era um simplório conselheiro
do Fundo de Amparo ao Trabalhador. Usando a influência
política, os dirigentes conseguem prioridade em assinatura
de convênios com órgãos públicos.
Há no esquema sempre um parlamentar amigo que, por
meio de emendas, assegura recursos no Orçamento para
os tais programas sociais. Nos ministérios, correligionários
em postos-chave são os responsáveis pela seleção
das parcerias. Depois, cabe às entidades escolhidas
superfaturar contratos, inventar serviços e embolsar
o dinheiro, às vezes tudo, às vezes apenas uma
parte para simular que alguma coisa foi feita. A Fetraf, segundo
a polícia, seguiu à risca essa cartilha.
Cristiano Mariz
A sede da Fetraf, em Chapecó: dinheiro só
após a chegada do PT ao governo
A Fetraf foi criada
em 2001 por petistas ligados à senadora Ideli Salvatti,
mas sua importância social só começou
a ser reconhecida depois do governo Lula. Um dos convênios
já esmiuçados pela polícia foi assinado
em 2003 com o Ministério do Desenvolvimento Agrário,
que liberou 1 milhão de reais para a entidade promover
o treinamento de trabalhadores rurais em Chapecó, interior
de Santa Catarina. Na época, o coordenador da entidade
chamava-se Dirceu Dresch, um petista do grupo político
de Ideli Salvatti. Dois mil trabalhadores rurais participaram
do curso. A maioria, descobriu-se agora, era fantasma. Para
fazer de conta que o curso existiu, a Fetraf apresentou uma
lista de estudantes, com nome, CPF e endereço dos alunos.
A polícia foi checar e descobriu que muitos não
existiam, outros nunca ouviram falar do curso, alguns nem
sequer moravam na região e os poucos que disseram ter
freqüentado aulas pessoas ligadas à federação,
é claro assinavam a mesma lista de presença
várias vezes. Nos outros dezessete convênios
assinados com a instituição, a história
se repetiu. VEJA localizou no interior de Santa Catarina o
agricultor Jackson Luiz Oldra. Segundo a polícia, ele
foi usado pela federação para "captar" alunos
para o curso de técnicas de plantio e colheita para
jovens. Sua tarefa para conseguir o diploma de jovem agricultor
era pegar as listas em branco na sede da federação,
em Chapecó, e devolvê-las completamente preenchidas.
"Peguei assinatura até com meu avô e minha avó",
conta o rapaz, que já foi intimado a depor na PF. "A
gente faz as coisas para ajudar e acaba se metendo em rolo",
reclama. Para o Ministério do Trabalho, Ernesto, de
67 anos, e Ana, de 63, constam das estatísticas como
"jovens" agricultores. A federação embolsou
o dinheiro.
Os convênios
exibem outras fraudes grotescas. Para dar aulas a alunos-fantasma,
nada mais natural que se chame um professor com conhecimentos
especiais. Um dos convocados para a missão exibe um
currículo surpreendente. Marcelino Pedrinho Pies foi
contratado em abril do ano passado para coordenar um curso
destinado a pequenos agricultores, recebendo 4.000 reais por
mês. O professor Marcelino tem um salário maior
que o de muito doutor de universidade, mas seu currículo
também é ímpar. Na mesma época
da contratação, ele fez um acordo com a Justiça
para doar cestas básicas a uma instituição
de caridade. Voluntário? Não. Marcelino, ex-tesoureiro
do PT do Rio Grande do Sul, confessou que usou dinheiro do
valerioduto para pagar dívidas eleitorais do partido
em 2002 quando o candidato ao governo era Tarso Genro, hoje
ministro da Justiça. O dinheiro da Fetraf, que deveria
estar formando trabalhadores, vem sendo usado para subsidiar
também a pena de criminosos. A Polícia Federal
estima que, no mínimo, 60% dos recursos destinados
a treinar os trabalhadores acabaram nos bolsos ou nas campanhas
políticas dos marcelinos da federação.
Há evidências que sugerem isso e muito
mais.
Cristiano
Mariz
Jackson, escalado para fraudar
as listas: assinatura dos avós em curso para jovens
Dirceu Dresch, ex-líder
da Fetraf no período em que foi assinada a maioria
dos convênios, conseguiu se eleger deputado estadual
pelo PT no ano passado. Antes disso, ele foi coordenador das
campanhas de Ideli Salvatti. Eles pertencem à mesma
corrente política do partido. Em 2002, Ideli candidatou-se
ao Senado e Dresch a deputado estadual. Fizeram campanha juntos.
