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Edição 1 720 - 3 de outubro de 2001
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O fator apocalipse

É difícil simpatizar com um general que tem bigode de ditador, óculos de ditador, medalha de ditador – e, realmente, exerce o poder ditatorial. Mas, de todos os dirigentes arrolados pelos Estados Unidos para a luta contra o terrorismo, nenhum se movimenta mais em terreno perigoso que o general Pervez Musharraf. São tantos os riscos que chega a dar pena – dele e de nós. O presidente elevado ao poder no Paquistão pelo método habitual do golpe militar, em 1999, teve a infelicidade de estar de plantão no comando justamente no momento mais crítico da história nacional. Cliente habitual dos Estados Unidos, o Paquistão não teve muita escolha: cravou as unhas na própria carne e passou a pressionar o Talibã, os radicais do vizinho Afeganistão que foram sua criação antes de ganhar vida própria. Para Musharraf e a elite dirigente, isso equivale, simbolicamente, a estar no centro da luta do urso com os cães, o selvagem divertimento tão apreciado nas tribos patanes que habitam as montanhas desoladas espalhadas entre os dois países. Para qualquer lado que se voltem, há dentes arreganhados, loucos para arrancar sangue.


Fotos AP

NO FIO DA CIMITARRA
Com espada de madeira na mão, simpatizante do Talibã ruma para manifestação: regime em situação de risco


Vacilar na aliança obrigatória com a potência americana significa arriscar-se a represálias tremendas, dar adeus a qualquer chance de vitória no eterno conflito territorial com a Índia pela região da Caxemira, praticamente desistir de qualquer projeto nacional. Ceder demais desperta os demônios contrários: a fúria da turba atiçada pelos mulás, que vêem em Osama bin Laden e seus amigos talibãs a mais pura expressão dos ideais islâmicos que estão na própria raiz da existência do Paquistão, o País dos Puros, arrancado à Índia ancestral em 1947 para abrigar, única e excludentemente, os seguidores do profeta. O cenário de pesadelo que poderia seguir-se já foi traçado. As manifestações de rua ficariam fora de controle e os militares alinhados com o integrismo mais extremo se recusariam a reprimi-las. No arrastão, acabariam por dar o passo mais ousado, o golpe. Musharraf anteciparia seu encontro final com Alá e os fundamentalistas teriam não só o poder como a bomba nuclear. Detentor da única "bomba islâmica", motivo de orgulho nacional repetidamente celebrado por representar a resposta direta e proporcional aos inimigos indianos, o Paquistão possui também os meios para lançá-la, pelo menos teoricamente, tudo bem guardado, por enquanto, com o material físsil separado e acondicionado em lugares diferentes. Assim, o país do general Musharraf já representava um considerável "fator apocalipse" mesmo antes da crise atual. Agora, com o arsenal atômico a apenas um golpe de distância dos fanáticos, esse risco ficou bem mais presente e imediato.

 

ENTRE A FARDA E O TURBANTE
Fazalur Rehman, o chefe integrista, com guarda-costas

O Paquistão tem 145 milhões de habitantes, mais de 60% de analfabetos, menos de 500 dólares de renda per capita. Apenas 1% da população paga impostos. E aí não se enquadra o punhado de famílias feudais que controlam a terra, a política, o dinheiro. A corrupção é tão presente quanto os louvores constantes a Alá, música ambiente e permanente de um país tão apaixonadamente religioso que exibe uma das mais bizarras "bibliotecas" de todos os tempos: os 2 quilômetros de túneis e cavernas recobertos de exemplares descartados do Corão, o santo livro que não pode ser jogado no lixo. O escritor V.S. Naipaul, de origem indiana, faz uma avaliação dura do país no livro Além da Fé. O Paquistão, diz, nasceu da "insegurança muçulmana" e estreou no concerto das nações com o saque generalizado das propriedades das famílias indianas pertencentes à outra religião, o hinduísmo, forçadas a fugir quando da partilha. "O país não precisou pagar a conta do próprio bolso", escreveu Naipaul. "Tornou-se um satélite dos Estados Unidos; seus vários regimes foram amparados ao longo de toda a Guerra Fria. Não desenvolveu uma economia moderna; não sentiu essa necessidade." A outra grande onda de dinheiro fácil aconteceu quando os Estados Unidos entraram em guerra, por procuração, com os russos que haviam invadido o Afeganistão. Tudo passava pela encruzilhada paquistanesa. "Armas americanas e drogas afegãs seguiram a mesma rota durante oito anos; centenas de milhões de dólares afluíram", resumiu Naipaul. "A corrupção era farta demais; o Estado foi, enfim, solapado. Tornara-se uma empresa criminosa."

