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Edição 1 720 - 3 de outubro de 2001
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A batalha da diplomacia

AP
NOVA ORDEM MUNDIAL
George W. Bush (na foto, sob aplauso de americanos) ataca em outro campo de batalha para montar uma coalizão mundial contra o terror: apoio da Rússia, diálogo com Cuba e a complacência do Irã

Os diplomatas americanos lutaram nas últimas duas semanas como generais em guerra. Para armar a ampla coligação internacional antiterrorista, foi necessário deixar de lado rancores nacionalistas, sepultar velhas brigas e, em alguns casos, engolir o orgulho. Se os movimentos militares são estudados com cautela, os diplomatas estão atirando para todos os lados. Viram-se coisas inusitadas, como um representante do Departamento de Estado dos EUA visitando o governo cubano e uma mensagem de condolências enviada pelo prefeito de Teerã ao prefeito de Nova York, o primeiro gesto caloroso entre o Irã e os Estados Unidos em mais de duas décadas. A guerra nem começou direito, mas um novo mapa já se está esboçando, após os atentados de 11 de setembro.
O realinhamento geopolítico ocorrido na semana passada, escreveu o jornal inglês Financial Times, é potencialmente comparável ao que se seguiu à II Guerra, em 1945, ou à queda do Muro de Berlim, em 1989.

A política de decisões unilaterais, em que os Estados Unidos tomavam decisões sem consultar aliados nem respeitar tratados, tão característica dos primeiros oito meses do governo George W. Bush, é agora coisa do passado. No dia seguinte ao atentado, o general Colin Powell, secretário de Estado americano, já tinha conversado com oitenta chanceleres de outras nações. Washington deu sinais de que pretende aumentar sua atuação nas Nações Unidas, inclusive pagando contribuições atrasadas à organização. O primeiro objetivo dessa nova aliança, isolar o regime talibã, já foi alcançado. O próximo passo, mais árduo, será uma campanha sustentada contra os patrocinadores do terrorismo, Iraque incluído, e suas células espalhadas pelo mundo.

Até os chamados Estados-párias, como Sudão, Irã e Cuba, foram assediados pela diplomacia americana para a construção dessa aliança multilateral. Estão no mesmo barco países que eram inimigos e guerreavam entre si até o mês passado, como Índia e Paquistão. Governos que reconheciam o regime talibã, como o da Arábia Saudita e o dos Emirados Árabes, abandonaram os fanáticos de Cabul. Os líderes da União Européia, que até o mês passado se queixavam publicamente da tendência isolacionista inicial do governo Bush, deixaram as mágoas para trás e foram a campo atrás de adesões. O chanceler britânico Jack Straw esteve no Irã, a pedido dos Estados Unidos, tentando fazer uma ponte entre os dois arquiinimigos, o regime dos aiatolás e o governo de Washington. Ouviu, surpreendentemente, o presidente iraniano Mohamed Khatami condenar o terrorismo. É verdade que isso não se traduziu em mudanças maiores, pois o líder supremo religioso do país, o aiatolá Ali Khamenei, manteve o velho discurso anti-EUA. De qualquer forma, a posição americana pode contar com certa complacência do Irã, uma coisa impensável antes dos atentados de Nova York e Washington.

O maior beneficiado econômico desse novo mapa-múndi é o Paquistão. O país sofria sanções econômicas desde 1998 por causa de testes com armas nucleares mantidos pela ditadura militar que tomou o poder em 1999, colocando no poder um general, Pervez Musharraf. As sanções foram devidamente aposentadas e não pára de pingar ajuda nos cofres do Paquistão. O vice-chanceler japonês foi até a capital, Islamabad, oferecer um auxílio de emergência de 40 milhões de dólares, além de mais prazos camaradas para as dívidas paquistanesas. Uma delegação da União Européia ofereceu suporte humanitário de 20 milhões de dólares e a redução de tarifas alfandegárias para produtos têxteis paquistaneses. O FMI aprovou novo empréstimo, de 135 milhões de dólares.

As relações políticas voltaram a ser decisivas para as relações econômicas, algo em desuso no mundo da globalização. O cenário lembra os agrados do Plano Marshall, que reergueu a Europa no pós-guerra. Para o Paquistão, foi uma guinada e tanto. A milícia talibã do Afeganistão é, em parte, uma invenção do serviço secreto paquistanês. O Paquistão acreditava que o Afeganistão controlado pelos fundamentalistas islâmicos seria um aliado confiável e daria a seu Exército a retaguarda estratégica de que necessita para um conflito em larga escala com a Índia, tradicional inimigo vizinho dos paquistaneses. Se o Paquistão aceitou voltar-se contra seus aliados talibãs, um assédio muito sério foi realizado pelos países ocidentais.

