Stephen
Kanitz
O
fim dos
paraísos fiscais
"Os
300 000 brasileiros que têm dinheiro frio
lá fora temem o risco Brasil, mas não sabem
o risco que estão correndo agora"
Ilustração Ale Setti
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Achar um terrorista fugitivo é como encontrar uma agulha no palheiro,
e inútil. Osama bin Laden venceu, conseguiu a fama que queria.
Teve mais espaço na imprensa do que Pelé em toda sua vida.
A verdadeira guerra será agora contra os paraísos fiscais,
que abrigam as fontes de financiamento de muito futuro terrorista.
O
grande perigo do futuro são os militantes e suas organizações
não-governamentais piratas. Piratas não têm países,
tecnologia nem armas sofisticadas. Os terroristas de Nova York não
tinham nem mísseis, somente pilotos suicidas, que piratearam aviões
americanos.
Achar uma leva de malucos que pode estar neste momento morando em Boston,
no Rio Grande do Sul, no Paraguai ou na casa ao lado é um problema
novo.
O próximo ataque poderá ser em uma usina nuclear de Nova
York ou Paris, e aí os mortos serão milhões. Um terrorista
bacteriológico poderá matar 80 milhões e acabar com
o Brasil, por engano. Prevenir essa ameaça não é
somente um problema americano, como alguns têm afirmado. É
também um problema brasileiro.
Paraísos fiscais não têm leis rigorosas nem fiscalização
internacional, e dão guarida a traficantes, terroristas, políticos
corruptos e dinheiro frio. Não me surpreenderia se nos próximos
quatro anos quarenta "países" desaparecessem. "Países" como
Jersey, Bahamas, Ilhas Virgens Britânicas, Cayman, Nauru e alguns
até maiores. Muitos virarão Estados de seu país de
origem.
O cerco já vinha sendo feito pela Organização para
Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que
criou o Financial Action Task Force, da qual participa o Brasil (veja
o site www.oecd.org/
fatf/).
O Ministério da Fazenda está cooperando intensamente através
do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), www.fazenda.gov.br/coaf/.
Vão dizer que estou exagerando. Por isso, o leitor verifique por
si mesmo. Os Estados Unidos, que se colocavam contra essa iniciativa brasileira
porque no fundo recebiam boa parte do dinheiro desses paraísos,
rapidamente mudaram de idéia.
Ironicamente, a luta de Laden contra o "Grande Satã" trará
o início da maior das globalizações, a globalização
das leis, começando com as leis e a fiscalização
financeiras. Nem precisamos ir muito longe: as normas contábeis
já são globais.
Perderemos algumas liberdades individuais, como o sigilo nas ligações
internacionais e o sigilo bancário internacional. Haverá
pressão para todos adotarem leis comuns, provavelmente acordadas
pelos países do G-7.
Acabou a brincadeira de os pequenos países terem leis próprias.
Se seu dinheiro estiver numa dessas ilhas, prepare-se para pagar imposto
de renda da Inglaterra ou Holanda e ter uma cópia enviada para
o Everardo Maciel. A multa para dinheiro frio é de 100%.
No artigo "Dólares na Suíça, filhos aqui", em VEJA
de 7 de abril de 1999, eu alertava os brasileiros a trazer seu dinheiro
frio de volta nos dez anos seguintes. Há quem diga que esse prazo
encurtou para um ano. Ninguém mais terá coragem de comprar
dólares frios vindos de paraísos fiscais. Quem os tiver
terá de vendê-los para um traficante, em praça pública.
Banqueiros que operam nessa área me informam que grandes aplicadores
já estão trazendo e legalizando o dinheiro correndo, a ponto
de o dólar no mercado paralelo estar próximo do oficial,
em plena crise mundial. Dinheiro lá fora só em país
industrial, de preferência o seu, pagando os impostos e legalizado
na declaração de bens.
Os 300.000 brasileiros que têm dinheiro frio lá fora temem
o risco Brasil, mas não sabem o risco que estão correndo
agora. Nem o preço que pagam, receber 0,5% de juro real por ano,
em vez de 10%, ou 20% dependendo da aplicação. Basta que
20 dos 80 bilhões voltem para que essa bolsa, em dólares,
triplique. Risco por risco, o Brasil é agora o lugar mais seguro.
Stephen
Kanitz é administrador (www.kanitz.com.br)
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