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Edição 1 720 - 3 de outubro de 2001
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CINEMA

 
Divulgação

17 Anos: melodrama à maneira chinesa

17 Anos (Guo Niam Hui Jia, China/Itália, 1999. Em cartaz em São Paulo) – Melodrama e sutileza são, à primeira vista, incompatíveis – mas não para os cineastas chineses. Premiado por esse trabalho no Festival de Veneza, há dois anos, o diretor Zhang Yuan conta a história de duas adolescentes que, unidas pelo segundo casamento dos pais, se detestam. Xiaoqin é uma estudante exemplar, enquanto Tao Lan é rebelde e descuidada. Quando uma pequena quantia em dinheiro some de casa, é sobre ela que recai a culpa. Tao, então, briga com a irmã postiça e, sem querer, provoca sua morte. Dezessete anos depois, a moça ganha a chance de sair da prisão, mas desanima diante do pesadelo de rever a mãe e o padrasto. É um belíssimo desenvolvimento de um tema caro ao melodrama: o das infinitas repercussões de gestos aparentemente desimportantes.

 

DISCOS

The Id, Macy Gray (Sony Music) – A cantora americana Macy Gray tem uma das vozes mais peculiares do pop atual. Um crítico já chegou a compará-la ao personagem de desenho animado Patolino – apressando-se em acrescentar, no entanto, que ela seria um Patolino "com muita alma". De fato, se a voz rascante de Macy pode causar estranheza, não há dúvida de que ela é uma intérprete de primeiríssimo time. Esse seu segundo disco traz um cardápio variado de música negra americana, do blues à disco music. As letras são sobre amor e sexo – com boas doses de humor apimentado. "É incrível o que uma arma na cabeça pode fazer", diz ela, ao explicar como finalmente conquistou o homem que resistia às suas investidas, na canção Gimme All Your Lovin' or I Will Kill You. A cantora deve apresentar-se no Brasil neste mês.

A Funk Odyssey, Jamiroquai (Sony Music) – O inglês Jason Kay, cantor e líder do Jamiroquai, já foi apontado como uma "pálida versão de Stevie Wonder". Mas não se deve fazer pouco dele e de seus companheiros. A cada novo disco, seu grupo confirma que tem, sim, vida própria – e um suingue demolidor. O Jamiroquai recicla com eficiência a música dos anos 70, numa roupagem moderninha que ficou conhecida como acid jazz. Nesse novo CD, o grupo consegue uma façanha: está ainda mais sacolejante. Há canções capazes de animar qualquer festinha madrugada adentro, como Feel So Good e Stop Don't Panic. A outra especialidade da banda, embalar namoricos, está bem representada em faixas como You Give Me Something.

Quatro Grandes do Samba, Nelson Cavaquinho, Candeia, Guilherme de Brito e Elton Medeiros (BMG Brasil) – A gravadora BMG completou 100 anos e repôs em circulação vinte velhos títulos de seu catálogo. Esse é, de longe, o melhor do pacote. Além de interpretar suas composições, os quatro músicos conversam sobre a história do samba. Suas especialidades são diferentes. A dupla Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito destila melancolia em A Flor e o Espinho. Candeia, por sua vez, comparece com Sou Mais o Samba, uma ironia em cima dos brasileiros que tentam soar americanos. O fino do samba-canção fica por conta de Elton Medeiros. Quatro Grandes do Samba é o registro de uma época em que o gênero tinha muito a oferecer.

 

LIVRO

O Irmão Bom, de Chris Offutt (tradução de Paulo Reis; Rocco; 335 páginas; 34 reais) – Trata-se do primeiro romance de Chris Offutt, que vem sendo louvado como uma das grandes promessas da nova ficção americana. Ambientado nos Estados caipiras de Kentucky e Montana, o livro fala sobre os códigos de honra arcaicos que ainda sobrevivem "no coração da América". A história começa quando o irmão de Virgil é assassinado. Todos na cidadezinha esperam que a morte seja vingada conforme a tradição. Virgil quer escapar desse círculo vicioso – mas não consegue livrar-se do passado e acaba envolvido com uma milícia clandestina de fazendeiros. Offutt conduz com mão firme uma narrativa repleta de tensão e belas descrições.

