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A
batalha da diplomacia
AP
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NOVA
ORDEM MUNDIAL
George W. Bush (na foto, sob aplauso de americanos) ataca em
outro campo de batalha para montar uma coalizão mundial contra o terror:
apoio da Rússia, diálogo com Cuba e a complacência do Irã |
Os diplomatas americanos lutaram nas últimas duas semanas como generais
em guerra. Para armar a ampla coligação internacional antiterrorista,
foi necessário deixar de lado rancores nacionalistas, sepultar velhas
brigas e, em alguns casos, engolir o orgulho. Se os movimentos militares
são estudados com cautela, os diplomatas estão atirando para
todos os lados. Viram-se coisas inusitadas, como um representante do Departamento
de Estado dos EUA visitando o governo cubano e uma mensagem de condolências
enviada pelo prefeito de Teerã ao prefeito de Nova York, o primeiro
gesto caloroso entre o Irã e os Estados Unidos em mais de duas décadas.
A guerra nem começou direito, mas um novo mapa já se está
esboçando, após os atentados de 11 de setembro. O
realinhamento geopolítico ocorrido na semana passada, escreveu o
jornal inglês Financial Times, é potencialmente comparável
ao que se seguiu à II Guerra, em 1945, ou à queda do Muro
de Berlim, em 1989.
A política de decisões unilaterais, em que os Estados Unidos
tomavam decisões sem consultar aliados nem respeitar tratados,
tão característica dos primeiros oito meses do governo George
W. Bush, é agora coisa do passado. No dia seguinte ao atentado,
o general Colin Powell, secretário de Estado americano, já
tinha conversado com oitenta chanceleres de outras nações.
Washington deu sinais de que pretende aumentar sua atuação
nas Nações Unidas, inclusive pagando contribuições
atrasadas à organização. O primeiro objetivo dessa
nova aliança, isolar o regime talibã, já foi alcançado.
O próximo passo, mais árduo, será uma campanha sustentada
contra os patrocinadores do terrorismo, Iraque incluído, e suas
células espalhadas pelo mundo.
Até os chamados Estados-párias, como Sudão, Irã
e Cuba, foram assediados pela diplomacia americana para a construção
dessa aliança multilateral. Estão no mesmo barco países
que eram inimigos e guerreavam entre si até o mês passado,
como Índia e Paquistão. Governos que reconheciam o regime
talibã, como o da Arábia Saudita e o dos Emirados Árabes,
abandonaram os fanáticos de Cabul. Os líderes da União
Européia, que até o mês passado se queixavam publicamente
da tendência isolacionista inicial do governo Bush, deixaram as
mágoas para trás e foram a campo atrás de adesões.
O chanceler britânico Jack Straw esteve no Irã, a pedido
dos Estados Unidos, tentando fazer uma ponte entre os dois arquiinimigos,
o regime dos aiatolás e o governo de Washington. Ouviu, surpreendentemente,
o presidente iraniano Mohamed Khatami condenar o terrorismo. É
verdade que isso não se traduziu em mudanças maiores, pois
o líder supremo religioso do país, o aiatolá Ali
Khamenei, manteve o velho discurso anti-EUA. De qualquer forma, a posição
americana pode contar com certa complacência do Irã, uma
coisa impensável antes dos atentados de Nova York e Washington.
O
maior beneficiado econômico desse novo mapa-múndi é
o Paquistão. O país sofria sanções econômicas
desde 1998 por causa de testes com armas nucleares mantidos pela ditadura
militar que tomou o poder em 1999, colocando no poder um general, Pervez
Musharraf. As sanções foram devidamente aposentadas e não
pára de pingar ajuda nos cofres do Paquistão. O vice-chanceler
japonês foi até a capital, Islamabad, oferecer um auxílio
de emergência de 40 milhões de dólares, além
de mais prazos camaradas para as dívidas paquistanesas. Uma delegação
da União Européia ofereceu suporte humanitário de
20 milhões de dólares e a redução de tarifas
alfandegárias para produtos têxteis paquistaneses. O FMI
aprovou novo empréstimo, de 135 milhões de dólares.
As relações políticas voltaram a ser decisivas para
as relações econômicas, algo em desuso no mundo da
globalização. O cenário lembra os agrados do Plano
Marshall, que reergueu a Europa no pós-guerra. Para o Paquistão,
foi uma guinada e tanto. A milícia talibã do Afeganistão
é, em parte, uma invenção do serviço secreto
paquistanês. O Paquistão acreditava que o Afeganistão
controlado pelos fundamentalistas islâmicos seria um aliado confiável
e daria a seu Exército a retaguarda estratégica de que necessita
para um conflito em larga escala com a Índia, tradicional inimigo
vizinho dos paquistaneses. Se o Paquistão aceitou voltar-se contra
seus aliados talibãs, um assédio muito sério foi
realizado pelos países ocidentais.
