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O cofre de mil bocas

AFP
SEM RASTRO
Cambista em Cabul movimenta dinheiro que circula fora dos bancos


Os americanos se propuseram a matar o terrorismo por asfixia. Pretendem tirar de circulação o dinheiro que financia suas ações, e para isso já convocaram os governos e as principais instituições financeiras do planeta. A tarefa complexíssima é vasculhar as aplicações de grupos, empresas e pessoas suspeitos de envolvimento com terroristas. Na semana passada, o presidente americano George W. Bush chegou a usar um tom ameaçador com os bancos que não colaborarem com a operação sufoco. Bush pretende congelar toda a riqueza que terroristas e seus financiadores porventura tiverem nos Estados Unidos. "Quem faz negócios com terroristas, apóia ou patrocina seus atos não fará negócio com os Estados Unidos", disse na última segunda-feira. A resposta foi imediata. França, Alemanha, Inglaterra, Emirados Árabes, Brasil e Hong Kong, entre outros, toparam a briga. Imediatamente foram congelados contas e bens de 27 pessoas e organizações supostamente ligadas a atividades terroristas – inclusive três entidades de caridade.

A operação comandada pelo governo americano é a maior do gênero realizada até hoje. Normalmente, as ações envolvem apenas dois ou três países. A adesão mais ampla possível é vital, agora, porque grande parte do dinheiro que financia os presumíveis autores do atentado aos Estados Unidos circula fora do território americano. Quem entende de lavagem de dinheiro diz que os recursos dos terroristas vêm de doações de simpatizantes, do tráfico de drogas e até de entidades humanitárias e organizações não-governamentais de aparência absolutamente insuspeita. Calcula-se que só o grupo comandado por Osama bin Laden, o principal suspeito de ter comandado as explosões em Nova York e Washington, tenha um patrimônio de 300 milhões de dólares. Em mercados pequenos, essa fortuna chamaria muito a atenção. Supõe-se que o dinheiro esteja aplicado em grandes mercados, como Frankfurt, na Alemanha, ou Hong Kong, na China.

O plano traçado pelo governo americano tem alguma chance de sucesso? Há um certo otimismo, primeiro porque existe um empenho internacional no combate ao terrorismo. Depois, porque atualmente a maioria dos países está equipada com leis contra o crime de lavagem de dinheiro e entidades especializadas nesse tipo de investigação. E finalmente porque a tecnologia trabalha a favor do mutirão antiterror. Se tudo der certo, poderá ficar menos difícil cruzar dados provenientes de quadrantes opostos do planeta. As dificuldades são evidentes, mas não desanimadoras. A primeira está no fato de que parte do dinheiro utilizado pelos terroristas islâmicos passeia de mão em mão pelo mundo. Não deixa trilha nos computadores dos bancos. Estima-se que, dos cerca de 5 bilhões de dólares enviados por paquistaneses emigrados para sua terra natal, só 1 bilhão siga via banco, legalmente. Os outros 4 bilhões são carregados por viajantes, remetidos por doleiros ou por empresas de fachada montadas em paraísos fiscais.

AP
O CAÇADOR
Jimmy Gurule, subsecretário do Tesouro americano encarregado de combater a lavagem de dinheiro

A segunda dificuldade tem a ver com o excesso de informações. O universo do dinheiro ilegal é imenso. Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), todos os anos 500 bilhões de dólares produzidos de forma ilegal ganham roupa nova e entram no sistema financeiro global por meio de algum mecanismo de lavagem. A maior parte desse dinheiro, 400 bilhões de dólares, vem do narcotráfico. Os 20% restantes pertencem a grupos terroristas ou são fruto de corrupção. Hoje, toda a movimentação bancária superior a 10.000 dólares tem de ser informada ao organismo regulador do governo. As ocorrências são tantas que ninguém dá conta de investigá-las. Agora, os bancos pretendem concentrar-se em operações maiores – e vasculhá-las de fato. "O resultado da operação americana não será imediato, mas cedo ou tarde a assinatura financeira do esquema de Laden será identificada", diz Eduardo Sampaio, diretor-presidente da Kroll Associates Brasil, empresa multinacional de detetives financeiros.

   
 
   
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