A guerra irracional
Historiador
inglês diz que a única saída
é eliminar os terroristas, pois não se
pode usar a razão para convencê-los

Eduardo Salgado
Fascinado
por guerras e pela vida militar desde que viu as tropas aliadas se preparando
para o Dia D, no interior da Inglaterra, sir John Keegan não conseguiu
realizar o sonho juvenil de se tornar soldado. Uma doença de infância
o deixou manco e o impediu de ingressar na academia militar. Os ingleses
perderam um general, mas o mundo ganhou seu mais celebrado historiador
militar. Quando entrou na Universidade de Oxford, em 1953, dedicou-se
à história das atividades militares. Em 1960, aos 25 anos,
foi aceito como professor na Real Academia Militar de Sandhurst, a escola
de cadetes ingleses, onde ficou até 1986. Casado há quarenta
anos com Susanne e pai de quatro filhos, é editor de defesa do
jornal inglês Daily Telegraph, mas passa a maior parte de
seu tempo fazendo pesquisas e escrevendo livros. Ao todo, já publicou
vinte obras, entre elas o clássico Uma História da Guerra
(lançado no Brasil pela Companhia das Letras). Atualmente,
prepara um livro sobre as operações de inteligência
nos últimos 200 anos. De sua casa, no interior da Inglaterra, Keegan
concedeu a seguinte entrevista a VEJA.
Veja
O que será necessário fazer para que os terroristas sejam
punidos pelos atentados em Nova York e Washington?
Keegan A prisão, o julgamento e a execução
de Osama bin Laden. Mas isso não seria o fim dos problemas. Os
objetivos dos terroristas não deixam o menor espaço para
negociações e concessões. Estamos vivendo uma situação
muito incômoda. Não consigo ver um fim para isso. Para cidadãos
comuns, é muito deprimente. Para os governantes, é preocupante.
A única saída é eliminar os terroristas. Ou os prendemos
pelo resto de suas vidas ou os matamos. Não tem outro jeito. Não
temos como convencê-los de que estão errados com conversa,
usando a razão.
Veja
Será difícil para os americanos derrotar o Talibã,
a milícia que controla o Afeganistão?
Keegan O Talibã não é tão
forte quanto alguns falam. Não é numeroso nem tem um exército
bem organizado e equipado. Muitos componentes nem são afegãos.
Vêm do Paquistão e não conhecem tão bem o terreno.
O Talibã é impopular devido à forma radical com que
impôs o islamismo fundamentalista. Historicamente, os afegãos
não são particularmente fervorosos em termos religiosos.
Uma intervenção no Afeganistão não deve encontrar
forte resistência. Pelo menos, não em grandes proporções.
Já encontrar Osama bin Laden será difícil. O país
é grande e selvagem, com um terreno dificílimo. Operações
pequenas e rápidas para capturar Laden são a melhor opção.
Veja
Até que ponto a fama de guerreiros invencíveis dos afegãos
é verdadeira?
Keegan Eles são muito bons dentro do Afeganistão.
Conhecem bem o país e são arrojados. Em várias oportunidades,
conseguiram repelir invasores. Mas não são super-homens.
Os ingleses organizaram campanhas militares bem-sucedidas entre 1878 e
1881 e em 1919. Não é difícil entender como os afegãos
se deram tão bem contra os soviéticos nos anos 70 e 80.
O Exército Vermelho era uma força de conscritos, mal treinada
e sem motivação. Os soviéticos tentaram ocupar o
país inteiro, o que foi uma grande besteira. Assim, forneceram
fartura de alvos aos afegãos. Os americanos devem evitar essa estratégia.
Veja
O que os Estados Unidos podem fazer no Afeganistão que os afegãos
já não tenham feito em duas décadas de guerra civil?
Keegan Os americanos precisam decidir qual é
o alvo. Não faz sentido atacar o povo. Ele não tem nada
a ver com o que está acontecendo. O Afeganistão é
um desses países com os quais ninguém quer se envolver.
É um país-problema. É uma tremenda falta de sorte
Laden estar lá e o Ocidente ter de se envolver.
Veja
Quais são as probabilidades de os terroristas transformarem
esse conflito numa guerra santa islâmica de grandes proporções?
Keegan A idéia de criar uma guerra santa é
ridícula. O maior perigo é outro. Muitos terroristas vão
conseguir escapar da perseguição, terão acesso a
armas de destruição em massa e provocarão novos e
horrendos atentados. Alguns deles são pessoas inteligentes e bem
treinadas. Vão seguir em frente até conseguir colocar as
mãos em armas biológicas e nucleares. Quando conseguirão,
não sei. Mas acho que não demora.
