
estasemana
colunas
seções
arquivoVEJA
 |
 |
| (conteúdo
exclusivo para assinantes VEJA ou UOL) |
 |
Crie
seu grupo

|
|
O
vírus anti-EUA
Reuters
 |
O
MUNDO A SEUS PÉS
Os manifestantes pisoteiam a bandeira americana em protesto no Paquistão
na semana passada |
Em
tempos de paz, o antiamericanismo no Ocidente é uma postura inofensiva,
adotada por gente que veste jeans, toma Coca-Cola, come hambúrguer
e manda os filhos para os parques da Disney World. Nas conversas dessas
pessoas, os americanos são descritos como senhores do mundo mas
superficiais, imersos numa cultura consumista e tosca quando comparada
aos supostos refinamentos do estilo europeu. Nos dias que se seguiram
ao assassinato de milhares de trabalhadores, predominantemente americanos,
mas também de dezenas de outras nacionalidades, no ataque terrorista
às torres gêmeas em Nova York, o uso político dessa
ideologia perdeu a inocência de que habitualmente se reveste. Mal
se contaram os mortos nos atentados e já viajava pelo mundo a idéia
de que os Estados Unidos foram, em última análise, os causadores
da tragédia que se abateu sobre eles.
AP
 |
A
GUERRA NO CAMINHO
Manifestante solitário ergue um cartaz pacifista em Los Angeles: oposição
começa em casa |
Por mais graves que tenham sido os erros e até os crimes cometidos
pelos americanos em sua expansão imperial no decorrer do século
que se encerrou, as críticas de que foram alvo em demonstrações
pelas capitais do mundo na semana passada eram elas próprias um
atentado ao bom senso. Em
Berlim, 15 000 jovens saíram às ruas para protestar contra
os americanos, que já movimentavam suas forças bélicas
para atacar os ninhos do terror no Afeganistão. Em Nápoles
também houve protestos. Em Atenas, a mesma coisa. No México
e na Espanha, esquerdistas picharam muros com o nome e o rosto do terrorista
Osama bin Laden, celebrando-o como herói. No Brasil, os protestos
foram mal disfarçados em atos pela paz convocados por partidos
de esquerda e ONGs no Rio de Janeiro e em São Paulo. Manifestações
antiamericanas como essas, num momento de genuína consternação
planetária contra o ato terrorista, são intrigantes.
Entre os povos árabes e outras etnias que seguem o islamismo, as
causas da aversão aos americanos são mais compreensíveis.
A democracia e a modernidade a que se expõem os islâmicos
no contato com os Estados Unidos são venenos para as elites locais.
Em dois terços dos países islâmicos, os religiosos
têm poder de Estado. Os mulás controlam a vida social, política,
militar e econômica dos países. Definem comportamentos, estabelecem
quem são os inimigos e amigos do país. Nos mais radicais,
como o Afeganistão, de onde a televisão e a internet foram
banidas, até o tamanho da barba é definido pelo Estado teocrático.
"Para os líderes religiosos desses países, a simples existência
de uma nação como os Estados Unidos já é assustadora.
Mas o pavor mesmo vem do fato de os Estados Unidos não serem uma
nação qualquer, mas uma potência hegemônica
com interesses econômicos e presença física e militar
em regiões islâmicas", diz o professor de filosofia americano
Mark Hadley. Num ambiente assim, satanizar os EUA é uma opção
política quase natural. Jovens pauperizados e sem esperança
de progresso material ouvem dos tiranos que os governam que a causa de
sua miséria é externa. Dessa maneira, os governantes árabes
colocam nos Estados Unidos a culpa pela própria falta de iniciativa
para promover o bem-estar do povo.
Mas como explicar o sentimento de aversão ao modo de vida americano
em capitais do Ocidente, onde se realizaram as passeatas da última
semana? "O oportunismo das manifestações foi evidente. Mas
será que as raízes do ódio aos Estados Unidos penetraram
mais fundo do que se imaginava até então?", perguntava a
revista inglesa The Economist. Realmente, o luto durou pouco demais.
Ele se manteve apenas até o momento em que a formidável
máquina de guerra americana começou a exercitar suas garras
em frente das câmaras de televisão. Bastou que circulassem
as primeiras imagens dos caças F-16 e dos porta-aviões americanos
pelas redes de televisão para que o fervor antiterrorista fosse
remodelado para uma mobilização contra a guerra de vingança
dos americanos. "O número de pessoas que ainda estão chocadas
com o atentado é avassaladoramente maior que o daquelas que o viram
apenas como mais uma oportunidade de apedrejar os Estados Unidos", escreveu
Anatol Lieven, um estudioso americano da Rand Corporation, instituição
semi-oficial que há décadas assessora sucessivos governos
americanos na área estratégica e foi instrumental durante
os anos da Guerra Fria. Mas não se deve invalidar o argumento de
Lieven apenas por sua clara filiação ideológica.