 
AFP

SEMPRE EM LOUVOR DE ALÁ
A caverna onde são guardados os exemplares velhos do Corão: tudo pelo Islã

A geografia, que valeu ao Paquistão um lugar no regaço americano na era do confronto das superpotências, é bênção e maldição ao mesmo tempo. Num mundo mais previsível, e otimista, a elite dirigente paquistanesa alimentava um projeto ambicioso: transformar o país em principal escoadouro de petróleo e gás natural da Ásia Central, onde estão as reservas que no futuro vão manter o planeta andando. Entre as ex-repúblicas soviéticas que acumulam esse tesouro e os portos paquistaneses, fica o Afeganistão – um motivo a mais para o país procurar encastoar o vizinho em sua esfera de influência. Quem olha para o mapa pode ter uma idéia equivocada a respeito dos dois países, pressupondo a existência de Estados diferentes e demarcados, com fronteiras definidas e todo o resto da parafernália. Na realidade, a região sudeste do Afeganistão se confunde com a província paquistanesa do Baluquistão, de baixa densidade populacional, e a Fronteira Noroeste, pobre e atrasada. Lá é o berço ancestral das tribos patanes, unidas pela etnia e pela fé num islamismo primitivo. Os territórios tribais são quase um corpo estranho no Paquistão, uma espécie de grande nação ianomâmi, com aspirações autonomistas que o governo central sempre tratou de neutralizar. As tribos se autogovernam e obedecem a um código de honra em que a regra número 1 é a revanche contra ofensas recebidas. Lá, Osama bin Laden é um herói e a fabricação caseira de armas, para alimentar um movimentado comércio, mantém funcionando cerca de 400 empresas de fundo de quintal que fazem de tudo, desde granadas de 2 dólares até lança-mísseis. Foi nessa região que o serviço secreto paquistanês, conhecido pela sigla ISI e de forte influência fundamentalista, inventou o Talibã, os refugiados afegãos transformados em estudantes fanatizados do Corão e depois na milícia que tomou o poder.

O Talibã serviu a vários interesses do Paquistão – inclusive mandando guerreiros de Alá para aterrorizar os indianos na disputa pela Caxemira. De repente, a apocalíptica malfeitoria de Laden em território americano mudou tudo. De amigo, aliado e protetor, o Paquistão viu-se obrigado a assumir o papel contrário – se não o de carrasco, pelo menos o de intermediário do castigo prometido. "Por favor, confiem em mim", pediu em tom quase desesperado o general Musharraf, quando se dirigiu ao país para anunciar, em resumo, que não tinha opção a não ser formar ao lado dos Estados Unidos, mas nunca contribuiria para derrubar o Talibã nem permitiria o uso do solo pátrio como base para o lançamento de ataques contra os vizinhos. Em troca, o governo americano suspendeu as sanções impostas desde o teste do míssil projetado para carregar a "bomba islâmica" e abriu o cofre, isso entre as concessões conhecidas. (Uma colunista do jornal The Friday Times fez graça com a generosidade dos EUA e propôs mais alguns itens para a lista: todo o elenco de Baywatch, Brad Pitt em pessoa, lipoaspiração gratuita para as estrelas da prolífica indústria cinematográfica local, entre outros.)

Publicamente, o apelo de Musharraf teve efeito nulo. A organização Jamiat Ulema Islami (JUI), descendente da associação muçulmana que praticamente fez o parto da nação, lidera as constantes manifestações de protesto. "Se os americanos forem ao Afeganistão, sob qualquer pretexto, vamos declarar jihad e o povo do Paquistão irá defender seus irmãos afegãos", ameaçou o rubicundo líder da JUI, o maulana Fazalur Rehman, sempre cercado por guarda-costas trajados com fardas que lembram as das bandinhas de música do interior brasileiro. Em particular, só Alá sabe o que está acontecendo. O governo do general Musharraf, como todos os anteriores, tem intrincadas relações com os chefes religiosos muçulmanos. Por mais que o islamismo se confunda com a própria nação, e por mais que os radicais façam barulho e ocupem espaço, o extremismo à la Talibã não mobiliza a maioria da população, uma gente hospitaleira e amistosa, em condições normais. Apesar da gritaria, especialmente quando aparece qualquer câmara por perto, o país não parece à beira de uma revolução islâmica. "A origem do Exército paquistanês é colonial. Sempre foi uma força muito disciplinada, nunca teve golpes internos", disse a VEJA o jornalista Ahmed Rashid, autor de um livro sobre o Talibã e o integrismo religioso na Ásia Central. "A burocracia é basicamente secular. É fato que hoje temos muito mais fundamentalistas no governo e no Exército do que há dez anos. Mas não ocupam altos postos." A situação do regime, porém, segundo sua avaliação, é "muito incômoda" e tudo pode se acelerar, dependendo do que os Estados Unidos façam em relação aos turbantes ensandecidos. Numa situação de alta instabilidade, a única certeza é que Musharraf e a elite dirigente continuarão a andar no fio da cimitarra por um bom tempo. Com o urso de um lado, os cães do outro. E nenhum deles tem algo a ver com os meigos cãezinhos pequineses que o general mimava em tempos menos turbulentos.

   
 
   
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