
estasemana
colunas
seções
arquivoVEJA
 |
 |
| (conteúdo
exclusivo para assinantes VEJA ou UOL) |
 |
Crie
seu grupo

|
|
Mais uma face do
terror
AP
 |
ALERTA
GERAL
Um operador de negócios em Nova York mantém ao alcance da mão a sua
máscara contra gases tóxicos e substâncias radioativas. O acessório
de proteção também está sendo distribuído à população de Israel |
Um
espectro ronda a América: o de um ataque químico ou biológico.
Infelizmente, ele ultrapassa o campo da paranóia. Desde os atentados
aéreos ao Pentágono e ao World Trade Center, em 11 de setembro,
os cenários mais improváveis passaram a ocupar o terreno
do possível. O alarme soou depois que o FBI, a polícia federal
dos Estados Unidos, descobriu que um dos terroristas suicidas, Mohamed
Atta, recolhera informações sobre o funcionamento de aviões
normalmente usados na pulverização de venenos agrícolas.
Para completar o quadro preocupante, nos pertences de alguns deles foram
encontrados formulários para a obtenção de carteiras
de motorista especiais. Esses documentos lhes permitiriam dirigir caminhões
carregados com produtos químicos. O
medo dos americanos fez com que disparasse a venda de máscaras
NBC que dão proteção parcial contra gases
tóxicos e microorganismos e impedem o contato com ar contaminado
por radioatividade. Fora dos Estados Unidos, o temor também é
grande. Em Israel, um dos alvos preferenciais do terror islâmico,
o Exército está distribuindo máscaras à população,
tal como aconteceu durante a Guerra do Golfo, em 1991.
Há
tempos a hipótese de um grande ataque com gases ou germes faz parte
do universo dos especialistas em terrorismo. Assim como a de um atentado
com armas nucleares. Não é roteiro de filme: ogivas estocadas
na empobrecida Rússia ou em um país politicamente instável,
como o Paquistão, podem cair nas mãos de um grupo extremista.
Os terroristas islâmicos representam a maior ameaça nesse
sentido pela simples razão de que não têm nada a perder.
Como explica o americano Jonathan B. Tucker, editor do livro Assessing
Terrorist Use of Chemical and Biological Weapons (Avaliação
do Uso Terrorista de Armas Químicas e Biológicas), organizações
com uma agenda política e ideológica definidas dificilmente
utilizariam arsenais de destruição maciça. Sua violência
é, por assim dizer, mais bem calibrada, direcionada a alvos limitados
e específicos. Com isso, não angariam uma antipatia universal
à sua causa e não detonam uma repressão mais severa
por parte dos governos. Já fanáticos, como os seguidores
do saudita Osama bin Laden, só têm contas a prestar a um
Deus vingativo ou algo que o valha. O confronto é com a humanidade
que pensa de forma diferente da deles e, por isso mesmo, na sua visão
ensandecida, merece ser destruída de qualquer forma.
Uma
antevisão desse inferno ocorreu em 1995. No dia 20 de março
daquele ano, integrantes da seita japonesa Aum Shirinkyo embarcaram em
trens de cinco linhas diferentes do metrô de Tóquio. Cada
um levava uma lancheira e um guarda-chuva. Ao chegar a estações
perto do centro da cidade, furaram as lancheiras com a ponta dos guarda-chuvas
e desembarcaram, deixando-as para trás. Dentro delas havia ampolas
com sarin, um tipo de gás paralisante dos mais perigosos que existem.
As cenas que se seguiram foram de horror. Nas calçadas perto das
estações, centenas de pessoas sofriam convulsões
e sangravam pelo nariz, à espera de atendimento médico.
O saldo final foi de doze mortos e 5.000 feridos.
O arsenal de armas químicas inclui gases, líquidos, aerossóis
e pós venenosos. Elas começaram a ser usadas durante a I
Guerra e estima-se que tenham provocado a morte de cerca de 100.000 soldados.
O produto que marcou a época foi o gás mostarda, que destrói
as mucosas. Durante a Guerra Fria, Estados Unidos, União Soviética
e vários outros países estocaram grandes quantidades de
substâncias tóxicas. Ao longo da década de 80, o Iraque
lançou gases como o sarin, o tabun e o mostarda sobre tropas do
inimigo Irã. A minoria curda também foi alvo da sanha iraquiana.
Mais de 125 nações assinaram em 1993 um acordo que proíbe
a fabricação de armas químicas e prevê a eliminação
total dos arsenais existentes até 2007. Mas muitos países
que as têm se recusaram a firmar o documento. Entre eles, Iraque,
Líbia, Síria e Coréia do Norte, que abrigam e dão
apoio a grupos terroristas.
Armas
biológicas
|
ANTHRAX
Infecção provocada pela bactéria
Bacillus anthracis. Adquirida por via respiratória,
oral ou cutânea, é
letalíssima. Origina-se de uma doença do gado
comum no século XIX
|
|
VARÍOLA
Doença infecciosa de
alto contágio erradicada na década de 70. Alguns
países querem ressuscitá-la como arma química.
É fatal em 20% a 30% dos casos
|
| PESTE
Infecção causada por bactérias
do gênero Yersinia. Seus vetores costumam ser insetos
ou ratos. As principais variedades são a bubônica
e a pneumônica. Sem tratamento adequado, podem matar em
três dias |
|
As
armas biológicas são microorganismos que causam doenças
mortais ou incapacitantes. Podem ser também toxinas extraídas
de animais e plantas ou sintetizadas em laboratório. O primeiro
e único país a usá-las foi o Japão, na guerra
contra a China, nos anos 30. O Exército japonês tinha até
uma divisão especializada nesse tipo de recurso, a Unidade 731,
que lançava mão de expedientes traiçoeiros. Numa
ocasião, 3.000 prisioneiros chineses foram libertados sem mais
nem menos. Era uma armadilha. Antes de saírem da prisão,
eles haviam sido infectados com a bactéria da febre tifóide,
o que acabou ocasionando uma epidemia na China. Em 1942, o governo japonês
fez chegar à província chinesa de Nanquim uma partida de
chocolates contaminados com anthrax, a mais temida das armas biológicas
(veja quadro acima). Até hoje, não há registro
de ataques desse tipo perpetrados por terroristas.
Os compostos empregados nas armas químicas não são
difíceis de ser criados. Mas para causar mortes em larga escala
seriam necessárias enormes quantidades de substâncias. Um
estudo divulgado na semana passada, em Washington, mostra que terroristas
levariam dezoito anos de trabalho ininterrupto para produzir artesanalmente
2 toneladas de sarin, quantidade mínima para matar 10.000 pessoas.
Eles também encontrariam muita dificuldade na hora de espalhar
gases letais e afins. Lançá-los de um avião pulverizador
de inseticida acarretaria a perda de cerca de 90% do veneno, em virtude
da dispersão pelo vento e de outros fatores ambientais. Para provocar
a morte de milhares de pessoas, é necessário ter bombas
especialmente desenvolvidas para esse fim e uma esquadrilha de aviões
para atirá-las. Com as armas biológicas ocorre o oposto.
Bactérias e vírus colocados na caixa-d'água de um
prédio ou no reservatório de uma cidade podem acarretar
milhares de mortes. Também é simples espargi-los com pequenos
aviões. Produzir microorganismos em laboratório, no entanto,
é complicadíssimo. A seita Aum Shinrikyo, responsável
pelo atentado com sarin no metrô de Tóquio, fabricou o gás
ela própria, já que contava com vários cientistas
entre seus seguidores. Os fanáticos japoneses, no entanto, não
foram capazes de criar armas biológicas, embora tivessem feito
várias tentativas.
|
AFP

