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Ele
tem sucessor
AP
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O
MÉDICO É UM MONSTRO
Um dos únicos retratos conhecidos do médico Ayman
al-Zawahiri (à dir.): sócio-fundador do Al-Jihad
egípcio, acusado pela morte do presidente Anuar Sadat, experiente
na fabricação de bombas e grande estrategista do terrorismo
fundamentalista islâmico. Laden entra com o carisma, um segundo
extremista cuida das ações militares e ele planeja
os grandes atentados e articula uma rede de apoio que tem mais de
130 contribuintes nos países árabes
|
A
captura e o julgamento de Osama bin Laden seriam decisivos para aplacar
o sentimento de afronta que os americanos experimentaram depois dos ataques
a Nova York e Washington. Mas, restringindo o alvo da caçada apenas
a Laden, não se iria muito longe na meta de desmantelar o terrorismo
que elegeu os Estados Unidos como o altar de sacrifícios de sua
guerra santa. Carismático para os fundamentalistas, que o elegeram
como herói festejado em diversas comunidades, Laden é só
o rosto mais conhecido da organização Al Qaeda, apontada
como responsável pelo lançamento dos três Boeing contra
o Pentágono e as torres do World Trade Center. Ao lado de Laden,
há pelo menos dois outros líderes, tão ou mais perigosos
que o barbudo de olhos meigos e sorriso tímido que se tornou o
maior símbolo vivo do mal nas últimas semanas. Um é
Muhamed Atif, encarregado de assuntos militares da Al Qaeda, um egípcio
cujo retrato na página de procurados do FBI está focado
apenas o suficiente para que seja reconhecido. Atif poderá ser
sucessor de Laden, um dia, mas só se algo acontecer ao verdadeiro
cérebro da
Al Qaeda, o também egípcio Ayman al-Zawahiri. Foi ele quem
avisou os EUA de que haveria uma resposta ao bombardeio de posições
terroristas por forças americanas no Afeganistão, em 1998,
na represália aos atentados em embaixadas na África. "A
guerra começou", afirmou num telefonema a um repórter do
Paquistão. "Os americanos podem esperar nossa resposta."
Zawahiri
tem 50 anos. É cirurgião pediátrico formado pela
Universidade do Cairo, descende de tradicional família egípcia
ligada à medicina e, até o dia em que fechou repentinamente
seu consultório no bairro de classe média de Maadi, no Cairo,
era considerado um homem retraído, de fala mansa e gestos polidos.
Na época, 1984, foi preso e interrogado sob a acusação
de ter participado do assassinato do presidente Anuar Sadat, três
anos antes. Solto, por falta de provas, desapareceu do Egito e assumiu,
na clandestinidade, sua condição de sócio-fundador
do grupo extremista Al-Jihad, que ainda hoje pratica atentados naquele
país. A vida de Zawahiri no exílio segue um guia turístico
do terrorismo internacional. Esteve no Sudão, onde iniciou intercâmbio
com vários outros extremistas islâmicos, mudou-se para a
Somália, preparando atentados que aguçaram sua capacidade
de montar armadilhas com explosivos, passou pelo Paquistão, exercendo
a atividade médica entre feridos da guerra do Afeganistão
contra os soviéticos, e visitou várias vezes a Arábia
Saudita. "A experiência dele é muito mais ampla que a de
Laden", disse ao The New York Times o especialista egípcio
em terrorismo Dia'a Rashwan. "Praticamente todos os casos envolvendo extremistas
islâmicos nas últimas décadas têm alguma relação
com ele."
O médico se tornou um estrategista. Nos países árabes,
montou uma rede de apoio junto a investidores com negócios legais
que já reúne mais de 130 contribuintes. Destes, 65 possuem
negócios ou subsidiárias em território americano.
Isso tem facilitado a presença de terroristas dentro dos Estados
Unidos com vistos absolutamente legais, como funcionários dessas
companhias. O próprio Zawahiri, usando um de seus outros nomes
Abu Muhamed, Abu Fatima, Muhamed Ibrahim, Abu Abdallah ou Abu al-Mu'iz
, pode ter obtido um green card, o cartão de identificação
de imigrante legalizado nos EUA, segundo investigadores que tentam reconstituir
sua biografia. O governo do Egito encontrou pistas dele, ao longo dos
anos 90, em lugares como Genebra e Copenhague. Na Dinamarca, ele teria
editado um jornal para extremistas islâmicos. Durante todo esse
percurso, "o doutor" ou "o professor", como é tratado muitas vezes
pelos companheiros, foi compondo uma rede de apoio a várias organizações.
Não foi por acaso que parte dos autores dos atentados realizados
três semanas atrás passou pela cidade alemã de Hamburgo.
