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Quando a guerra
é justa
AFP
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O
VÔO DA INOCÊNCIA
Criancinhas, como nesta marcha pela paz, são arroladas nas
fileiras dos bem-intencionados e mal informados |
Os
atentados terroristas contra os Estados Unidos abriram caminho a um tipo
peculiar de obtusidade moral. Corpos sem cabeça e cabeças
sem corpo ainda cobriam as calçadas de Nova York, vítimas
inocentes estavam morrendo nos hospitais, dentre os poucos sobreviventes
transformados em tochas humanas, pais e mães se horrorizavam ante
a idéia das criancinhas pulverizadas nos aviões dominados
pelos fanáticos suicidas e uma pergunta já rondava muitas
mentes: "O que será que os Estados Unidos vão fazer agora?"
A partir dessa indagação, saltou-se para a conclusão
de que a superpotência desfecharia uma reação arrasadora,
indiscriminada. E, daí, em muitos casos, para marchas e passeatas
em favor da paz, invariavelmente
marcadas por uma confusão conceitual na qual a "guerra" (a resposta
americana à agressão, que possivelmente nem terá
o formato de um confronto convencional) é colocada no mesmo nível
que o terrorismo, quando não considerada pior ainda. O uso de crianças
inocentes, de artistas de cabeça oca e de ingênuos em geral
não obscureceu um fato: no estado de embotamento moral propiciado
por tal inversão de valores, praticamente desapareceram as manifestações
de pesar, como exigiria o mais elementar sentimento de humanidade, pelas
mais de 6.000 pessoas imoladas na fúria terrorista.
As pessoas que se opõem tanto a uma operação militar
podem ser divididas em dois grupos. No primeiro, alinham-se aqueles que,
habituados a uma automática reação antiamericana,
não conseguem conceber uma situação na qual a superpotência
seja vítima, não perpetradora, de um crime. Por esse caminho
é que se chega à conclusão indecente de que os americanos,
em geral, fizeram por merecer os ataques hediondos. O segundo grupo abriga
os bem-intencionados e mal informados, os que consideram que toda guerra
é intrinsecamente má e deve ser combatida a qualquer preço.
A reação automática de apelar "pela paz" é
compreensível. O problema é que a desinformação
contribui para alimentar a aflição popular. Segundo uma
pesquisa conduzida pelo instituto Sensus, por encomenda da Confederação
Nacional do Transporte, 79,1% dos brasileiros entrevistados acham que
vai haver uma guerra mundial, 23,6% atribuem os atentados, comandados
pelo milionário Osama bin Laden, a conflitos econômicos e
outros 23,1% põem a culpa em questões raciais.
AP
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CONFUSÃO
SOBE À
CABEÇA
Paz ou guerra é a dúvida esculpida no cabelo dos jovens
indianos: desinformação e medo geram confusão |
A essas boas almas, monsenhor Joaquín Navarro Valls, o porta-voz
do papa João Paulo II, dirigiu um chamado à razão
na semana passada. "Se alguém causou um grande dano à sociedade
e se existe o risco de que, continuando livre, possa voltar a fazê-lo,
impõe-se aí o direito à autodefesa, ainda que este
implique o uso de meios que possam ser agressivos", disse ele. O estilo
é sinuoso, mas o significado é claro: do ponto de vista
da Igreja, uma reação armada americana é legítima,
ressalvados, obviamente, o princípio da proporcionalidade e o esforço
de preservação da integridade física dos inocentes.
Se restava alguma dúvida quanto à posição
do Vaticano, Navarro Valls disparou o último míssil: "Às
vezes, é mais prudente reagir do que ser passivo. Nesse sentido,
o papa não é um pacifista, pois é preciso notar que,
em nome da paz, foram cometidas muitas injustiças".
O porta-voz do papa tomou o cuidado de não usar o termo guerra
justa, considerado ultrapassado pelos estudiosos, embora seja um conceito
existente desde a Antiguidade clássica, recuperado por sábios
da Igreja, como Santo Agostinho e Santo Tomás de Aquino (e muitas
vezes invocado indevidamente, para justificar abusos). À luz da
tradição humanista da Igreja e dos princípios da
ética cristã hoje vigentes, no entanto, as palavras do porta-voz
do papa têm um peso extraordinário. Não é todo
dia que o Vaticano endossa o recurso à força e relembra,
sutilmente, a chaga aberta pela política de apaziguamento em relação
à Alemanha nazista. Despreparadas diante do furor belicista de
Hitler, Inglaterra e França tentaram aplacá-lo. Ofereceram,
primeiro, a entrega de metade da região conhecida como Sudetos,
com população majoritariamente alemã, no que era
a Checoslováquia da época. Hitler tomou os Sudetos inteiros.
Depois, a Checoslováquia inteira. Sem disparar um só tiro.
O Pacto de Munique, que selou a vergonhosa rendição, entrou
para a História como sinônimo da inutilidade das tentativas
de negociar com tiranos e de desonra para os homens que o chancelaram.
Os horrores produzidos pelas duas grandes guerras do século XX
(26 milhões de mortos na primeira, 50 milhões na segunda)
levaram a comunidade internacional a regular estritamente o recurso à
violência. O exercício da força de um Estado contra
outro é governado, do ponto de vista do direito internacional,
pela Carta das Nações Unidas. A linguagem extremamente cautelosa
do artigo 51 estabelece: "Nada na presente Carta prejudicará o
direito inerente de legítima defesa individual ou coletiva no caso
de ocorrer um ataque armado contra um membro das Nações
Unidas". Em linguagem popular, isso significa que um país agredido
tem o direito natural de revidar para se defender.
Não é preciso ser pró-americano para aceitar a legitimidade
de uma resposta armada dos Estados Unidos aos autores dos atentados de
Nova York e Washington. Nem é preciso, por causa disso, ignorar
as notórias deficiências da política externa americana,
especialmente no Oriente Médio. Também não é
necessário fechar os olhos às injustiças históricas
sofridas pelo povo palestino. Ou deixar de se preocupar com o destino
dos pobres afegãos, arrastados para o centro de um conflito internacional
por obra de um bando de fanáticos. Essas coisas são perfeitamente
compatíveis entre si.
Embora o direito à autodefesa pareça auto-explicativo, ainda
assim há espaço para uma posição contrária.
"Na análise das relações internacionais, existem
duas correntes de pensamento que se contrapõem: a realista e a
idealista. A segunda entende que todo conflito deve ser solucionado por
meio de fórmulas negociadas e que a guerra é uma imoralidade
e uma aberração por princípio", explica Alcides Costa
Vaz, professor do departamento de relações internacionais
da Universidade de Brasília. O pacifismo é um movimento
digno de todo o respeito, especialmente pela coragem que requer de seus
praticantes. Se, por hipótese, se fica sabendo que os terroristas
de Osama bin Laden pretendem atacar determinados alvos, digamos, embaixadas
americanas, os pacifistas de verdade se veriam na obrigação
moral de fazer uma corrente humana em torno desses prédios, dar-se
as mãos e esperar que, por meio desse supremo exemplo de desprendimento,
Laden desistisse de transformá-los em tochas humanas. Quem, desde
já, se candidatar adquire incontestavelmente o direito de aconselhar
os Estados Unidos a não reagir ao massacre de 6.000 cidadãos.
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