|
André
Petry
Que Brasil é este?
"Entre documentos
perdidos em uma enchente e contratos de gaveta, entre a punição
injusta
e a impunidade aberta, entre um catador de
papelão e um senador da República, temos
a crônica de dois Brasis"
Em março
de 2005, o catador de papelão José Machado Sobral
foi preso por engano em Guarulhos, na região metropolitana
de São Paulo. Confundido com um suspeito de tentativa
de homicídio, ele foi levado para uma delegacia. Sem
documentos, que perdera numa enchente, e sem dinheiro para
pagar advogado, acabou sendo conduzido a um presídio.
Ficaria dois anos e meio preso por um crime que não
cometeu.
(Na mesma data,
o senador Renan Calheiros rompeu sua sociedade secreta com
o usineiro João Lyra em uma rádio e um jornal
é aquela sociedade selada com contrato de gaveta,
uso de laranjas e pilhas de dinheiro vivo.)
Em junho de 2006,
o catador de papelão já completava um ano e
três meses de cadeia e, como ninguém conseguia
confirmar sua identidade nos arquivos de seu estado natal,
Pernambuco, um juiz mandou libertá-lo. Mas a burocracia
não emitiu o alvará de soltura, e o catador
de papelão ficou na prisão. A essa altura, dividia
a cela com vinte presos.
(Na mesma data,
tal como previam seus planos, Renan Calheiros ficou encantado
com a agilidade da burocracia do Ministério das Comunicações:
ganhou a concessão de nova rádio FM para operar
em Alagoas. Meses depois, a concessão seria aprovada
em sessão do Congresso, presidido pelo próprio
Renan Calheiros.)
No dia 6 de setembro
passado, finalmente exibiram uma foto do catador de papelão
à vítima em Pernambuco. A vítima disse
que a foto não era do assassino. O catador de papelão
era negro. O assassino, branco. O catador de papelão
tem 54 anos. O assassino, uns 40. Estava desfeita a confusão,
mas José Sobral seguiria preso. Nem o juiz de Guarulhos
nem o de Pernambuco tinham autoridade para soltá-lo.
(No mesmo dia,
os jornais noticiaram que o Conselho de Ética do Senado
decidira, por 11 votos contra 4, pedir a cassação
do mandato de Renan Calheiros. O pedido de cassação
não se devia ao laranjal da sociedade clandestina em
rádios e jornais, mas ao uso de um lobista para pagar
suas despesas pessoais. O senador disse aos repórteres:
"Vamos ganhar. É ter calma". Ganhou mesmo.)
No dia 21 de setembro,
Renan Calheiros perdeu seu advogado, Eduardo Ferrão.
Dono de um dos escritórios mais caros de Brasília,
Ferrão alegou que estava farto do assédio de
repórteres e fotógrafos. Achava que o tumulto
estava prejudicando outros clientes. Renan compreendeu. Afinal,
com a absolvição no caso do lobista, o advogado
cumprira a missão.
(No mesmo dia,
depois de dois anos e meio preso por engano, o catador de
papelão foi libertado, graças ao empenho de
um defensor público, Bruno Lopes de Oliveira. Em entrevista
ao repórter Rogério Pagnan, do jornal Folha
de S.Paulo, José Sobral disse: "Eu não tinha
ódio nem revolta. O ódio que está dentro
de mim é terrível. Imagina ficar numa cadeia
tanto tempo sendo inocente. Como você ficaria?".)
Entre documentos
perdidos numa enchente e contratos de gaveta, entre um advogado
abastado que parte e um defensor público que chega,
entre a punição injusta e a impunidade aberta,
entre um catador de papelão e um senador da República,
temos a crônica de dois Brasis. Isso é triste.
|