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O fator apocalipse
É
difícil simpatizar com um general que tem bigode de ditador, óculos
de ditador, medalha de ditador e, realmente, exerce o poder ditatorial.
Mas, de todos os dirigentes arrolados pelos Estados Unidos para a luta
contra o terrorismo, nenhum se movimenta mais em terreno perigoso que
o general Pervez Musharraf. São tantos os riscos que chega a dar
pena dele e de nós. O presidente elevado ao poder no Paquistão
pelo método habitual do golpe militar, em 1999, teve a infelicidade
de estar de plantão no comando justamente no momento mais crítico
da história nacional. Cliente habitual dos Estados Unidos, o Paquistão
não teve muita escolha: cravou as unhas na própria carne
e passou a pressionar o Talibã, os radicais do vizinho Afeganistão
que foram sua criação antes de ganhar vida própria.
Para Musharraf e a elite dirigente, isso equivale, simbolicamente, a estar
no centro da luta do urso com os cães, o selvagem divertimento
tão apreciado nas tribos patanes que habitam as montanhas desoladas
espalhadas entre
os dois países. Para qualquer lado que se voltem, há dentes
arreganhados, loucos para arrancar sangue.
Fotos AP

NO
FIO DA CIMITARRA
Com espada de madeira na mão, simpatizante do Talibã ruma para manifestação:
regime em situação de risco |
Vacilar na aliança obrigatória com a potência americana
significa arriscar-se a represálias tremendas, dar adeus a qualquer
chance de vitória no eterno conflito territorial com a Índia
pela região da Caxemira, praticamente desistir de qualquer projeto
nacional. Ceder demais desperta os demônios contrários: a
fúria da turba atiçada pelos mulás, que vêem
em Osama bin Laden e seus amigos talibãs a mais pura expressão
dos ideais islâmicos que estão na própria raiz da
existência do Paquistão, o País dos Puros, arrancado
à Índia ancestral em 1947 para abrigar, única e excludentemente,
os seguidores do profeta. O cenário de pesadelo que poderia seguir-se
já foi traçado. As manifestações de rua ficariam
fora de controle e os militares alinhados com o integrismo mais extremo
se recusariam a reprimi-las. No arrastão, acabariam por dar o passo
mais ousado, o golpe. Musharraf anteciparia seu encontro final com Alá
e os fundamentalistas teriam não só o poder como a bomba
nuclear. Detentor da única "bomba islâmica", motivo de orgulho
nacional repetidamente celebrado por representar a resposta direta e proporcional
aos inimigos indianos, o Paquistão possui também os meios
para lançá-la, pelo menos teoricamente, tudo bem guardado,
por enquanto, com o material físsil separado e acondicionado em
lugares diferentes. Assim, o país do general Musharraf já
representava um considerável "fator apocalipse" mesmo antes da
crise atual. Agora, com o arsenal atômico a apenas um golpe de distância
dos fanáticos, esse risco ficou bem mais presente e imediato.

ENTRE
A FARDA E O TURBANTE
Fazalur Rehman, o chefe integrista, com guarda-costas |
O
Paquistão tem 145 milhões de habitantes, mais de 60% de
analfabetos, menos de 500 dólares de renda per capita. Apenas 1%
da população paga impostos. E aí não se enquadra
o punhado de famílias feudais que controlam a terra, a política,
o dinheiro. A corrupção é tão presente quanto
os louvores constantes a Alá, música ambiente e permanente
de um país tão apaixonadamente religioso que exibe uma das
mais bizarras "bibliotecas" de todos os tempos: os 2 quilômetros
de túneis e cavernas recobertos de exemplares descartados do Corão,
o santo livro que não pode ser jogado no lixo. O escritor V.S.
Naipaul, de origem indiana, faz uma avaliação dura do país
no livro Além da Fé. O Paquistão, diz, nasceu
da "insegurança muçulmana" e estreou no concerto das nações
com o saque generalizado das propriedades das famílias indianas
pertencentes à outra religião, o hinduísmo, forçadas
a fugir quando da partilha. "O país não precisou pagar a
conta do próprio bolso", escreveu Naipaul. "Tornou-se um satélite
dos Estados Unidos; seus vários regimes foram amparados ao longo
de toda a Guerra Fria. Não desenvolveu uma economia moderna; não
sentiu essa necessidade." A outra grande onda de dinheiro fácil
aconteceu quando os Estados Unidos entraram em guerra, por procuração,
com os russos que haviam invadido o Afeganistão. Tudo passava pela
encruzilhada paquistanesa. "Armas americanas e drogas afegãs seguiram
a mesma rota durante oito anos; centenas de milhões de dólares
afluíram", resumiu Naipaul. "A corrupção era farta
demais; o Estado foi, enfim, solapado. Tornara-se uma empresa criminosa."
AFP