Lá vivem 80.000 muçulmanos. A polícia do país
diz que 2.450 estão ligados a grupos terroristas.
Desde que se juntou a Laden, na década de 90, Zawahiri é
o planejador da Al Qaeda. Foi ele quem desenvolveu a teoria de que há
atentados que não devem ter sua autoria reivindicada pelo grupo
executor. Nesses casos, além de provocar mortes e pânico,
os atos têm também o objetivo de confundir os investigadores
e deixá-los em situação difícil diante da
opinião pública de seus países. A estratégia
já se popularizou e dá resultado a ponto de semear dúvidas
como
as que levam autoridades européias a exigir dos Estados Unidos
as chamadas provas concretas da atuação de Laden nos episódios
do Pentágono e do World Trade Center. Outra tática atribuída
ao médico terrorista, esta desenvolvida em sociedade com Muhamed
Atif, é manter militantes adormecidos em outros países até
o dia em que podem ser utilizados em determinadas ações.
São essas táticas que estão tornando um inferno a
vida do vice-diretor do FBI, Tom Pickard, o homem encarregado de montar
o quebra-cabeça escondido nos destroços dos atentados. A
lista de supostos seqüestradores, que tinha dezenove nomes um dia
depois dos atentados, pode encolher para dezesseis. Apenas sobre três
deles Mohamed Atta, Marwan al-Shehhi e Ziad Jarrahi, cada um num
vôo diferente as certezas eram absolutas.
Em Nova York, a sede local do FBI, a oito quadras das torres gêmeas,
foi um dos locais atingidos pelo colapso dos telefones logo depois dos
atentados. Os agentes chegaram a imaginar que poderiam ser o próximo
alvo dos terroristas. Por isso, os trabalhos foram transferidos para uma
oficina mecânica das imediações. Em algumas horas,
foram instaladas 300 linhas telefônicas, para que funcionários
de 25 diferentes agências governamentais pudessem trabalhar lado
a lado. Três dos homens apontados como terroristas já vinham
sendo investigados anteriormente e um tinha sido até filmado em
Kuala Lumpur, na Malásia, junto com extremistas que participaram
do atentado ao destróier Cole, no Iêmen, um ano atrás.
Mas os avanços apareceram no fim da semana passada. Primeiro, a
rede de televisão ABC entrevistou um desertor da Al Qaeda que contou
ter sido treinado com dezenove pessoas em campos do Afeganistão
para missões parecidas com as realizadas há três semanas.
Depois, soube-se que mais de 300 suspeitos foram detidos em vários
países com base em informações enviadas pelos Estados
Unidos. Mas isso pouco adianta, segundo o raciocínio de especialistas.
Um guerrilheiro disposto a morrer por sua causa não tem nenhuma
razão para revelar segredos ao ser preso. Mais surpreendente ainda
foi a divulgação, feita pelo jornalista Bob Woodward, do
Washington Post, de que o FBI achou um manual de procedimentos
que o seqüestrador Mohamed Atta abandonou numa bolsa deixada no Aeroporto
Logan, em Boston. O texto, em árabe, mistura um guia de viagem
com uma cartilha do crime. Diz, por exemplo: "Cheque sua bolsa, suas roupas,
facas, documentos". E recomenda: "Quando entrar no avião, (reze)
'Oh, Deus, abra todas as portas para mim'. (...) A Deus nós voltaremos".
Reuters
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HERÓI
DO AVESSO
Para os islâmicos fundamentalistas, o terror de Laden e sua Al Qaeda
tem sabor de vingança |
O
difícil, para os investigadores, é estabelecer ligação
entre os recursos que os terroristas usaram nos EUA e as fontes tradicionalmente
ligadas ao financiamento dos grupos islâmicos. Já se sabe
que, antes de partir para a missão suicida, vários deles
remeteram dinheiro que ainda tinham para instituições de
outros países. Também estão sendo rastreadas as contas
de um cartão de crédito que pagou algumas das passagens
aéreas e automóveis alugados. O congelamento de 27 contas
bancárias teve pouco impacto nos EUA, mas seu desdobramento, mundo
afora, vai causar danos reais ao patrimônio do terrorismo. No Paquistão,
três contas foram congeladas. Com o aperto sobre os extremistas,
os EUA criaram um quadro em que a eventual rendição de Laden,
sozinho, seria uma estrondosa vitória diante da opinião
pública sem os resultados práticos correspondentes. Nessa
hipótese, o dinheiro do terror continuaria intocado, as frentes
extremistas se manteriam vivas e, o pior, escaparia do cerco o médico
Ayman al-Zawahiri, subitamente promovido e à frente de uma organização
que já treinou mais de 1.000 soldados do terror.
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