Veja
A situação que estamos vivendo, depois da estréia
do terrorismo em massa, é inédita na história militar?
Keegan Sim. Os meios usados pelos terroristas são
muito mais destrutivos que os utilizados em qualquer outro momento da
História. Antes, era difícil cometer grandes atos de crueldade.
Isso tudo mudou depois da criatividade exibida pelos terroristas que acabaram
com o World Trade Center. Nem mesmo escritores de ficção
previram algo assim.
Veja
Estamos vendo a primeira guerra verdadeiramente mundial?
Keegan Não. Muitos países não
são suscetíveis ao terrorismo. As nações escadinavas
têm população homogênea e urbana. Não
correm perigo. O terrorismo precisa de um certo grau de sofisticação
e de financiamento. A maior parte do mundo é muito primitiva para
dar apoio a grupos terroristas. É importante lembrar que os fundamentalistas
são apenas uma minoria. Na Inglaterra, temos uma comunidade muçulmana
e a maior parte de seus membros está preocupada em educar os filhos
e prosperar. É claro que muitos nutrem certa simpatia por seus
companheiros de crença. Mas são pessoas sofisticadas e sabem
que é melhor não se misturar com os fundamentalistas. É
possível que os radicais organizem algum ataque na Inglaterra,
contudo não acredito em algo continuado. Já a França
deve estar atenta. Tem uma grande população islâmica
e a maior parte dela vive na pobreza e está descontente.
Veja
Os ataques terroristas a Nova York e Washington foram uma façanha
em termos de logística e eficácia?
Keegan Sim. Foram muito bem organizados. Escolheram
vôos em que não havia muitos passageiros e aviões
cheios de combustível. Os terroristas também tiveram muitíssima
sorte. Conseguiram seqüestrar quatro aeronaves simultaneamente. Dominaram
as tripulações e os passageiros sem portar armas potentes.
Não chamaram a atenção dos serviços de espionagem.
É incrível que tenham aprendido a voar nos Estados Unidos.
Se tivessem feito o mesmo num pequeno país europeu, as forças
de segurança teriam sido avisadas. Dá para entender por
que os americanos dormiram no ponto. Os Estados Unidos são um país
enorme, com 285 milhões de habitantes, pessoas de várias
partes do mundo e algumas delas com passatempos estranhos. Há uma
questão importante que ninguém falou ainda. Embora os ataques
aos Estados Unidos tenham sido bem organizados, do ponto de vista militar
as perdas dos criminosos foram de 100%. Morreram todos os dezenove terroristas.
Será que sempre haverá jovens dispostos a morrer por seus
líderes?
Veja
Como se luta contra um inimigo sem rosto, como o terrorista
islâmico?
Keegan Em grande parte é uma questão
de segurança interna. A segurança nos países democráticos
é muito relapsa. Esse é o caso nos aeroportos, mesmo depois
dos ataques. Usinas nucleares, fontes de energia e todos os meios massivos
de transporte deveriam receber atenção especial. É
também uma questão de inteligência. Temos de descobrir
onde os radicais vivem e como pegá-los.
Veja
Osama bin Laden tem atributos como estrategista e guerreiro?
Keegan Sabemos muito pouco sobre ele. Exerce uma enorme
atração sobre uma parte dos muçulmanos e tem uma
mensagem muito simples: morte a todos os ocidentais. Quer atrair atenção
para si e se tornar um herói. Existem muitos outros líderes
fundamentalistas tão ou mais perigosos que ele de que nunca ouvimos
falar porque trabalham em silêncio.
Veja
Por que existe a guerra?
Keegan Os homens lutam por questões racionais.
Acham que os custos de ir à guerra valem a pena em vista de vantagens
em caso de vitória. Desta vez, temos uma guerra irracional.
Veja
O significado da guerra varia de acordo com a cultura?
Keegan Sim. No mundo acadêmico, há dois
grupos. Um acha que a guerra tem características imutáveis
e outro diz que os conflitos mudam conforme a cultura. Sou do segundo
grupo. A mais recente evidência de que a guerra é cultural
são os guerreiros suicidas islâmicos, que não existem
na tradição judaico-cristã.
Veja
Em que circunstância uma guerra é considerada justa?
