Publicidade
buscas
cidades PROGRAME-SE
Edição 1 720 - 3 de outubro de 2001
Entrevista: JOHN KEEGAN

estasemana
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Sumário
Brasil
Especial
Guia
Artes e Espetáculos

colunas
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Stephen Kanitz
Sérgio Abranches
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo

seções
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Carta ao leitor
Entrevista

Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Hipertexto exclusivo on-line
Gente
Datas

Para usar
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos

arquivoVEJA
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Digite uma ou mais palavras:

Busca detalhada
Arquivo 1997-2001
Reportagens de capa 2000 | 2001
Entrevistas
2000 | 2001
Busca somente texto 96|97|98|99|00|01


Crie seu grupo




 

A guerra irracional

Historiador inglês diz que a única saída
é eliminar os terroristas, pois não se
pode usar a razão para convencê-los

Eduardo Salgado

Fascinado por guerras e pela vida militar desde que viu as tropas aliadas se preparando para o Dia D, no interior da Inglaterra, sir John Keegan não conseguiu realizar o sonho juvenil de se tornar soldado. Uma doença de infância o deixou manco e o impediu de ingressar na academia militar. Os ingleses perderam um general, mas o mundo ganhou seu mais celebrado historiador militar. Quando entrou na Universidade de Oxford, em 1953, dedicou-se à história das atividades militares. Em 1960, aos 25 anos, foi aceito como professor na Real Academia Militar de Sandhurst, a escola de cadetes ingleses, onde ficou até 1986. Casado há quarenta anos com Susanne e pai de quatro filhos, é editor de defesa do jornal inglês Daily Telegraph, mas passa a maior parte de seu tempo fazendo pesquisas e escrevendo livros. Ao todo, já publicou vinte obras, entre elas o clássico Uma História da Guerra (lançado no Brasil pela Companhia das Letras). Atualmente, prepara um livro sobre as operações de inteligência nos últimos 200 anos. De sua casa, no interior da Inglaterra, Keegan concedeu a seguinte entrevista a VEJA.

Veja – O que será necessário fazer para que os terroristas sejam punidos pelos atentados em Nova York e Washington?
Keegan – A prisão, o julgamento e a execução de Osama bin Laden. Mas isso não seria o fim dos problemas. Os objetivos dos terroristas não deixam o menor espaço para negociações e concessões. Estamos vivendo uma situação muito incômoda. Não consigo ver um fim para isso. Para cidadãos comuns, é muito deprimente. Para os governantes, é preocupante. A única saída é eliminar os terroristas. Ou os prendemos pelo resto de suas vidas ou os matamos. Não tem outro jeito. Não temos como convencê-los de que estão errados com conversa, usando a razão.

Veja – Será difícil para os americanos derrotar o Talibã, a milícia que controla o Afeganistão?
Keegan – O Talibã não é tão forte quanto alguns falam. Não é numeroso nem tem um exército bem organizado e equipado. Muitos componentes nem são afegãos. Vêm do Paquistão e não conhecem tão bem o terreno. O Talibã é impopular devido à forma radical com que impôs o islamismo fundamentalista. Historicamente, os afegãos não são particularmente fervorosos em termos religiosos. Uma intervenção no Afeganistão não deve encontrar forte resistência. Pelo menos, não em grandes proporções. Já encontrar Osama bin Laden será difícil. O país é grande e selvagem, com um terreno dificílimo. Operações pequenas e rápidas para capturar Laden são a melhor opção.

Veja – Até que ponto a fama de guerreiros invencíveis dos afegãos é verdadeira?
Keegan – Eles são muito bons dentro do Afeganistão. Conhecem bem o país e são arrojados. Em várias oportunidades, conseguiram repelir invasores. Mas não são super-homens. Os ingleses organizaram campanhas militares bem-sucedidas entre 1878 e 1881 e em 1919. Não é difícil entender como os afegãos se deram tão bem contra os soviéticos nos anos 70 e 80. O Exército Vermelho era uma força de conscritos, mal treinada e sem motivação. Os soviéticos tentaram ocupar o país inteiro, o que foi uma grande besteira. Assim, forneceram fartura de alvos aos afegãos. Os americanos devem evitar essa estratégia.

Veja – O que os Estados Unidos podem fazer no Afeganistão que os afegãos já não tenham feito em duas décadas de guerra civil?
Keegan – Os americanos precisam decidir qual é o alvo. Não faz sentido atacar o povo. Ele não tem nada a ver com o que está acontecendo. O Afeganistão é um desses países com os quais ninguém quer se envolver. É um país-problema. É uma tremenda falta de sorte Laden estar lá e o Ocidente ter de se envolver.