|
ESTADO
TERRORISTA
Várias bombas iraquianas que continham gases tóxicos foram destruídas
após a Guerra do Golfo. Suspeita-se, no entanto, que o país de Saddam
Hussein tenha voltado a fabricar esses armamentos |
O
grande perigo, assim, é aquele que foi levantado pelo vice-secretário
de Defesa dos Estados Unidos, Paul Wolfowitz, durante uma reunião
da Otan na quarta-feira passada: que algum país que apóie
o terrorismo municie grupos extremistas. Na época da Guerra do
Golfo, a CIA avaliava que o Iraque do ditador Saddam Hussein possuía
em torno de 150 toneladas de sarin e 400 toneladas de gás mostarda,
além de mísseis desenvolvidos especialmente para lançá-los
contra alvos militares e civis. Grande parte desse arsenal foi destruída
nos bombardeios americanos, mas existe a suspeita de que os iraquianos
tenham voltado a fabricar essas substâncias. Outro dado preocupante
é o estoque de armas biológicas ainda existente na Rússia
e em ex-repúblicas soviéticas. Sabe-se que os comunistas
produziram quantidades formidáveis de anthrax. Em um de seus laboratórios,
localizado em Sverdlovsk (hoje Ekaterinburgo), houve um acidente em 1979
que matou pelo menos 68 pessoas. Estima-se que a União Soviética
tenha produzido, durante a Guerra Fria, algo em torno de 350.000 toneladas
de agentes químicos e biológicos, contra 40.000 dos Estados
Unidos. É impossível saber com certeza quanto desse arsenal
foi desativado. Em mãos erradas, tais armas poderiam engendrar
pesadelos tão traumatizantes quanto a tragédia de 11 de
setembro.
Armas
químicas
|
GÁS
MOSTARDA É
um composto à base de enxofre que
provoca danos nas mucosas do corpo. Em altas concentrações,
pode levar à cegueira e à morte. Vem
sendo
usado desde a I Guerra Mundial
|
|
VX
Gás paralisante à base de fósforo.
Provoca dor de cabeça, náuseas e convulsões.
Em pouco tempo a vítima entra
em coma e pode morrer. O Iraque é suspeito de ainda
possuir reservatórios desse gás
|
| SARIN
Gás paralisante que ficou famoso por ter sido
usado no único atentado terrorista com armas químicas
da História, em 1995, no metrô de Tóquio.
Sua composição é semelhante à do
VX, e os efeitos também |
|
|
|
 |
|
 |

|
 |