AFP
 |
AP
 |
PROTESTO
Jovens em Berlim seguram cartazes com dizeres: "Parem a guerra. Civilização
é genocídio". Na Índia, a queima da bandeira |
A
reação antiamericana foi quase instantânea e disseminada
por muitas capitais do mundo. Nos países islâmicos, parecia
um teatro orquestrado e perfeitamente natural. Fora dessa esfera onde
Alá é a bússola dos povos, tinha a aparência
de uma erupção deslocada, uma interrupção
aos gritos de um processo de luto. A livre discussão das idéias
é sempre um oxigênio na vida das nações porque
libera pressões modernizantes que de outra forma ficariam represadas.
Mas, no caso das manifestações da semana passada, o que
se viu em muitos lugares foi a união velhaca de raposas da esquerda
e da direita, fazendo seu proselitismo. Sob a mesma pregação
contra os valores americanos, estiveram na última semana forças
ideologicamente tão distantes quanto as representadas por Jean-Marie
Le Pen, um racista declarado, líder da extrema direita francesa,
e, por exemplo, parte da intelectualidade engajada do Brasil. Le Pen esqueceu
sua plataforma política de ódio aos imigrantes de origem
árabe para se entregar à tentação de colocar
a culpa dos atentados nas próprias vítimas. "Os atentados
são condenáveis, mas a política externa americana
danosa está na origem da tragédia", disse Le Pen.
Com
ligeiras variações foi o que se ouviu de alguns porta-estandartes
da esquerda brasileira e também de representantes indistintos da
tolice nacional. Ato terrorista é culpa de terrorista em qualquer
país que seja cometido. Em artigo no jornal Folha de S.Paulo,
na segunda-feira passada, o historiador Boris Fausto, um dos mais
respeitados em seu campo de atividade, escreveu o seguinte: "Depois de
apresentar as condolências de praxe, essa gente (círculos
nacionalistas e de esquerda) acaba dizendo, até com certo prazer,
que os Estados Unidos colhem o que plantaram". Reconhecendo os "erros
e barbaridades" da sociedade americana, Boris Fausto ressalta o papel
vital dos EUA na preservação da democracia e termina por
convocar seu leitor a uma escolha: "Ou será que deveríamos
lavar as mãos diante da face sinistra dos mensageiros da morte?".
Primitivo como ideologia de mobilização de massas, o antiamericanismo
é um fenômeno que merece reflexão. Ele tem razões
psicológicas, econômicas, religiosas, étnicas, geográficas
e, certamente, ideológicas. Quase todos os países do mundo
com algum peso político expressivo atraem simpatizantes e detratores.
A má vontade com os Estados Unidos tem o tamanho de seu poder de
maior potência militar e econômica do planeta. Resultou em
parte das tensões geradas pela expansão americana, um atrito
que se iniciou nas primeiras décadas do século passado e
adquiriu velocidade estonteante às vésperas da entrada no
terceiro milênio. A globalização econômica também
carrega a impressão digital de asiáticos e europeus, mas
é percebida quase universalmente como benéfica preferencialmente
para os americanos. "O ritmo que a crescente eficiência e a produtividade
dos Estados Unidos imprimiram à economia mundial nas duas últimas
décadas foi muito forte", diz o economista americano Paul Krugman.
"Em muitos países, ele provocou um processo de destruição
criativa, que, se foi benéfico por um lado, por outro dilacerou
tradições culturais e gerou insatisfações
profundas."
A força avassaladora do modelo americano criou sentimentos planetários
de insegurança e impotência. No plano econômico, registrou-se
uma obsolescência dos parques industriais de alguns países
na confrontação com modelos mais eficientes de produção
de riqueza. Mercados antes protegidos foram inundados por produtos mais
baratos e melhores que aqueles fabricados localmente. O movimento de globalização
gerou prosperidade e eficiência econômica sem precedentes
para muitas nações, e não apenas para os Estados
Unidos. Mas, ao enfraquecer setores industriais tradicionais de economias
retardatárias, gerou também muita insatisfação.
No campo político, muitos países sentiram minada a própria
soberania, à medida que o foco de muitas decisões importantes
se transferia para Washington e Wall Street. Até nações
poderosas acusaram o golpe dessa guinada de poder em direção
aos Estados Unidos. "Quanto mais fortes eles ficam, mais estrondosa será
a queda. Todo império termina em espetáculo", escreveu no
The Times de Londres Matthew Parris, político do partido
conservador inglês.