Veja – Quais são as probabilidades de os terroristas transformarem esse conflito numa guerra santa islâmica de grandes proporções?
Keegan – A idéia de criar uma guerra santa é ridícula. O maior perigo é outro. Muitos terroristas vão conseguir escapar da perseguição, terão acesso a armas de destruição em massa e provocarão novos e horrendos atentados. Alguns deles são pessoas inteligentes e bem treinadas. Vão seguir em frente até conseguir colocar as mãos em armas biológicas e nucleares. Quando conseguirão, não sei. Mas acho que não demora.

Veja – A situação que estamos vivendo, depois da estréia do terrorismo em massa, é inédita na história militar?
Keegan – Sim. Os meios usados pelos terroristas são muito mais destrutivos que os utilizados em qualquer outro momento da História. Antes, era difícil cometer grandes atos de crueldade. Isso tudo mudou depois da criatividade exibida pelos terroristas que acabaram com o World Trade Center. Nem mesmo escritores de ficção previram algo assim.

Veja – Estamos vendo a primeira guerra verdadeiramente mundial?
Keegan – Não. Muitos países não são suscetíveis ao terrorismo. As nações escadinavas têm população homogênea e urbana. Não correm perigo. O terrorismo precisa de um certo grau de sofisticação e de financiamento. A maior parte do mundo é muito primitiva para dar apoio a grupos terroristas. É importante lembrar que os fundamentalistas são apenas uma minoria. Na Inglaterra, temos uma comunidade muçulmana e a maior parte de seus membros está preocupada em educar os filhos e prosperar. É claro que muitos nutrem certa simpatia por seus companheiros de crença. Mas são pessoas sofisticadas e sabem que é melhor não se misturar com os fundamentalistas. É possível que os radicais organizem algum ataque na Inglaterra, contudo não acredito em algo continuado. Já a França deve estar atenta. Tem uma grande população islâmica e a maior parte dela vive na pobreza e está descontente.

Veja – Os ataques terroristas a Nova York e Washington foram uma façanha em termos de logística e eficácia?
Keegan – Sim. Foram muito bem organizados. Escolheram vôos em que não havia muitos passageiros e aviões cheios de combustível. Os terroristas também tiveram muitíssima sorte. Conseguiram seqüestrar quatro aeronaves simultaneamente. Dominaram as tripulações e os passageiros sem portar armas potentes. Não chamaram a atenção dos serviços de espionagem. É incrível que tenham aprendido a voar nos Estados Unidos. Se tivessem feito o mesmo num pequeno país europeu, as forças de segurança teriam sido avisadas. Dá para entender por que os americanos dormiram no ponto. Os Estados Unidos são um país enorme, com 285 milhões de habitantes, pessoas de várias partes do mundo e algumas delas com passatempos estranhos. Há uma questão importante que ninguém falou ainda. Embora os ataques aos Estados Unidos tenham sido bem organizados, do ponto de vista militar as perdas dos criminosos foram de 100%. Morreram todos os dezenove terroristas. Será que sempre haverá jovens dispostos a morrer por seus líderes?

Veja – Como se luta contra um inimigo sem rosto, como o terrorista islâmico?
Keegan – Em grande parte é uma questão de segurança interna. A segurança nos países democráticos é muito relapsa. Esse é o caso nos aeroportos, mesmo depois dos ataques. Usinas nucleares, fontes de energia e todos os meios massivos de transporte deveriam receber atenção especial. É também uma questão de inteligência. Temos de descobrir onde os radicais vivem e como pegá-los.

Veja – Osama bin Laden tem atributos como estrategista e guerreiro?
Keegan – Sabemos muito pouco sobre ele. Exerce uma enorme atração sobre uma parte dos muçulmanos e tem uma mensagem muito simples: morte a todos os ocidentais. Quer atrair atenção para si e se tornar um herói. Existem muitos outros líderes fundamentalistas tão ou mais perigosos que ele de que nunca ouvimos falar porque trabalham em silêncio.

Veja – Por que existe a guerra?
Keegan – Os homens lutam por questões racionais. Acham que os custos de ir à guerra valem a pena em vista de vantagens em caso de vitória. Desta vez, temos uma guerra irracional.

Veja – O significado da guerra varia de acordo com a cultura?
Keegan – Sim. No mundo acadêmico, há dois grupos. Um acha que a guerra tem características imutáveis e outro diz que os conflitos mudam conforme a cultura. Sou do segundo grupo. A mais recente evidência de que a guerra é cultural são os guerreiros suicidas islâmicos, que não existem na tradição judaico-cristã.

