|
Brasil O
combustível de Lula Na
ONU, Lula chama a atenção do mundo ao defender o álcool
como alternativa ao petróleo
 Heloisa
Joly e Leonardo Coutinho Ricardo
Stuckert/PR
 | | Lula:
o etanol pode reduzir a pobreza em 100 países |
Por um motivo prosaico, cabe ao Brasil o discurso inaugural das reuniões
anuais da Assembléia-Geral da Organização das Nações
Unidas (ONU). A tradição começou em 1949, durante a Guerra
Fria. Americanos e soviéticos disputavam o direito de falar primeiro. Para
que não houvesse um vencedor, escolheu-se o país que encabeçava
a lista de inscrições. Desde então, cinco presidentes brasileiros
já ocuparam essa tribuna. Todos se dedicaram a analisar a conjuntura internacional.
Como a capacidade do Brasil de interferir nos destinos do mundo é quase
nula, os discursos passaram em branco. Na semana passada, o pronunciamento brasileiro
chamou a atenção do mundo pela primeira vez. O presidente Luiz Inácio
Lula da Silva aproveitou a ocasião para falar de um tema no qual o Brasil
é uma autoridade: biocombustíveis. Em especial, o etanol produzido
a partir da cana-de-açúcar.
O países ricos se interessam pelo assunto porque precisam encontrar uma
fonte de energia alternativa, e de preferência menos poluente, para reduzir
sua dependência do petróleo, cujo preço subiu 280% desde 2002.
O Brasil tem o maior e mais antigo programa desse tipo. Nos últimos trinta
anos, o país desenvolveu uma tecnologia confiável para substituir
o uso de derivados de petróleo em veículos. "A busca por combustíveis
limpos e de fonte renovável é crucial no mundo de hoje. O Brasil
tem tecnologia e recursos suficientes para liderar nessa área", diz Eduardo
Viola, especialista em relações internacionais. Apoiado em dados,
Lula mostrou que pode aumentar a sua produção de álcool sem
necessidade de utilizar áreas hoje cobertas por florestas. O país
tem terra inaproveitada de sobra e as usinas de álcool vêm aumentando
em muito a sua produtividade. Divulgação
 | | Usina
de álcool: com o avanço da tecnologia, é possível aumentar sua produção sem destruir
a natureza |
O pronunciamento
de Lula serviu também como resposta a um documento divulgado pela ONU na
semana passada. O relator da Organização para Direito à Alimentação,
Jean Ziegler, adotou o discurso dos ditadores Fidel Castro, de Cuba, e Hugo Chávez,
da Venezuela, que afirmam que as culturas destinadas à produção
de biocombustíveis tomam espaço das que são destinadas à
alimentação. Um dia antes da abertura da Assembléia-Geral,
Ziegler recomendou a interrupção por cinco anos do crescimento da
área agrícola destinada à produção de etanol.
A história de que a fome grassará no mundo por causa da produção
de biocombustíveis é uma falácia. Como disse Lula, a iniciativa
em escala mundial até contribuirá para reduzir a pobreza, já
que o etanol pode ser uma nova fonte de renda para a população de
mais de 100 países pobres. "Nos
últimos anos, reduzimos a menos da metade o desmatamento da Amazônia."
Em 2004, o Brasil perdeu 27
000 quilômetros quadrados de floresta, uma área do tamanho da Bélgica.
Em 2006, o total devastado caiu para 14 000 quilômetros quadrados. Uma parte
dessa redução pode ser atribuída à queda dos preços
da carne e da soja, cujos produtores estão entre os principais desmatadores.
Outra parte deve ser creditada ao governo, que fechou madeireiras ilegais e prendeu
devastadores. A preservação da floresta evitou a emissão
de 410 milhões de toneladas de carbono na atmosfera.
"No Brasil,
com a utilização crescente e cada vez mais eficaz do etanol, evitou-se
nestes trinta últimos anos a emissão de 644 milhões de toneladas
de CO2 na atmosfera." Lula
referiu-se aos benefícios ambientais obtidos com o uso do álcool
combustível, a partir do lançamento do Proálcool, em 1975.
Desde então, foram consumidos no país 325 bilhões de litros
de etanol, o que eliminou a poluição mencionada pelo presidente.
O bagaço da cana, um dos subprodutos do álcool, também é
uma fonte limpa de eletricidade e já é utilizado por seis estados
brasileiros. "A
cana-de-açúcar ocupa apenas 1% de nossas terras agricultáveis,
com crescentes índices de produtividade." Os
avanços na tecnologia agrícola permitiram que o Brasil produza mais
álcool nas áreas destinadas à cana. Nos últimos quarenta
anos, o aumento de produtividade chegou a 60%. Pesquisas mostram que ainda é
possível aumentar essa margem entre 30% e 40% na próxima década.
"Com
dez anos de antecedência, superamos a primeira das Metas do Milênio,
reduzindo em mais da metade a pobreza extrema." Lula
relacionou a preservação ambiental à erradicação
da pobreza e relatou que o Brasil já cumpriu a primeira das oito metas
estabelecidas pela ONU para seus integrantes até 2015. Entre 1990 e 2005,
a parcela dos brasileiros que ganham menos de 1 dólar por dia caiu 52%,
o equivalente a 4,7 milhões de pessoas.
Publicidade |
 |
|
|