AFP
 |
MISTÉRIO
HOLANDÊS
A imagem acima foi apreendida por policiais holandeses numa escola
para crianças islâmicas: ela ilustra um calendário feito no começo
do ano. Os dizeres em árabe: "Com ajuda de Alá morrerei por Alá" |
De
um lado é típico dos impérios, em todos os tempos,
atrair desafiantes ousados e doses cavalares de antipatia. Foi assim com
os romanos na Antiguidade e com a própria Inglaterra. Por outro
lado, é curioso que potências que exerceram ou exercem seu
poder de modo muito mais discricionário que os Estados Unidos não
tenham atraído tanta antipatia das classes bem pensantes do mundo
civilizado. A União Soviética despencou sobre si mesma numa
implosão monumental de ineficiência e soberba sem que seus
crimes hediondos tenham gerado metade da exasperação que
a presença americana no mundo desperta. Hoje em dia, a própria
China, um regime ditatorial expansionista, só pareceu incomodar
o universo das "classes conversadoras" por ocasião do massacre
de estudantes na Praça da Paz Celestial, em Pequim, no ano de 1989.
Não
existem impérios inocentes. Nenhum país chega à posição
de líder guindado pela ingenuidade. Os Estados Unidos com freqüência
são ainda arrogantes e até hipócritas. As posições
recentes dos americanos renegando acordos internacionais de proteção
ecológica, como o de Kioto, aliadas ao fato de serem eles os maiores
produtores de gases poluentes do planeta, certamente não atraem
simpatia. A recusa em bancar suas obrigações financeiras
como membros da Organização das Nações Unidas,
a ONU, soa para muita gente como um desprezo para com a comunidade internacional.
A nação mais rica do planeta não pode alegar falta
de recursos nesse caso. É um tapa na diplomacia mundial o governo
americano levar criminosos de guerra a tribunais internacionais, como
fez recentemente com o ex-presidente da Iugoslávia Slobodan Milosevic,
ao mesmo tempo que veta o direito de outros países e organismos
internacionais de processar seus próprios cidadãos. Ações
como essas causam ressentimento. Mas seriam elas suficientes para atrair
um atentado terrorista da magnitude do que destruiu as torres gêmeas?
Só da perspectiva de lunáticos. Também não
se pode sacar uma justificativa da conta de ressentimentos acumulados
em meio século de Guerra Fria. Foi um período de ódios
e transgressões, no qual o império soviético sempre
se destacou como muito mais ousado em suas investidas contra a soberania
de outros países.
Há provavelmente alguns sentimentos mais simples, menos reflexivos,
na gênese do antiamericanismo que se observa nos salões dos
letrados. "O antiamericanismo em Paris e Londres é resultado de
um pouco de irracionalidade, modismo e ignorância mesmo", diz o
inglês Bryan Appleyard, autor de um artigo sobre o tema publicado
pelo jornal londrino The Sunday Times e reproduzido no Brasil pelo
jornal Estado de S. Paulo. Pode-se acrescentar outro ingrediente,
a inveja pura e simples. Como lembra Appleyard, os Estados Unidos atualmente
têm mais escritores, músicos e pensadores de projeção
mundial do que todos os países da Europa. A cultura americana é
dominante no mundo. E não apenas a cultura pop. "Os americanos
são hoje os mais inteligentes, mais educados e cultos povos do
planeta", escreveu o articulista inglês. "São pelo menos
trinta as universidades americanas onde nossos melhores e mais brilhantes
alunos seriam considerados apenas medianos." Ele diz que o antiamericanismo
se alimenta também da memória seletiva de seus cultores.
Eles não deixam os pecados do passado morrer de velhos. Ao mesmo
tempo, nunca se lembram das grandes conquistas humanitárias dos
EUA no passado. Foram os caipiras da América que em três
oportunidades no século que passou salvaram a refinada civilização
européia do caos. Na I Grande Guerra, as tropas do general Pershing
desempataram uma cruel luta de trincheiras em que toda uma geração
de jovens europeus apodrecia entre o tifo e a gangrena. Na II Guerra,
libertaram primeiro a França e a Itália e depois toda a
Europa do nazi-fascismo. Em seguida, financiaram a reconstrução
do continente com o Plano Marshall. Antes que o século acabasse,
os americanos liquidaram, sem violência, outro regime bárbaro,
o comunismo soviético. Claro que tais feitos não concedem
imunidade eterna aos Estados Unidos. Pelo mesmo raciocínio, também
seus erros passados não deveriam pairar sobre eles como uma condenação
perpétua. Ao menos na hora do luto.
|
|
 |
|
 |

|
 |