Ela venceu a disputa e ele não se elegeu. No ano passado,
Ideli, que desistiu de se candidatar ao governo em favor do
então ministro da Pesca, José Fritsch (com quem
a Fetraf assinou um convênio), deu uma mãozinha
a Dresch, inclusive destacando Lizeu Mazzioni, um de seus
assessores em Brasília, para coordenar a campanha.
Ideli e Dresch são sócios na indicação
do delegado do Ministério do Desenvolvimento Agrário
Jurandi Teodoro Gugel, que assinou doze convênios com
a Fetraf e ocupou o cargo até julho passado. Antes
do ministério, Gugel era assessor lotado no gabinete
de Ideli. Em novembro de 2004, Dirceu, Jurandi e Lizeu estiveram
juntos em uma reunião na antiga sede da Fetraf, onde
discutiram o apoio político da federação
e seus filiados a uma eventual campanha de Ideli ao governo.
Em troca, a senadora apresentaria emendas para sindicatos
e prefeituras amigas da federação.
A campanha de Ideli
ao governo não prosperou, mas as tratativas sobre as
emendas continuaram. Documentos em poder da polícia
revelam que, em 12 de setembro de 2005, o então coordenador
de política sindical da Fetraf, Daniel Kothe, e o chefe-de-gabinete
de Ideli em Brasília, Paulo Argenta, discutiram as
formas de viabilizar os recursos para a federação.
Em uma mensagem eletrônica trocada entre os dois gabinetes,
chegaram a combinar até o destino das emendas. "Ficamos
no aguardo dos encaminhamentos necessários para efetivarmos
a aplicação desses recursos na base", escreveu
Daniel Kothe, que substituiu Dirceu Dresch como líder
da Fetraf-Sul. A mensagem deixa claro que as estratégias
de ação da entidade e os projetos financeiros
passaram pelo gabinete de Ideli. Os fatos mostram que a relação
entre a senadora e o grupo que controla a federação
é muito estreita. Além de Jurandi e Lizeu, já
houve mais gente do gabinete ligada à Fetraf. Cleci
Dresch, mulher do deputado Dresch, foi funcionária
do gabinete da senadora até março deste ano.
O que ela fazia? "Nunca fui a Brasília. Eu quero que
você converse com o meu marido", limitou-se a dizer.
O deputado Dresch não quis conversar. Um ex-auxiliar
dele confirmou à polícia que parte do dinheiro
desviado da federação foi usada em sua campanha
política. "Os indícios de fraude e desvio de
dinheiro são muito fortes", confirma o delegado Misael
Mazzetti, da Polícia Federal.
Diego/Ag RBS
Cristiano
Mariz
O deputado Dresch,
beneficiário do caixa dois da Fetraf, e sua mulher,
Cleci, funcionária-fantasma do gabinete de Ideli
A proximidade entre
a senadora Ideli Salvatti e representantes de ONGs suspeitas
não é novidade. Há outro alvo da CPI
que também fica em Santa Catarina, também é
comandado por gente ligada a Ideli e também tem uma
carteira de milhões de reais em convênios com
o governo. Assim como a Fetraf, a Unitrabalho recebeu 18 milhões
de reais entre 2003 e 2006 para qualificar trabalhadores.
A ONG chamou atenção no ano passado, quando
o seu dirigente maior, Jorge Lorenzetti, ex-churrasqueiro
do presidente Lula, amigo da senadora e funcionário
do comitê de reeleição, foi flagrado em
uma operação para comprar um dossiê contra
adversários. Nunca se descobriu a origem do dinheiro
apreendido com o grupo. A senadora Ideli emprega em seu gabinete
Natália Lorenzetti, filha do ex-churrasqueiro petista.
Procurada, a senadora não quis se pronunciar. Por intermédio
de sua assessoria, mandou dizer que não tem nenhuma
relação formal nem com a Fetraf nem com Dresch,
e que as emendas que apresentou visaram apenas a beneficiar
a agricultura familiar. Mandou dizer ainda que nunca foi citada
pela Justiça ou pelo Ministério Público
em irregularidade alguma envolvendo a Fetraf ou qualquer outra
entidade. É verdade. Ainda não foi.