 
AFP
A RÚSSIA NÃO É MAIS A MESMA
O presidente Vladimir Putin, em visita à Alemanha: o antigo inimigo da Guerra Fria apóia Washington em troca de vista grossa para sua guerra na Chechênia

O sucesso dessa pressão financeira e diplomática levou o Paquistão, um dos mais radicais Estados islâmicos do mundo e um dos três que mantinham relações diplomáticas com o Afeganistão, a renegar os velhos amigos talibãs, num gesto de traição que ninguém esperava há duas semanas. Afinal, a aliança com os Estados Unidos, se traz vantagens imediatas aos paquistaneses, é uma decisão delicada para os governantes do país. Os talibãs pertencem à etnia patane, a segunda maior do Paquistão. Os partidos fundamentalistas muçulmanos também são fortes no país. Assim, a ditadura do general Musharraf corre até mesmo o risco de ser derrubada por seu povo. Se apesar de tudo isso se pôs ao lado de Washington, é porque a alternativa era o isolamento internacional no bloco dos países-terroristas.

No capítulo das alianças de última hora, a mais impressionante foi a adesão do presidente russo Vladimir Putin. Em discurso no Parlamento alemão, ofereceu apoio estratégico e de inteligência aos Estados Unidos. "A Guerra Fria acabou, o mundo está em outro estágio de desenvolvimento. A luta contra o separatismo, o ódio e o fundamentalismo religioso é universal", disse, em alemão, língua que aprendeu como agente da KGB na Alemanha. A Rússia permitiu o uso de seu espaço aéreo pelos aviões aliados e autorizou que ex-repúblicas soviéticas que fazem fronteira com o Afeganistão (Uzbequistão, Tadjiquistão e Turcomenistão) cooperem. Em troca, os americanos devem fazer vista grossa às atrocidades do Exército russo na Chechênia, uma republiqueta separatista. A mudança foi grande nos dois lados. Na Rússia, onde o antiamericanismo ainda é bem forte entre as Forças Armadas, o ministro da Defesa havia dito na semana passada que tropas da Otan jamais poderiam usar solo russo. Uma semana depois, na Alemanha, Putin falaria não apenas em permitir tropas da Otan em seu território. Disse que a Rússia queria entrar para a Otan. Viu-se aí uma virada abrupta do comando russo, um giro de 180 graus.

 
Reuters
OBRIGADOS A CONVERSAR
Depois de vários adiamentos, o palestino Yasser Arafat e o chanceler Shimon Peres, de Israel, se encontraram para garantir o cessar-fogo: diálogo exigido por Washington

Ainda não é conhecido o preço que cada país está pedindo em troca da adesão à luta antiterrorista. É também incerto até onde irá o apoio incondicional se começar uma guerra e houver mortos civis. Muitas nações, inclusive européias, hesitam em dar apoio total a represálias militares enquanto não houver evidências convincentes quanto à identidade dos culpados. Uma preocupação especial da diplomacia americana é com os países muçulmanos, especialmente os árabes. Por isso, trata de amaciar conflitos como o que opõe palestinos e israelenses. Na semana passada, sob pressão do Departamento de Estado dos EUA, o duro primeiro-ministro israelense, Ariel Sharon, amaciou. Ele havia desmarcado quatro tentativas de encontro entre seu chanceler, Shimon Peres, e o líder palestino Yasser Arafat. Na semana passada, Peres e Arafat estavam trocando apertos de mão para os fotógrafos. Para evitar confusão, os americanos não querem a participação ativa dos israelenses na luta antiterrorista.

No jogo de xadrez que virou a negociação das alianças – a cada movimento de uma peça, um aliado ou um novo inimigo podem surgir –, alguns países terão de escolher de que lado do tabuleiro estão. Arábia Saudita e Emirados Árabes cortaram laços com o regime talibã, que eles reconheciam e ajudavam com dinheiro. Apesar de proscrito pelo governo, Osama bin Laden é uma figura popular em sua Arábia Saudita natal. Vários dos seqüestradores dos aviões nos Estados Unidos eram sauditas. Há no país muitos endinheirados que fazem polpudas doações para movimentos fundamentalistas islâmicos, e que são críticos do comportamento pró-americano da família real. Representante ela própria de uma seita fundamentalista, a monarquia saudita sempre manteve uma atitude ambígua em relação ao extremismo muçulmano. O desdobramento da guerra e dos eventuais ataques ao Afeganistão será decisivo para o apoio da região à coalizão antiterror. "Os países árabes que são aliados dos Estados Unidos podem ser avassalados por protestos pelas minorias radicais, que existem no Egito, no Paquistão e na Arábia Saudita", diz Luiz Felipe Lampreia, ex-ministro das Relações Exteriores do Brasil. Nesta nova ordem mundial, a vida será complicada para quem ficar em cima do muro.

   
 
   
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