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Edição 1 720 - 3 de outubro de 2001
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Não dá para desligar

DIA DE CRISE
A principal redação da CNN, em Atlanta, após os atentados

Às 8h49 do dia 11 de setembro, apenas quatro minutos depois de uma das torres do World Trade Center ser atingida por um avião seqüestrado, a rede americana de notícias CNN transmitiu as primeiras imagens dos atentados terroristas que abalaram os Estados Unidos. Desde então, ela acompanha os desdobramentos da tragédia com um batalhão de mais de 1 000 jornalistas mobilizado em tempo integral. Mantém profissionais em alerta em dezessete países considerados "quentes", especialmente no Oriente Médio. E é o único canal que ainda conta com dois correspondentes num Afeganistão cada vez mais isolado pela ameaça de guerra. Dez anos após se tornar a principal grife jornalística da TV mundial, com sua estupenda atuação na Guerra do Golfo, a CNN se encontra de novo em terreno que domina como ninguém: a cobertura intensiva de um evento político e bélico de repercussão planetária.


Não têm faltado críticas à emissora, que vem batendo recordes de audiência desde o dia dos atentados (veja quadro ao lado). Acusam-na de fazer "patriotadas", de manipular informações, de haver assumido uma linha editorial para ajudar os Estados Unidos a instaurar um clima de opinião que lhe seja favorável. Um ataque inusitado à rede partiu do Brasil – onde as imagens da emissora podem ser conferidas em dois canais pagos, a CNN International, em inglês, e a CNN en Español. Um aluno de sociologia da Universidade de Campinas, Márcio A.V. Carvalho, espalhou na internet o boato de que a CNN exibia imagens antigas como se fossem as de palestinos que comemoravam os atentados do mês passado. O objetivo da emissora seria criar uma onda global de animosidade contra muçulmanos. Tudo bobagem. Ao contrário do que supõem os mal informados, a CNN, fundada pelo milionário Ted Turner em 1980 e hoje pertencente ao grupo AOL Time Warner, está longe de ser um órgão a serviço do establishment americano. Nos Estados Unidos, ela ocupa uma posição à esquerda no espectro político. A direitona patriótica sintoniza mesmo é a Fox News, de propriedade do notório conservador (para dizer o mínimo) Rupert Murdoch. O noticiário da Fox, sim, é de provocar fibrilações nos corações mais liberais. Os críticos brasileiros da CNN logo terão oportunidade de constatar essa diferença – o canal de Murdoch começará em breve a ser veiculado na TV paga do país.

 
Angeli/Alain Rolland/Maxima Productions

ESTILOS DIFERENTES
A ex-atriz Andrea e Christiane: estrelas da emissora

Em suas coberturas de guerras, a CNN invariavelmente enfrenta as restrições à informação impostas pelo governo americano. "A censura do Pentágono está pior desta vez. Até as notícias mais rotineiras são retidas pelos militares, por medo de que possam ser úteis para eventuais ataques terroristas", disse a VEJA Eason Jordan, executivo-chefe da emissora. Uma das maiores qualidades da CNN é seu esforço para manter-se presente nas regiões mais remotas e conflituosas. No caso do repórter Nic Robertson, o único jornalista ocidental no Afeganistão quando a crise eclodiu, ele havia sido destacado para registrar o julgamento de oito militantes de ONGs dos Estados Unidos e da Europa, acusados pelo regime islâmico de "propagar o cristianismo". Robertson foi expulso do Afeganistão dez dias atrás, mas a emissora conseguiu colocar outros dois repórteres no norte do país, dominado pela oposição ao Talibã.

Nos últimos anos, a CNN vinha passando por uma crise sem precedentes. Em meados da década de 90, duas fortes concorrentes, a Fox News e a MSNB, surgiram para disputar o mesmo nicho de mercado. Entre 1997 e 2000, a CNN perdeu nada menos que um terço de seus espectadores. Para muitos, em momentos de calmaria seu formato noticioso revelava-se "quadrado" e monótono. A rede passou por reformulações de cúpula, demitiu funcionários e tentou, meio desajeitadamente, introduzir algumas inovações. Criou programas mais leves, na linha do jornalismo-entretenimento, e tratou de contratar apresentadoras de rostinho bonito, como a jornalista Paula Zahn e a ex-atriz Andrea Thompson, que atuou num seriado de TV e até posou nua antes de encarar seu tailleurzinho comportado de âncora de telejornal. As mudanças ainda não tinham mostrado muito efeito quando, de repente, os aviões seqüestrados atingiram as torres do World Trade Center e o prédio do Pentágono. A tragédia foi a chance de a CNN reencontrar sua vocação. E dar um banho na concorrência.


ALIADO TECNOLÓGICO
O videofone e imagem enviada por Robertson: equipamento pesa só 8 quilos

Maleta cheia de truques

Imagens exclusivas obtidas pela CNN devem-se a uma engenhoca chamada videofone. Foi com ele que o jornalista Nic Robertson mostrou imagens da capital do Afeganistão, Cabul, sendo bombardeada por forças rebeldes menos de um dia depois dos atentados em Nova York e Washington. O mesmo recurso poderá ser usado por Chris Burns e Steve Harrigan – até a semana passada, os dois únicos correspondentes da TV americana em território afegão –, para enviar reportagens ao mundo. Graças ao aparelho, a rede saiu à frente dos concorrentes em outras ocasiões, como a do terremoto que abalou a Índia em janeiro e a do afundamento do submarino russo Kursk, no ano passado. O videofone dispensa o operador de câmara e cabe numa pasta 007. Ali dentro há minicâmara, telefone celular, monitor e microfone. Peso: 8 quilos. Outra vantagem é que se pode ligar o conjunto até no acendedor de cigarro de um carro. Os dados são enviados por satélite. "Essa é a revolução que fará a diferença nesta cobertura", acredita a repórter Christiane Amanpour, uma das estrelas da CNN.



   
 
   
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