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Melhor
mandar chumbo
"A
maioria dos brasileiros
é
contra uma ação militar contra
os países coniventes com o
terrorismo. Se os brasileiros são
contra, isso só pode ser bom"
No
domingo passado, 8.000 paulistanos se reuniram no Parque do Ibirapuera
para pedir paz. A atriz Letícia Sabatella pediu paz. O cantor Fábio
Jr. pediu paz. A mãe-de-santo Sylvia de Oxalá pediu paz.
Assim como pediram paz o governador Geraldo Alckmin e a prefeita Marta
Suplicy. Eles refletiam o estado de ânimo do resto da população.
Segundo uma pesquisa do Datafolha publicada no mesmo dia, 79% dos brasileiros
se diziam contrários a uma ação militar contra os
países coniventes com o terrorismo. Se 79% dos brasileiros são
contrários a uma coisa, significa que ela tem algo de bom. Sobretudo
se os 79% incluem as personalidades citadas acima.
De fato, fazendo um balanço das ações militares do
Ocidente desde o fim da Guerra Fria, deve-se admitir que o saldo não
é tão negativo assim. A última, na Iugoslávia,
foi a mais bem-sucedida. A intervenção da Otan não
só conseguiu interromper os massacres étnicos no Kosovo,
como livrou o país de um ditador canalha e o levou a julgamento.
Muita gente disse que os atentados nos Estados Unidos foram uma resposta
às agressões contra os muçulmanos por parte das grandes
potências ocidentais. Mas a guerra na Iugoslávia defendeu
uma minoria muçulmana contra as tentativas de extermínio
de uma maioria cristã. Cometeram-se erros, como o bombardeio de
um trem de passageiros, da estação de TV ou da embaixada
chinesa. Teria sido muito pior, porém, fingir que nada estava acontecendo.
Como em Ruanda. Um dos maiores genocídios da história ocorreu
porque o Ocidente tirou o corpo fora, em vez de mandar suas tropas. Uma
maior intromissão em Israel também ajudaria a atenuar os
problemas no Oriente Médio. Não seria inútil uma
medida como um embargo de armamentos, por exemplo.
A guerra contra o Iraque não deu muito certo, embora não
tenha sido tão desastrosa quanto dizem. Saddam Hussein continua
no poder, mas foi expulso do Kuwait e deixou de reprimir com armas químicas
curdos e xiitas. Por falar em curdos, mais pressão internacional
sobre a Turquia seria bem-vinda. Ou sobre o Paquistão, que financia
os terroristas da Caxemira. O problema é que os paquistaneses têm
a bomba atômica, e, cinicamente, é preferível intervir
contra países fracos, tomando mais cuidado com os fortes, como
Paquistão ou China. Outra coisa: não há dúvida
de que as grandes potências são prepotentes e obtusas em
matéria de política externa. Ninguém deve iludir-se
quanto a isso. Mas nem sempre prepotência e obtusidade produzem
maus resultados. Os motivos que levaram a Grã-Bretanha a declarar
guerra contra a Argentina, em 1982, foram os piores possíveis.
A derrota militar, no entanto, serviu para que a Argentina se liberasse
de uma ditadura sanguinária. É exatamente o que se espera
que aconteça no Afeganistão. Não faz o menor sentido
bombardear o país, mas pode ajudar a acabar com o regime ditatorial
do Talibã.
Os brasileiros não querem que nossos militares se envolvam numa
guerra. Nesse ponto, é necessário dar-lhes razão.
Nossos militares só fariam confusão. Eles são ruins
de guerra. Só servem para censurar revistas de mulher pelada e
torturar prisioneiros políticos. Tendo perdido essa missão,
o melhor seria dissolver nossas Forças Armadas. Com certeza, Letícia
Sabatella, Fábio Jr., Sylvia de Oxalá, Geraldo Alckmin e
Marta Suplicy concordariam.
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