O inverno vai até
dezembro
Nas
últimas semanas, evitar a recessão prolongada tem sido uma
obsessão tão forte no governo americano quanto punir os
responsáveis pelos atentados às torres gêmeas de Nova
York e ao Pentágono. Salvar a economia é uma das ações
da nova guerra. Representantes do Congresso, do banco central, da Casa
Branca e da Secretaria do Tesouro dos Estados Unidos têm-se reunido
regularmente para discutir as medidas que irão compor o pacote
destinado a reaquecer a economia do país. Algumas foram aprovadas
em tempo recorde. O governo decidiu direcionar 40 bilhões de dólares
para a reconstrução do centro de Nova York e para o aprimoramento
dos sistemas de segurança em todo o país. Outros 15 bilhões
serão destinados a socorrer a indústria da aviação,
um dos setores que mais estão sofrendo por causa dos atentados.
E mais 30 bilhões de dólares serão empregados para
reequipar e reparar os estragos no Pentágono.
A
idéia central é colocar dinheiro em circulação,
fazer girar recursos e devolver dinamismo e confiança a empresários
e consumidores. O governo decidiu também acelerar as discussões
para restituir parte dos impostos pagos pelas pessoas com renda mais baixa
e reduzir os impostos sobre o lucro das empresas. Também se discute
o fim das taxas cobradas aos investidores no mercado financeiro, a extensão
em um ano do tempo de salário-desemprego e a injeção
de até 100 bilhões de dólares na economia. Tudo isso
era polêmico antes dos ataques. Agora parece inevitável.
O volume de dinheiro posto à mesa de reuniões demonstra
a importância que se está dando à manutenção
da saúde econômica dos Estados Unidos. E não sem razão.
Quanto mais demorada for a reação, mais difícil será
o reaquecimento do país.
AP

PARECE
MENTIRA
O número de visitantes aos parques da Disney caiu tanto que a parada
diária, famosa por reunir milhares de espectadores, tem sido vista
por alguns poucos turistas |
Agir
rápido é fundamental porque as informações
mais recentes são desalentadoras. O ânimo consumista dos
americanos parece ter congelado. Uma pesquisa feita no último dia
21 pela agência de notícias Reuters revelou que 24 dos 25
principais economistas de Wall Street acreditam que o país já
se encontra em recessão. Outro levantamento recente mostra que
mais da metade da população americana acha o mesmo. Na semana
passada, foram divulgadas novas informações negativas.
O índice de confiança do consumidor medido pelo Conference
Board apresentou em setembro a maior queda desde 1990, quando os americanos
viviam a insegurança pré-Guerra do Golfo. A expectativa
do consumidor em relação ao futuro foi uma das piores variáveis
do índice.
Em outra pesquisa similar, realizada pela Universidade de Michigan, os
entrevistados afirmaram que esperam que sua renda diminua nos próximos
meses. Segundo os analistas da pesquisa, desde as vésperas da crise
de 1980 os consumidores não se mostram tão pessimistas em
relação ao futuro.
A ausência de boas expectativas é refletida claramente no
movimento do comércio. O Departamento Federal das Lojas anunciou
que as vendas em setembro foram de 15% a 20% inferiores às do mesmo
período do ano passado.
Revendedoras de automóveis e empresas de construção
de casas também registraram fortes quedas em seus negócios
nas últimas semanas.
O número de pessoas que procuram o seguro-desemprego bateu novo
recorde. Só houve tantas demissões nos Estados Unidos na
recessão de 1992.
Na quarta-feira, o Fundo Monetário Internacional divulgou um relatório
com a revisão da expectativa de crescimento dos países para
este ano. Praticamente todos eles tiveram suas previsões reduzidas.
No caso americano, se já era esperado que o PIB cresceria pouco,
1,5%, agora se calcula que crescerá menos ainda 1,3%.
As autoridades americanas temem, com razão, que seu keynesianismo
de resultados ou seja, aumentar os gastos públicos com a intenção
objetiva de reacelerar a economia não venha na dose certa. Gastar
pouco dinheiro pode não ter efeito algum. Gastar muito pode enfraquecer
as finanças públicas e trazer toda sorte de problemas que
países como a Argentina e o Brasil conhecem bem: juros altos e
até inflação. A esperança maior é que
a disposição de gastar do governo possa, como já
ocorreu no passado, melhorar o ânimo dos agentes econômicos.
No momento, entre as medidas que estão em debate a mais bem cotada
é a liberação de uma parcela dos impostos pagos pela
população mais pobre, que tem maior propensão ao
consumo. Com dinheiro na mão, essa gente compra mais comida, uma
roupinha nova, vai ao cinema e cria uma agitação positiva.
"Um dólar na mão da população tem efeito muito
mais imediato na economia que 1 dólar gasto pelo governo", diz
Paulo Leme, economista em Nova York do banco Goldman Sachs. Espera-se
que, para dar uma mãozinha à economia e estimular as compras
a prazo, o Fed corte novamente os juros nesta semana.
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