
estasemana
colunas
seções
arquivoVEJA
 |
 |
| (conteúdo
exclusivo para assinantes VEJA ou UOL) |
 |
Crie
seu grupo

|
|
Roberto
Pompeu de Toledo
Dois
ídolos de um tempo
sombrio
Nova
York elegeu
um herói,
mas
para
sua infelicidade
o
outro lado
também elegeu
o seu
Rudy!,
Rudy!
Por onde quer que ande, ele é homenageado com manifestações
de simpatia seja quando em visita aos escombros do que foi um dia
o World Trade Center, seja quando participa de cerimônias, seja
quando só passa pelas ruas. Quando não é "Rudy, Rudy",
o coro muda para "Four more years, Four more years" ("Mais quatro anos,
Mais quatro anos"). O homenageado em questão, o "Rudy" da forma
carinhosa, é o prefeito de Nova York, Rudolph Giuliani. Se alguém
pode ser agraciado com a palma da popularidade e do reconhecimento dos
concidadãos, nestes dias de luto, nos Estados Unidos, é
ele. Chega-se a pedir, a ele que já foi reeleito uma vez, e está
a três meses de concluir o segundo mandato, que se candidate a mais
quatro anos, algo que a legislação eleitoral proíbe.
As honras a Giuliani soam mais autênticas do que as tributadas ao
presidente George W. Bush. O presidente chegou aos mais de 80% de aprovação
nas pesquisas, índice apenas superado, na história, por
Bush pai, quando da Guerra do Golfo, e por Harry Truman, ao término
da II Guerra Mundial, e também vem sendo aplaudido onde quer que
apareça. Mas, nesse caso, o que se aplaude é o cargo, não
a pessoa. No presidencialismo americano, o presidente é o ponto
de convergência do sistema. Nos momentos de ameaça à
nacionalidade, é a encarnação da nação.
Daí que mesmo um presidente de contestadas credenciais pessoais,
eleito de forma discutível, e até ontem alvo de piadas,
numa hora destas seja sacralizado. Ele não é mais um mero
George W. Bush. É Tio Sam.
Já Giuliani é ovacionado por mérito próprio.
Desde o primeiro momento, ele deu a entender que o desafio era com ele
mesmo. Comandou operações de resgate, consolou viúvas,
esforçou-se para organizar o inorganizável, convocou a população
a retomar tanto quanto possível a vida normal. No Brasil, onde
se tem uma postura negativista em relação aos políticos
quando não ao próprio país , esse conjunto
de atitudes seria rotulado de demagogia e os comentaristas se apressariam
em dizer, a respeito de quem assim procedesse, que ele estaria é
de olho nas eleições. Nos Estados Unidos, a atuação
de Giuliani é julgada como à altura do que se espera de
um dirigente, nas circunstâncias.
Osama!,
Osama!
Entre as massas populares do Paquistão e dos territórios
palestinos, com estridência, mas também, sem dúvida,
no silêncio de outros países muçulmanos em que as
manifestações não costumam, ou não podem,
ser tão explícitas, Osama bin Laden virou ídolo.
Um pouco ele já era. Tinha criado em torno de si a legenda do milionário
que renuncia à vida fácil para dedicar-se a uma causa
tanto mais sublime, essa causa, quanto é a própria causa
de Deus. Com sua promoção a inimigo público número
1, pelos Estados Unidos, virou muito mais. Seu nome é entoado nas
manifestações. Seu retrato é exibido nas ruas. Recém-nascidos
paquistaneses recebem aos montes o nome de Osama.
Esta revista chamou-o, em seu último número, de Che Guevara
do Islã. A comparação é apropriada. Como Che
Guevara, Laden foi elevado ao status de pôster. Sabe-se lá
o que é isso? Quando alguém tem sua cara impressa em pôsteres,
que se procuram com o mesmo afã com que nos Estados Unidos se procuram
bandeiras, não é apenas que tenha virado um ídolo
pop. É que se entranhou na imaginação das pessoas.
Virou símbolo e modelo. Nada a ver com as honras prestadas
no Iraque, para citar um exemplo ao presidente Saddam Hussein.
Aí, como é comum nas ditaduras, vigora o culto orquestrado
e compulsório ao ditador. No caso de Laden, as manifestações
são tão espontâneas como as dedicadas em Nova York
ao prefeito Giuliani.
Isso dá uma idéia do inimigo que os Estados Unidos têm
pela frente. Não é nem Laden. Se fosse, seria fácil.
Também não se resume a uma ou mais redes terroristas. Neste
caso a luta é bem mais complicada, mas ainda não é
a pior. A pior é o efeito Laden nas mentes no mundo muçulmano,
especialmente entre os jovens. O combate nesse caso é contra um
sonho. Na verdade, a comparação com Che Guevara vale até
certo ponto. Guevara é um ídolo morto, de um tempo morto.
Seu pôster hoje não passa de objeto de decoração,
muitas vezes na parede de quem nem sabe o que ele significou. Laden é
o pôster vivo de uma gente viva que, no empenho de afirmar-se perante
o mundo, chega a flertar com a catástrofe.
Houve
um tempo, lá longe, durante a Guerra Fria, em que se dizia que
as futuras guerras não teriam heróis. Seriam desencadeadas
num apertar de botões. Os arsenais nucleares fariam o resto. Na
atual guerra, se é que se trata de guerra, ou se tratará,
cada lado já produziu o seu herói.
|
|
 |
|
 |

|
 |