 

INFANTIL

 
Collodi: sem conformismo

Histórias Alegres, de Carlo Collodi (tradução de Gabriella Rinaldi; Iluminuras; 125 páginas; 23 reais) – O italiano Carlo Collodi (1826-1890) é conhecido mundialmente como autor de Pinóquio. Quem leu a história do boneco de madeira que queria transformar-se em gente sabe que ela não prima exatamente pela alegria. Os oito contos dessa coletânea, porém, fazem justiça ao seu título. São realmente leves e engraçados – o que não significa que apelem para o tipo mais fácil de humor. Collodi incentiva o leitor a questionar valores e o ensina a rir de si próprio, em contos como O Homenzinho Precoce. A escola é um tema constante das historietas. O autor faz o elogio dos bem-comportados, mas sem pregar o conformismo. "Adivinhem quem era o aluno mais preguiçoso, mais agitado e mais impertinente de toda a escola", lembra ele em Quando Eu Era Criança, o simpático depoimento autobiográfico que fecha o volume.

 

OS MAIS VENDIDOS - CRÍTICA

Oferecer soluções para todos os males, em páginas repletas de lugares-comuns, é a fórmula clássica da literatura de auto-ajuda. Poucos, contudo, levaram tal procedimento ao extremo de Os 100 Segredos das Pessoas Felizes (tradução de Maria Claudia Coelho; Sextante; 192 páginas; 19,90 reais). O autor é o americano David Niven, professor de uma certa Florida Atlantic University, que insiste em lembrar ao leitor continuamente que é P.h.D. em alguma coisa (não se sabe ao certo em quê). Sua proeza é "demonstrar", vejam só, que a felicidade é uma ciência. "Após ler mais de 1 000 trabalhos sobre as características e crenças das pessoas felizes, escolhi os conselhos que considerei melhores e mais práticos", explica ele na orelha do best-seller. Além de ser despachado, Niven é de uma modéstia exemplar. Tudo o que está no livro, assegura, se baseia em pesquisas científicas que não encontraram eco, antes dele, porque foram escritas numa "linguagem hermética". Talvez para poupar seus leitores do perigo de trombar com um desses livros chatos, Niven não se preocupou em organizar uma bibliografia.

Os 100 Segredos descobertos nesses "tratados científicos" são tão simplórios que é até desconcertante citá-los. Eis o de número 13: "Seja agradável". Outro menos óbvio: "Goste dos animais" (segredo número 76). A lista passa ainda por pérolas como "Estar ocupado é melhor do que estar chateado" (número 68) e "O fim chega para todos, mas podemos estar preparados" (79). Mas a melhor dica é realmente aquela mais singela: "Sorria" (número 15). Nessa, ele faz questão de citar suas fontes. "Cientistas da Universidade da Califórnia identificaram dezenove tipos diferentes de sorrisos, com uma característica em comum: todos eles são capazes de comunicar uma mensagem agradável." Esse P.h.D. é mesmo uma graça. Mas atenção: não confundi-lo com o homônimo David Niven, ator de sucessos do cinema como Bom-Dia, Tristeza e A Pantera Cor-de-Rosa. A humanidade deve muito mais felicidade ao Niven das telas do que ao da auto-ajuda.

 

 

 

   
 
Fontes: São Paulo: Cultura, Laselva, Saraiva, Livraria da Vila, Nobel, Siciliano; Rio: Saraiva, Laselva, Sodiler, Siciliano; Porto Alegre: Saraiva, Livraria Ed. Porto Alegre, Siciliano; Brasília: Sodiler, Siciliano, Saraiva, Leitura; Maceió: Sodiler; Recife: Sodiler, Saraiva, Siciliano; Natal: Sodiler; Florianópolis: Siciliano; Goiânia: Siciliano; Fortaleza: Siciliano, Laselva; Salvador: Siciliano; Curitiba: Siciliano, Saraiva; Belo Horizonte: Siciliano, Leitura

 

   
 
   
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