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Um acerto de contas

Ex-lobista da empreiteira Andrade
Gutierrez faz suspense político atacando
sucessor em anúncio de jornal

 
Egberto Nogueira
Rafael Jacinto
Roberto Amaral e seu sucessor, José Rubens: briga de família, com detalhes empresariais e grande repercussão entre políticos que já usaram favores da empreiteira

Roberto Figueiredo do Amaral, de 64 anos, foi um lobista que fez história em São Paulo. Trabalhando por trinta anos para a empreiteira Andrade Gutierrez, tornou-se íntimo de quase todos os políticos importantes do Estado, prestou favores e arrumou recursos para campanhas eleitorais em todos os níveis e conquistou obras para a empresa em proporções jamais vistas. Aposentado há três anos, na semana passada Amaral reapareceu para atacar, por escrito, o homem que o sucedeu na Andrade Gutierrez, hoje uma companhia envolvida em vários outros ramos de negócios. Ele mandou publicar em jornais do Rio de Janeiro e de Minas Gerais um anúncio anedótico e misterioso no qual se refere a seu sucessor, José Rubens Goulart Pereira, como um defunto. O texto, publicado nas páginas de política dos jornais, comunica a realização de uma missa pela passagem do qüinquagésimo dia da "morte" de José Rubens. A missa teria acontecido na Fazenda Guanabira, uma propriedade que Roberto Amaral tem no município de Bananal, no interior de São Paulo.

José Rubens, é bom que se saiba, está vivíssimo. Ele substituiu Roberto Amaral em 1998 na diretoria paulista do grupo e, há um ano, assumiu a presidência de um dos braços do conglomerado, a construtora Andrade Gutierrez. Casado com uma sobrinha de Amaral – Vera –, sempre foi considerado grande amigo e protegido do antecessor, que batalhou na empresa para fazê-lo herdeiro de seu posto. Entre debochado e ofensivo, o anúncio também fala de políticos que teriam sido lembrados na tal missa, como os ex-governadores de São Paulo Orestes Quércia e Paulo Maluf. Relaciona ainda dois sócios da Andrade Gutierrez, Sérgio Andrade e Gabriel Donato de Andrade, como presentes à missa. Fala, por fim, num misterioso Mr. Swenka, "do Banco Helvético Cordier". A linguagem é evidentemente cifrada, mas o texto parece ter a intenção de cobrar de José Rubens algo que ele teria se comprometido a fazer mas não fez. Ao que parece, José Rubens é dado como morto por não ter cumprido alguma expectativa do antigo protetor.

No anúncio, de quase um palmo de altura, Roberto Amaral apresenta o desafeto usando o apelido de Dolly. Houve quem entendesse que ele queria dizer "boneca", numa tradução de uso comum do vocábulo em inglês. Mas a referência era à primeira ovelha clonada do mundo. O lobista trata José Rubens como um clone de si mesmo. Quando José Rubens o sucedeu, Roberto Amaral já não vivia uma boa fase na Andrade Gutierrez. Nos primeiros vinte dos trinta anos em que trabalhou para a Andrade, a companhia subiu do pé da lista de grandes companhias nacionais para o quarto posto do ranking. Em seu melhor ano, ele respondeu por quase 60% do faturamento total da empreiteira. Mas, depois de dar um passo errado apoiando a candidatura de Francisco Rossi contra Mário Covas para o governo de São Paulo, em 1994, o lobista viu minguarem os negócios de sua unidade. Hoje, a Andrade ocupa o posto número 160 na lista de maiores empresas nacionais, apesar do bom desempenho de seu substituto, que elevou o lucro de 69 milhões de reais, em 1998, para 263 milhões, no ano seguinte. Essa foi uma das razões para a promoção de José Rubens à presidência da construtora.

Não há muita gente disposta a ajudar a decifrar o anúncio fúnebre publicado por Amaral. Ele mesmo mora em Paris e não pôde ser encontrado. José Rubens nada diz sobre o tema. Do lado da empresa e dos sócios citados, ninguém comentou o anúncio. Mas corre uma versão segundo a qual Roberto Amaral ficou insatisfeito quando o ex-tutelado decidiu cortar benefícios que ele ainda recebia da Andrade, como pagamento de seguranças e carros blindados para a família. Numa outra linha de leitura, um parlamentar paulista recorda que alguns favores a políticos que Amaral tinha apalavrado com a empresa deixaram de ser cumpridos recentemente. Também há um empresário que apresenta a versão segundo a qual uma comissão por negócio antigo deixou de ser paga a Roberto Amaral. Os políticos citados no anúncio fúnebre também são reticentes em matéria de interpretações. "Eu também gostaria de saber por que fui citado", disse o ex-governador Orestes Quércia. "Acho que é uma briga de família", respondeu Paulo Maluf por meio de um assessor. No caso dele, é mesmo: seu filho Flávio também é citado no texto, ao lado do pianista João Carlos Martins, que no passado teve uma empresa que arrecadava fundos para as campanhas de Maluf, a Pau Brasil.


Renato dos Anjos
O ex-presidente Jânio Quadros: o lobista jamais o abandonou

O banco Cordier poderia ser entendido como uma citação com trocadilho da instituição suíça Bordier & Cie, famosa administradora de fortunas. Nesse meio, Amaral navega com familiaridade. Ele tem um patrimônio estimado em vários milhões de reais, construído com trabalho duro na Andrade Gutierrez. Foi com sua competência e seu poder de persuasão que a empresa conquistou obras de enorme importância e muito caras. Foi a Andrade quem fez o metrô na Avenida Paulista, no governo Quércia, parte da Rodovia dos Trabalhadores, quando Maluf governou o Estado, e um dos túneis construídos na gestão do ex-presidente Jânio Quadros na prefeitura da capital paulista. Enquanto a Andrade crescia, Roberto distribuía cortesias entres os políticos. Quércia, seu sucessor Luiz Antonio Fleury, mais Jânio e uma porção de outros voaram muito, e sempre de graça, num dos catorze aviões executivos que a Andrade chegou a possuir na década de 80 e no começo dos anos 90. Amaral também distribuía convincentes contribuições em dinheiro para campanhas eleitorais e nunca fez distinção ideológica ao prestar favores. Luís Inácio Lula da Silva também andava nos aviõezinhos, por exemplo, assim como Maluf sempre pôde contar com a empreiteira para financiar parte de suas candidaturas.

Objetivo e envolvente, Amaral trazia para seu convívio pessoal alguns dos conhecidos que angariava na política. A fazenda citada no anúncio, que mais parece um hotel de luxo sob a vigia de seguranças armados de escopeta, foi palco de dezenas de encontros que misturavam churrasco com administração pública. O ex-governador paulista Luiz Antonio Fleury esteve lá descansando depois de sua eleição ao Palácio dos Bandeirantes. Num outro endereço de Amaral, sua mansão no litoral norte paulista, aconteceu, por exemplo, a escolha de Fleury como candidato a sucessor de Quércia no governo de São Paulo. Paulo César Farias, o tesoureiro do ex-presidente Fernando Collor, chamava Roberto Amaral de "meu mestre". Fiel aos amigos, Amaral amparou Jânio até o dia de sua morte, mandando pagar suas despesas de hospital. Essa fidelidade e sua histórica discrição tornam difícil entender como as coisas azedaram tanto no relacionamento entre ele e seu sucessor. Mas o tom do anúncio, que já é o segundo do gênero publicado por Roberto Amaral, parece prometer um terceiro capítulo nesse delicioso mistério.

 
 
   
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