AFP
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A
RÚSSIA NÃO É MAIS A MESMA
O presidente Vladimir Putin, em visita à Alemanha: o antigo inimigo
da Guerra Fria apóia Washington em troca de vista grossa para sua
guerra na Chechênia |
O
sucesso dessa pressão financeira e diplomática levou o Paquistão,
um dos mais radicais Estados islâmicos do mundo e um dos três
que mantinham relações diplomáticas com o Afeganistão,
a renegar os velhos amigos talibãs, num gesto de traição
que ninguém esperava há duas semanas. Afinal, a aliança
com os Estados Unidos, se traz vantagens imediatas aos paquistaneses,
é uma decisão delicada para os governantes do país.
Os talibãs pertencem à etnia patane, a segunda maior do
Paquistão. Os partidos fundamentalistas muçulmanos também
são fortes no país. Assim, a ditadura do general Musharraf
corre até mesmo o risco de ser derrubada por seu povo. Se apesar
de tudo isso se pôs ao lado de Washington, é porque a alternativa
era o isolamento internacional no bloco dos países-terroristas.
No capítulo das alianças de última hora, a mais impressionante
foi a adesão do presidente russo Vladimir Putin. Em discurso no
Parlamento alemão, ofereceu apoio estratégico e de inteligência
aos Estados Unidos. "A Guerra Fria acabou, o mundo está em outro
estágio de desenvolvimento. A luta contra o separatismo, o ódio
e o fundamentalismo religioso é universal", disse, em alemão,
língua que aprendeu como agente da KGB na Alemanha. A Rússia
permitiu o uso de seu espaço aéreo pelos aviões aliados
e autorizou que ex-repúblicas soviéticas que fazem fronteira
com o Afeganistão (Uzbequistão, Tadjiquistão e Turcomenistão)
cooperem. Em troca, os americanos devem fazer vista grossa às atrocidades
do Exército russo na Chechênia, uma republiqueta separatista.
A mudança foi grande nos dois lados. Na Rússia, onde o antiamericanismo
ainda é bem forte entre as Forças Armadas, o ministro da
Defesa havia dito na semana passada que tropas da Otan jamais poderiam
usar solo russo. Uma semana depois, na Alemanha, Putin falaria não
apenas em permitir tropas da Otan em seu território. Disse que
a Rússia queria entrar para a Otan. Viu-se aí uma virada
abrupta do comando russo, um giro de 180 graus.
Reuters
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OBRIGADOS
A CONVERSAR
Depois de vários adiamentos, o palestino Yasser Arafat e o chanceler
Shimon Peres, de Israel, se encontraram para garantir o cessar-fogo:
diálogo exigido por Washington |
Ainda
não é conhecido o preço que cada país está
pedindo em troca da adesão à luta antiterrorista. É
também incerto até onde irá o apoio incondicional
se começar uma guerra e houver mortos civis. Muitas nações,
inclusive européias, hesitam em dar apoio total a represálias
militares enquanto não houver evidências convincentes quanto
à identidade dos culpados. Uma preocupação especial
da diplomacia americana é com os países muçulmanos,
especialmente os árabes. Por isso, trata de amaciar conflitos como
o que opõe palestinos e israelenses. Na semana passada, sob pressão
do Departamento de Estado dos EUA, o duro primeiro-ministro israelense,
Ariel Sharon, amaciou. Ele havia desmarcado quatro tentativas de encontro
entre seu chanceler, Shimon Peres, e o líder palestino Yasser Arafat.
Na semana passada, Peres e Arafat estavam trocando apertos de mão
para os fotógrafos. Para evitar confusão, os americanos
não querem a participação ativa dos israelenses na
luta antiterrorista.
No jogo de xadrez que virou a negociação das alianças
a cada movimento de uma peça, um aliado ou um novo inimigo
podem surgir , alguns países terão de escolher de
que lado do tabuleiro estão. Arábia Saudita e Emirados Árabes
cortaram laços com o regime talibã, que eles reconheciam
e ajudavam com dinheiro. Apesar de proscrito pelo governo, Osama bin Laden
é uma figura popular em sua Arábia Saudita natal. Vários
dos seqüestradores dos aviões nos Estados Unidos eram sauditas.
Há no país muitos endinheirados que fazem polpudas doações
para movimentos fundamentalistas islâmicos, e que são críticos
do comportamento pró-americano da família real. Representante
ela própria de uma seita fundamentalista, a monarquia saudita sempre
manteve uma atitude ambígua em relação ao extremismo
muçulmano. O desdobramento da guerra e dos eventuais ataques ao
Afeganistão será decisivo para o apoio da região
à coalizão antiterror. "Os países árabes que
são aliados dos Estados Unidos podem ser avassalados por protestos
pelas minorias radicais, que existem no Egito, no Paquistão e na
Arábia Saudita", diz Luiz Felipe Lampreia, ex-ministro das Relações
Exteriores do Brasil. Nesta nova ordem mundial, a vida será complicada
para quem ficar em cima do muro.
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