Veja – Em que circunstância uma guerra é considerada justa?
Keegan – Antes de Hugo Grotius, escritor holandês do século XVII, a idéia de justiça na guerra era relacionada à moralidade cristã. Quando Estados protestantes começaram a lutar contra Estados católicos e vice-versa, foi um choque para todos, e a idéia de justiça relacionada à moral cristã caiu em desgraça. Grotius procurou nova base para estabelecer o que é uma guerra justa. No fim das contas, resumiu seu pensamento da seguinte forma: o Estado deve ser o juiz de seus atos. Se o Estado acredita que uma guerra é justa, então a guerra é justa. Isso valeu até a criação das Nações Unidas. A partir da década de 40, guerras justas são as que recebem a aprovação das Nações Unidas e aquelas levadas a cabo em autodefesa.

Veja – A luta desencadeada pelos Estados Unidos contra o terrorismo deve figurar na categoria das guerras justas?
Keegan – A rigor, nem é uma guerra. Usamos essa palavra para definir conflitos entre Estados, o que não é o caso agora. São ações contra criminosos. Como agem no âmbito internacional, isso torna as coisas mais difíceis. Embora o presidente George W. Bush tenha usado a palavra guerra, legalmente é uma investigação criminal e tentativa de prender terroristas. Essas ações são justas, sem sombra de dúvida. Todo Estado tem o dever e o direito de proteger a vida de seus cidadãos, contra criminosos internos ou externos. Não existe o menor espaço para defender a posição dos terroristas.

Veja – Esses atentados não mudam o conceito tradicional de guerra?
Keegan – Pensando bem, mudam. Aliás, sempre achei limitada a forma tradicional como conceituamos guerra no Ocidente. Podemos, sim, chamar esse conflito de guerra, visto que contém todos os ingredientes de uma, como a extrema violência e os múltiplos objetivos. Entre esses objetivos está o de abalar o governo americano. Há também uma ideologia, que é o fundamentalismo islâmico.

Veja – Os Estados Unidos vão vencer a guerra contra o terrorismo?
Keegan – Certamente não vão perder. Se vão ter uma vitória acachapante, é outra questão. Há ainda uma terceira possibilidade. A persistência de uma espécie de terrorismo constante e de baixa intensidade, o que mudaria totalmente a maneira como vivemos nos últimos cinqüenta anos.

Veja – Essa guerra pode tornar-se endêmica?
Keegan – Se medidas extremas não forem tomadas, irá tornar-se endêmica. Se os países que estão sendo ameaçados pela violência não a controlarem, serão dominados por ela. Isso é o que já ocorre em várias partes do mundo. O próprio Talibã governa em função da violência. Não representa nada exceto a si próprio, não tem preocupação com o bem-estar da população e seus métodos de operação são violentos. Isso é o que irá repetir-se em outras partes do mundo se os terroristas não forem combatidos severamente.

Veja – O que o senhor quer dizer com medidas severas?
Keegan – Vivemos uma guerra pela civilização e precisamos ser duros. Temos de identificar as pessoas que pensam como os terroristas, seus aliados e os que lhes dão apoio. Infelizmente, precisamos limitar as liberdades civis para que a campanha seja eficaz. O Ocidente liberal, basicamente os Estados Unidos e a Europa, está começando a entender o comportamento dos governos da Argentina, do Uruguai e do Chile contra seus oponentes nos anos 70.

Veja – Vamos ter uma repetição da guerra suja sul-americana em escala mundial?
Keegan – Em geral, guerras sujas são autodestrutivas porque ofendem os princípios fundamentais da democracia. Espero que não tenhamos uma guerra assim e não encorajo ninguém a seguir por esse caminho. Mesmo porque esses métodos não são sempre eficazes.

Veja – É possível vencer a guerra contra o terrorismo sem afetar os direitos civis, que são uma das maiores conquistas dos países ocidentais?
Keegan – Se os governos interferirem muito nos direitos humanos, a sociedade irá rebelar-se. Por outro lado, as pessoas dão mais importância à segurança em situações extremas.

Veja – Existe o perigo de políticos contrários aos direitos humanos tirarem proveito da situação atual?
Keegan – Os inimigos dos direitos humanos vão usar essa oportunidade para tentar restringir a liberdade de expressão e o direito de ir-e-vir. É necessário dizer que os direitos humanos já perderam parte do apoio que tinham. Isso ocorreu depois que terroristas internacionais começaram a usar a legislação européia para escapar da deportação. Na Inglaterra, já existe uma demanda forte para limitar de algum modo as leis que servem de proteção para terroristas.


 
 
   
  voltar
   
  NOTÍCIAS DIÁRIAS