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3 de outubro de 2007
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Brasil
O combustível de Lula

Na ONU, Lula chama a atenção do mundo ao
defender o álcool como alternativa ao petróleo


Heloisa Joly e Leonardo Coutinho

 
Ricardo Stuckert/PR
Lula: o etanol pode reduzir a pobreza em 100 países

Por um motivo prosaico, cabe ao Brasil o discurso inaugural das reuniões anuais da Assembléia-Geral da Organização das Nações Unidas (ONU). A tradição começou em 1949, durante a Guerra Fria. Americanos e soviéticos disputavam o direito de falar primeiro. Para que não houvesse um vencedor, escolheu-se o país que encabeçava a lista de inscrições. Desde então, cinco presidentes brasileiros já ocuparam essa tribuna. Todos se dedicaram a analisar a conjuntura internacional. Como a capacidade do Brasil de interferir nos destinos do mundo é quase nula, os discursos passaram em branco. Na semana passada, o pronunciamento brasileiro chamou a atenção do mundo pela primeira vez. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva aproveitou a ocasião para falar de um tema no qual o Brasil é uma autoridade: biocombustíveis. Em especial, o etanol produzido a partir da cana-de-açúcar.

O países ricos se interessam pelo assunto porque precisam encontrar uma fonte de energia alternativa, e de preferência menos poluente, para reduzir sua dependência do petróleo, cujo preço subiu 280% desde 2002. O Brasil tem o maior e mais antigo programa desse tipo. Nos últimos trinta anos, o país desenvolveu uma tecnologia confiável para substituir o uso de derivados de petróleo em veículos. "A busca por combustíveis limpos e de fonte renovável é crucial no mundo de hoje. O Brasil tem tecnologia e recursos suficientes para liderar nessa área", diz Eduardo Viola, especialista em relações internacionais. Apoiado em dados, Lula mostrou que pode aumentar a sua produção de álcool sem necessidade de utilizar áreas hoje cobertas por florestas. O país tem terra inaproveitada de sobra e as usinas de álcool vêm aumentando em muito a sua produtividade.

 

Divulgação
Usina de álcool: com o avanço da tecnologia, é possível aumentar sua produção sem destruir a natureza

O pronunciamento de Lula serviu também como resposta a um documento divulgado pela ONU na semana passada. O relator da Organização para Direito à Alimentação, Jean Ziegler, adotou o discurso dos ditadores Fidel Castro, de Cuba, e Hugo Chávez, da Venezuela, que afirmam que as culturas destinadas à produção de biocombustíveis tomam espaço das que são destinadas à alimentação. Um dia antes da abertura da Assembléia-Geral, Ziegler recomendou a interrupção por cinco anos do crescimento da área agrícola destinada à produção de etanol. A história de que a fome grassará no mundo por causa da produção de biocombustíveis é uma falácia. Como disse Lula, a iniciativa em escala mundial até contribuirá para reduzir a pobreza, já que o etanol pode ser uma nova fonte de renda para a população de mais de 100 países pobres.

"Nos últimos anos, reduzimos a menos
da metade o desmatamento da Amazônia."

Em 2004, o Brasil perdeu 27 000 quilômetros quadrados de floresta, uma área do tamanho da Bélgica. Em 2006, o total devastado caiu para 14 000 quilômetros quadrados. Uma parte dessa redução pode ser atribuída à queda dos preços da carne e da soja, cujos produtores estão entre os principais desmatadores. Outra parte deve ser creditada ao governo, que fechou madeireiras ilegais e prendeu devastadores. A preservação da floresta evitou a emissão de 410 milhões de toneladas de carbono na atmosfera.

 

"No Brasil, com a utilização crescente e cada vez mais eficaz do etanol, evitou-se nestes trinta últimos anos a emissão de 644 milhões de toneladas de CO2 na atmosfera."

Lula referiu-se aos benefícios ambientais obtidos com o uso do álcool combustível, a partir do lançamento do Proálcool, em 1975. Desde então, foram consumidos no país 325 bilhões de litros de etanol, o que eliminou a poluição mencionada pelo presidente. O bagaço da cana, um dos subprodutos do álcool, também é uma fonte limpa de eletricidade e já é utilizado por seis estados brasileiros.

 

"A cana-de-açúcar ocupa apenas 1% de nossas terras agricultáveis, com crescentes índices de produtividade."

Os avanços na tecnologia agrícola permitiram que o Brasil produza mais álcool nas áreas destinadas à cana. Nos últimos quarenta anos, o aumento de produtividade chegou a 60%. Pesquisas mostram que ainda é possível aumentar essa margem entre 30% e 40% na próxima década.

 

"Com dez anos de antecedência, superamos a primeira das Metas do Milênio, reduzindo em mais da metade a pobreza extrema."

Lula relacionou a preservação ambiental à erradicação da pobreza e relatou que o Brasil já cumpriu a primeira das oito metas estabelecidas pela ONU para seus integrantes até 2015. Entre 1990 e 2005, a parcela dos brasileiros que ganham menos de 1 dólar por dia caiu 52%, o equivalente a 4,7 milhões de pessoas.



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