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Exposição em São Paulo reúne 262 obras
do Centro Georges Pompidou, de Paris

Marcelo Marthe

 
Fotos divulgação
Parade, de Picasso: concebida como pano de boca para um balé de Erik Satie

O Centro Georges Pompidou, em Paris, é o que intelectuais adoram chamar de "espaço múltiplo". Ele reúne museu, cinema, biblioteca e outras atrações num único prédio – uma estrutura de metal recoberta de vidro, com escadas rolantes externas. A instituição, popularmente conhecida como Beaubourg, por se situar numa região homônima da capital francesa, foi inaugurada em 1977 e abriga um dos mais preciosos acervos de arte moderna e contemporânea do mundo, com 50.000 obras. A composição variada desse acervo está bem representada na mostra Parade, em cartaz a partir desta quarta-feira na Oca, o edifício de cúpula esférica projetado por Oscar Niemeyer no Parque do Ibirapuera, em São Paulo. Formada por 262 peças trazidas do Pompidou, a exposição faz uma retrospectiva da produção de 121 artistas franceses, ou radicados na França, ao longo dos últimos 100 anos. O cardápio inclui obras de Picasso, Matisse, Chagall e Léger, ao lado daquelas instalações surgidas a partir dos anos 60, maquetes arquitetônicas, objetos de design e videoarte. Mais "múltiplo", impossível.


Azul Celeste, de Kandinsky: russo na melhor forma

O acervo está disposto em ordem cronológica – e não tenha dúvida de que a parte mais significativa é mesmo aquela voltada à primeira metade do século XX. Aí se inclui a peça que dá nome à mostra, um imenso pano de boca de teatro com 16 metros de comprimento por 10 de altura, criado por Picasso em 1917. Concebido para servir de cenário a um balé de Erik Satie, Parade traz uma trupe circense. Há ainda óleos de diferentes fases do artista, como A Leitora (1920), que exibe uma figura feminina de traços corpulentos, e o cubista Retrato de Mulher (1938). Essa é uma das qualidades da mostra: graças à seleção pontual dos trabalhos de alguns artistas, ela enfatiza as mudanças de rumo por que eles passaram. Além de Picasso, isso é visível nas telas de Georges Braque e do russo Wassily Kandinsky. Deste último, há uma sala com onze quadros figurativos que antecederam a guinada à pintura abstrata que o consagrou. Uma 12ª obra, Azul Celeste (1940), representa a fase de ouro de Kandinsky – é uma abstração que evoca seres minúsculos flutuando no ar. Henri Matisse está presente com as maquetes dos vitrais da capela de Vence, que ele fez na velhice, no fim da década de 40. "Como sofria de artrose e não conseguia mais usar pincéis, ele partiu para a técnica de recorte e colagem em papel", conta o crítico e curador Nelson Aguilar. Outra qualidade da exposição é a cenografia, que ficou a cargo de três arquitetos franceses. Seus efeitos revelam-se na disposição monumental dos quatro painéis criados por Robert Delaunay para a Exposição Universal de Paris, em 1937, com 8 metros de altura cada um. E também estão na iluminação, que confere maior dramaticidade às esculturas, entre elas a delicada Cabeça de Mulher, do italiano Amedeo Modigliani.


Adieu, New York, de Léger, e a escultura Cabeça de Mulher, de Modigliani

A parte contemporânea de Parade exala um certo odor de Bienal, o principal evento do calendário das artes plásticas no país. Com uma sutil diferença. Bienais são como feiras – está implícita a idéia de que há coisas boas misturadas com ruins. Quando uma obra vai parar num museu como o Pompidou, no entanto, ela imediatamente ganha peso e "grife". Mas não é preciso deixar-se intimidar por causa disso. Não é por constarem do catálogo de uma instituição respeitada que as esculturas de Niki de Saint-Phalle ganham qualidade. Quanto às instalações, o conjunto exposto só confirma a impressão de que, ao pretenderem romper com o formato tradicional da pintura e da escultura, essas obras descambam com freqüência para a bobagem pura. A principal atração nesse quesito é O Inferno: Comecinho (1984), de Jean Tinguely. Trata-se de uma amalucada engrenagem que inclui de rodas de bicicleta a tambores, tem luzes pisca-pisca e produz o ruído de uma fanfarra desgovernada. Deve, como toda instalação digna do nome, agradar mais às crianças do que aos adultos.

 

VÔO CANCELADO

A incrível história do altar barroco
que foi proibido de embarcar para
Nova York. Motivo: medo do terror


O altar-mor: para cupins?

Datado do século XVIII, o altar-mor do Mosteiro de São Bento, em Olinda, está no centro de um lastimável imbróglio. Entalhada em madeira e folheada a ouro, a jóia do barroco é a maior atração da mostra Brasil: Corpo e Alma, que reunirá 400 obras produzidas por artistas nacionais no Museu Guggenheim, em Nova York. Por causa dela, no entanto, a exposição acaba de ter sua data de estréia adiada de 12 para 19 de outubro. Motivo: a Justiça proibiu o embarque da peça para o exterior. A Procuradoria da República em Pernambuco, que moveu a ação, alega que o altar correria riscos por conta do atentado terrorista em Nova York. Louvável medida, não fosse o fato de que, antes disso, nenhum procurador jamais se havia preocupado com a conservação da obra. E ela estava em petição de miséria. "Havia tantos cupins que a madeira furava com o dedo", diz o banqueiro Edemar Cid Ferreira, presidente da BrasilConnects, entidade que patrocinou a restauração do altar, orçada em quase 1 milhão de reais. Sucessora da associação que fez a Mostra do Redescobrimento, no ano passado, a BrasilConnects está por trás da retrospectiva do Pompidou, em São Paulo, da mostra do Guggenheim e de outras dez exposições que deverão divulgar a arte brasileira ainda neste ano, nos Estados Unidos, França e Inglaterra. Se os nacionalistas de última hora deixarem, é claro.



   
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