SEMPRE
EM LOUVOR DE ALÁ
A caverna onde são guardados os exemplares velhos do Corão:
tudo pelo Islã |
A geografia, que valeu ao Paquistão um lugar no regaço americano
na era do confronto das superpotências, é bênção
e maldição ao mesmo tempo. Num mundo mais previsível,
e otimista, a elite dirigente paquistanesa alimentava um projeto ambicioso:
transformar o país em principal escoadouro de petróleo e
gás natural da Ásia Central, onde estão as reservas
que no futuro vão manter o planeta andando. Entre as ex-repúblicas
soviéticas que acumulam esse tesouro e os portos paquistaneses,
fica o Afeganistão um motivo a mais para o país procurar
encastoar o vizinho em sua esfera de influência. Quem olha para
o mapa pode ter uma idéia equivocada a respeito dos dois países,
pressupondo a existência de Estados diferentes e demarcados, com
fronteiras definidas e todo o resto da parafernália. Na realidade,
a região sudeste do Afeganistão se confunde com a província
paquistanesa do Baluquistão, de baixa densidade populacional, e
a Fronteira Noroeste, pobre e atrasada. Lá é o berço
ancestral das tribos patanes, unidas pela etnia e pela fé num islamismo
primitivo. Os territórios tribais são quase um corpo estranho
no Paquistão, uma espécie de grande nação
ianomâmi, com aspirações autonomistas que o governo
central sempre tratou de neutralizar. As tribos se autogovernam e obedecem
a um código de honra em que a regra número 1 é a
revanche contra ofensas recebidas. Lá, Osama bin Laden é
um herói e a fabricação caseira de armas, para alimentar
um movimentado comércio, mantém funcionando cerca de 400
empresas de fundo de quintal que fazem de tudo, desde granadas de 2 dólares
até lança-mísseis. Foi nessa região que o
serviço secreto paquistanês, conhecido pela sigla ISI e de
forte influência fundamentalista, inventou o Talibã, os refugiados
afegãos transformados em estudantes fanatizados do Corão
e depois na milícia que tomou o poder.
O
Talibã serviu a vários interesses do Paquistão
inclusive mandando guerreiros de Alá para aterrorizar os indianos
na disputa pela Caxemira. De repente, a apocalíptica malfeitoria
de Laden em território americano mudou tudo. De amigo, aliado e
protetor, o Paquistão viu-se obrigado a assumir o papel contrário
se não o de carrasco, pelo menos o de intermediário
do castigo prometido. "Por favor, confiem em mim", pediu em tom quase
desesperado o general Musharraf, quando se dirigiu ao país para
anunciar, em resumo, que não tinha opção a não
ser formar ao lado dos Estados Unidos, mas nunca contribuiria para derrubar
o Talibã nem permitiria o uso do solo pátrio como base para
o lançamento de ataques contra os vizinhos. Em troca, o governo
americano suspendeu as sanções impostas desde o teste do
míssil projetado para carregar a "bomba islâmica" e abriu
o cofre, isso entre as concessões conhecidas. (Uma colunista do
jornal The Friday Times fez graça com a generosidade dos
EUA e propôs mais alguns itens para a lista: todo o elenco de Baywatch,
Brad Pitt em pessoa, lipoaspiração gratuita para as estrelas
da prolífica indústria cinematográfica local, entre
outros.)
Publicamente, o apelo de Musharraf teve efeito nulo. A organização
Jamiat Ulema Islami (JUI), descendente da associação muçulmana
que praticamente fez o parto da nação, lidera as constantes
manifestações de protesto. "Se os americanos forem ao Afeganistão,
sob qualquer pretexto, vamos declarar jihad e o povo do Paquistão
irá defender seus irmãos afegãos", ameaçou
o rubicundo líder da JUI, o maulana Fazalur Rehman, sempre cercado
por guarda-costas trajados com fardas que lembram as das bandinhas de
música do interior brasileiro. Em particular, só Alá
sabe o que está acontecendo. O governo do general Musharraf, como
todos os anteriores, tem intrincadas relações com os chefes
religiosos muçulmanos. Por mais que o islamismo se confunda com
a própria nação, e por mais que os radicais façam
barulho e ocupem espaço, o extremismo à la Talibã
não mobiliza a maioria da população, uma gente hospitaleira
e amistosa, em condições normais. Apesar da gritaria, especialmente
quando aparece qualquer câmara por perto, o país não
parece à beira de uma revolução islâmica. "A
origem do Exército paquistanês é colonial. Sempre
foi uma força muito disciplinada, nunca teve golpes internos",
disse a VEJA o jornalista Ahmed Rashid, autor de um livro sobre o Talibã
e o integrismo religioso na Ásia Central. "A burocracia é
basicamente secular. É fato que hoje temos muito mais fundamentalistas
no governo e no Exército do que há dez anos. Mas não
ocupam altos postos." A situação do regime, porém,
segundo sua avaliação, é "muito incômoda" e
tudo pode se acelerar, dependendo do que os Estados Unidos façam
em relação aos turbantes ensandecidos. Numa situação
de alta instabilidade, a única certeza é que Musharraf e
a elite dirigente continuarão a andar no fio da cimitarra por um
bom tempo. Com o urso de um lado, os cães do outro. E nenhum deles
tem algo a ver com os meigos cãezinhos pequineses que o general
mimava em tempos menos turbulentos.
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