Keegan Antes de Hugo Grotius, escritor holandês
do século XVII, a idéia de justiça na guerra era
relacionada à moralidade cristã. Quando Estados protestantes
começaram a lutar contra Estados católicos e vice-versa,
foi um choque para todos, e a idéia de justiça relacionada
à moral cristã caiu em desgraça. Grotius procurou
nova base para estabelecer o que é uma guerra justa. No fim das
contas, resumiu seu pensamento da seguinte forma: o Estado deve ser o
juiz de seus atos. Se o Estado acredita que uma guerra é justa,
então a guerra é justa. Isso valeu até a criação
das Nações Unidas. A partir da década de 40, guerras
justas são as que recebem a aprovação das Nações
Unidas e aquelas levadas a cabo em autodefesa.
Veja
A luta desencadeada pelos Estados Unidos contra o terrorismo deve figurar
na categoria das guerras justas?
Keegan A rigor, nem é uma guerra. Usamos essa
palavra para definir conflitos entre Estados, o que não é
o caso agora. São ações contra criminosos. Como agem
no âmbito internacional, isso torna as coisas mais difíceis.
Embora o presidente George W. Bush tenha usado a palavra guerra, legalmente
é uma investigação criminal e tentativa de prender
terroristas. Essas ações são justas, sem sombra de
dúvida. Todo Estado tem o dever e o direito de proteger a vida
de seus cidadãos, contra criminosos internos ou externos. Não
existe o menor espaço para defender a posição dos
terroristas.
Veja
Esses atentados não mudam o conceito tradicional de guerra?
Keegan Pensando bem, mudam. Aliás, sempre achei
limitada a forma tradicional como conceituamos guerra no Ocidente. Podemos,
sim, chamar esse conflito de guerra, visto que contém todos os
ingredientes de uma, como a extrema violência e os múltiplos
objetivos. Entre esses objetivos está o de abalar o governo americano.
Há também uma ideologia, que é o fundamentalismo
islâmico.
Veja
Os Estados Unidos vão vencer a guerra contra o terrorismo?
Keegan Certamente não vão perder. Se
vão ter uma vitória acachapante, é outra questão.
Há ainda uma terceira possibilidade. A persistência de uma
espécie de terrorismo constante e de baixa intensidade, o que mudaria
totalmente a maneira como vivemos nos últimos cinqüenta anos.
Veja
Essa guerra pode tornar-se endêmica?
Keegan Se medidas extremas não forem tomadas,
irá tornar-se endêmica. Se os países que estão
sendo ameaçados pela violência não a controlarem,
serão dominados por ela. Isso é o que já ocorre em
várias partes do mundo. O próprio Talibã governa
em função da violência. Não representa nada
exceto a si próprio, não tem preocupação com
o bem-estar da população e seus métodos de operação
são violentos. Isso é o que irá repetir-se em outras
partes do mundo se os terroristas não forem combatidos severamente.
Veja
O que o senhor quer dizer com medidas severas?
Keegan Vivemos uma guerra pela civilização
e precisamos ser duros. Temos de identificar as pessoas que pensam como
os terroristas, seus aliados e os que lhes dão apoio. Infelizmente,
precisamos limitar as liberdades civis para que a campanha seja eficaz.
O Ocidente liberal, basicamente os Estados Unidos e a Europa, está
começando a entender o comportamento dos governos da Argentina,
do Uruguai e do Chile contra seus oponentes nos anos 70.
Veja
Vamos ter uma repetição da guerra suja sul-americana
em escala mundial?
Keegan Em geral, guerras sujas são autodestrutivas
porque ofendem os princípios fundamentais da democracia. Espero
que não tenhamos uma guerra assim e não encorajo ninguém
a seguir por esse caminho. Mesmo porque esses métodos não
são sempre eficazes.
Veja
É possível vencer a guerra contra o terrorismo sem afetar
os direitos civis, que são uma das maiores conquistas dos países
ocidentais?
Keegan Se os governos interferirem muito nos direitos humanos,
a sociedade irá rebelar-se. Por outro lado, as pessoas dão
mais importância à segurança em situações
extremas.
Veja
Existe o perigo de políticos contrários aos direitos
humanos tirarem proveito da situação atual?
Keegan Os inimigos dos direitos humanos vão
usar essa oportunidade para tentar restringir a liberdade de expressão
e o direito de ir-e-vir. É necessário dizer que os direitos
humanos já perderam parte do apoio que tinham. Isso ocorreu depois
que terroristas internacionais começaram a usar a legislação
européia para escapar da deportação. Na Inglaterra,
já existe uma demanda forte para limitar de algum modo as leis
que servem de proteção para terroristas.
|